Lisboa - Maria Celmira Bauleth "Riquita", a primeira Miss Angola antes da Independência Nacional tomou a decisão de renunciar a nacionalidade angolana, em favor da britânica. A decisão foi anunciada pela mesma - via  facebook -  revelando estar sujeita  a um exame de cultura geral sobre a história da Inglaterra como requisito para a obtenção da cidadania britânica.

Fonte: Club-k.net

“Decidi que vou fazer provas para ter passaporte Inglês. Para isso renunciarei à dupla Nacionalidade Angola/Portugal. Que o Universo me ajude no teste. Não será difícil. Falo e escrevo eximiamente Inglês e sei história de Inglaterra e não quero mais ser Angolana ou Portuguesa”, declarou esta cidadã,  nascida na província do Namibe, há 67 anos.


Riquita Bauleth foi eleita em 1971 como a mais bela mulher de Angola e de Portugal. Contava 18 anos de idade.


Em 2007, o Jornal Correio da Manha dedicou-lhe uma pagina a contar como foi a sua eleição a época colônial na qual o Club-K reproduz o texto.

 

Tempo também passa pelas mais bonitas

 

Odia em que Maria Celmira Bauleth regressou a Angola foi de feriado nacional. Quando o avião aterrou havia um mar de gente à espera dela no Aeroporto de Luanda. Improvisou-se uma passadeira aérea para tirá-la de lá. Lançaram-na depois num automóvel descapotável. Percorreu as ruas da cidade, acenando ao povo, tal e qual uma rainha. Maria Celmira era uma rainha – da beleza. Natural de Moçâmedes, tinha sido coroada Miss Portugal 1971. Faz agora 36 anos. O tempo não a poupou – nem a outras, como Ana Maria Lucas ou Carla Caldeira, que usaram a coroa –, mas o título libertou-a do esquecimento.


É uma mulher alta. Morena. Protege os olhos inflamados pela renite, “é sempre assim nesta altura do ano”, atrás dos óculos de sol com armação grande e branca. Os lábios são cheios. Movimenta-se com elegância – do tipo que não compromete a ligeireza dos passos e dos gestos.


Não perdeu a agilidade que em miúda a habilitava a subir às árvores e a jogar basquetebol no liceu. Frequentava o 7.º ano antigo, actual 12.º, quando, um dia, à saída do cinema, lhe falaram do concurso Miss Angola. Logo a ela que “nunca tinha desfilado nem ouvido falar de misses”.


Naquele tempo, Portugal era do Minho a Timor e tinha um pé em África. Tudo servia para propagandear a ‘unidade do Império’ – a beleza feminina não era excepção. 1971 foi o ano em que, pela primeira vez, Angola se fez representar na eleição da mais bela mulher portuguesa.


Daí o empenho dos “jornalistas da revista ‘Notícia’, que percorreram o país todo de avioneta a promover o concurso.” Não era a competição propriamente dita que seduzia Riquita – é por este nome que todos conhecem Celmira –, derivação de ‘riquinha’, como lhe chamou o médico que a fez nascer aos sete meses de gestação. O que lhe agradou foi a perspectiva de se divertir em Luanda: “Ir à praia e a cocktails.”


DIVERTIU-SE MUITO NA PRAIA E NAS FESTAS


Divertiu-se muito na praia e nas festas. Em contrapartida, sorria pouco em palco. “Os organizadores diziam-me que eu era a concorrente favorita e só lamentavam que eu não sorrisse.” Decidiram contar-lhe uma “anedota ordinária” envolvendo um peixe-espada.


Nos bastidores, Riquita fartou-se de rir, mas nos desfiles mantinha a sisudez, até começarem a gritar-lhe da plateia ‘Peixe-espada! Peixe-espada!’ Riquita diz que já não se lembra da piada. Desculpa-se por não saber contá-la. Ou então recorda-se e continua a rir-se sozinha.


Fosse pelos seus lindos olhos ou por causa das gargalhadas, a menina de Moçâmedes, actual Namibe, ganhou a eleição. No ano seguinte voou para Portugal.


Encontramo-la então no Casino do Estoril. Nunca antes e nunca depois lá receberam um presente como o que os mucubais, tribo nómada da região de Capangombe, onde os pais de Riquita tinham uma fazenda, enviaram à rapariga: uma planta carnívora – Welwitschia Mirabilis – que só existe no deserto do Kalahari. Queriam dizer-lhe que se orgulhavam dela. Ela retribuiu-lhes com a vitória na metrópole. “Para os angolanos a eleição era muito importante. Mandavam-me telegramas, compuseram uma canção para mim.”


Depois de Lisboa viajou para Miami, nos Estados Unidos, onde participou na eleição da Miss Universo. Riquita apresentou-se com o traje tradicional dos mucubais e com adereços emprestados por eles – untados com leite azedo e excrementos de boi. “Havia quem se afastasse por causa do cheiro.” Fosse como fosse, a festa tinha acabado. “Era tudo muito profissional. Muito sério. Ensaios das sete da manhã às sete da noite. Não era para mim.” Desistiu.


O pai escreveu uma carta aos organizadores do concurso Miss Portugal agradecendo-lhes a atenção dispensada à filha e, de caminho, informando-os de que ela se ia embora. Sim, abdicava da coroa. Foi um escândalo. Quiseram obrigá-la a devolver todos os prémios. Riquita fincou o pé e já não participou no concurso Miss Europa. Regressou a Moçâmedes e, mais tarde, frequentou a Universidade de Luanda.


Depois do 25 de Abril, veio para Portugal, onde fez carreira de modelo até completar 35 anos. Hoje permanece ligada aos bastidores da moda, através da produção e comercialização de roupa. Também dá aulas de passerelle. Não sente a falta dos flashes. “Durante dois anos fui capa de todas as revistas. Bastou-me.” O mais importante – será a renite ou a emoção que agora lhe humedece os olhos? – é, sublinha, o amor do povo angolano e esse ninguém pode alguma vez tirar-lho.
Os anos deixaram-lhe marcas no rosto – vincos na testa, sulcos debaixo dos olhos, traços verticais nas faces. “Há algum tempo comecei a pensar em esticar um bocado a cara.” Riquita teme parecer “a avó das amigas” se não recorrer à cirurgia estética. “Elas [as amigas] eram mais velhas do que eu e agora dizem que são quase da minha idade.” O cabelo dela, escuro e brilhante, desmancha-se quando ri.


E ri muito, como se ainda lhe gritassem ‘Peixe-espada!’ de uma qualquer plateia, ao sublinhar as vantagens de ver(-se) mal e “nunca usar óculos de manhã”. No resto do dia, as lentes progressivas não ajudam. “Quando comecei a usá-las e me vi bem ao espelho disse: “Não sou eu.”


Qualquer dia, também porque o rosto não combina com a juventude do espírito, a Miss Portugal 1971 e eterna Miss Angola vai sujeitar-se, não a retoques, “mas a um tratamento completo, dos pés à cabeça”. E eis que o cabelo de Riquita se desmancha de novo.

TODA A GENTE SABE...

Toda a gente sabe que Ana Maria Lucas foi a primeira Miss Portugal. Ela diz não pensar muito nisso. Mas as pessoas lembram-lho constantemente. Foi em 1970. Ana Maria tinha 20 anos, quase 21. Não sabia sequer que era concorrente até ver a sua fotografia no ‘Diário Popular’. Naquele tempo era diferente. “Éramos propostas por pessoas da Comunicação Social. Eu fui escolhida pela Maria Leonor [jornalista e apresentadora].” Pensou que os pais não autorizariam. Mas Maria Leonor tinha falado com eles. Estava tudo combinado.


Embora fosse manequim desde os 16 anos, Ana Maria Lucas não confiava na vitória. “Já estava a despir-me para me ir embora quando o José Fialho veio dizer-me que tinha ganho e era preciso voltar ao palco.” Opalco girava e, no final da volta, diante da assistência, a rainha devia apresentar-se sentada no trono. “Por pouco não apareceu vazio”, lembra Ana Maria, piscando o olho a quem acaba de atirar-lhe um piropo: “És a avó mais elegante deste País!”


O dia é de ‘Tertúlia Cor-de-Rosa’, rubrica do programa da SIC ‘Fátima’, em que a Miss Portugal 1970 é comentadora. Nos corredores dos estúdios ComunicaSom, local de gravação, os técnicos e artistas saúdam-na com amabilidade. Quando o programa acaba, ela circula por ali com o cigarro a consumir-se entre os dedos e retribui-lhes com palavras simpáticas, sorrisos e piscadelas de olho. “Gosto de fazer televisão.”


Filha de um jornalista do ‘Diário de Notícias’ e revisor da Bertrand, Ana Maria Lucas cresceu num ambiente informado. Mas, se ainda jovem pôde sair de Portugal e conhecer outros países, foi porque tinha na cabeça a coroa de rainha da beleza. “Lá fora, nas entrevistas, expressava mais ou menos o que era o meu País naquela altura. Nunca fui uma mulher de Direita.” Sempre foi “de Esquerda” e sem papas na língua: “Jamais usei o título para comprar bifes.” É à ética do trabalho que continua a reportar-se.


Passada a eleição, fez publicidade, apresentou o Festival da Canção de 1971 – ganhou Tonicha, com o tema ‘Menina’ –, passou modelos, casou com o cantor Carlos Mendes, trabalhou numa empresa de vestuário que tinha 13 lojas. Desenhou roupa e aí rectifica: “O que mais gostei de fazer foi estilismo e televisão.” Participou em telenovelas, apresentação de programas e recentemente no ‘Big Brother Famosos’.


É à circunstância de se apresentar publicamente que a ‘tertuliana’ atribui ter feito alguns ‘retoques’ – até agora apenas peeling e botox. “Andam a oferecer-me operações plásticas há mais de dez anos. Um dia lá terá de ser: quem tem uma imagem pública deve algum respeito aos que estão a ver.” Ana Maria Lucas gostaria de continuar a ser vista, por exemplo, num programa dirigido às mulheres.


NUM DIA DE SOL

Num dia de sol primaveril Carla Caldeira apresenta-se sem óculos escuros. Não teme que as rugas se abram em leque nos cantos dos olhos. Tem feições clássicas e regulares. É uma mulher muito bonita e muito alta. Quem passa diante do mar da Costa da Caparica olha para ela e pergunta-se de onde a conhece. Foi eleita Miss Portugal em 1990. Eram já outros os tempos – menos dados à adoração popular das belas, direccionados para o aproveitamento comercial do evento.


Foi o pai que praticamente a obrigou a candidatar-se. “Recortou o cupão do Correio da Manhã e disse-me que eu não podia abandonar a mesa se não o preenchesse. Foi ele a tirar-me as medidas.” Ela tinha 16 anos. Fez 17 em 1990. Estava muito assustada durante a gala de eleição. “Só me apetecia fugir dali.” Ter ouvido o seu nome animou-a. “Primeiro pensei que eram os meus pais, os meus únicos convidados, mas eles não podiam fazer tanto barulho.” Pois não. Era a assistência que, mesmo antes do júri, já a tinha preferido.


Depois passaram a conhecê-la na rua. “Uma pessoa nunca está preparada para passar do mais absoluto anonimato para este tipo de exposição.” Nos anos seguintes, após ter frequentado o curso de manequim, participou em passagens de modelos e na apresentação de programas de televisão, entre eles o ‘Top +’. Mas Carla queria ter filhos. Queria formar a sua própria família.


Rapidamente percebeu que a imagem de mãe não casava com a de modelo. “Perdi trabalhos pelo facto de ter engravidado.” Hoje não lamenta. Montou a sua própria empresa – Carla Caldeira Produções –, relacionada com a organização de eventos radicais e tem três filhos, de 4, 7 e 8 anos. O do meio não gostou de vê-la na gala dos 50 anos da RTP com um vestido que lhe deixava ‘a raiz’ – palavra do João para designar a coxa da mãe – à mostra. Já a Catarina não gosta que estranhos falem à mãe na rua. Ela explica-lhes como pode: “É por causa da televisão.”

 



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