Se olharmos para os nossos países, facilmente notamos que a esmagadora maioria das pessoas não possui níveis altos de escolaridade. Aliás, os elevados índices do analfabetismo estão à vista. Muito mais nos países que, em virtude do conflito armado, permaneceram anos e anos estacionados. Na verdade, o ensino é um problema sério no nosso continente. Um dos meus políticos preferidos, Nelson Mandela, afirmou eloquentemente que “democracia com fome, sem educação e saúde para a maioria, é uma concha vazia” – frase que subscrevo na totalidade.

Educação, saúde e pão para a maioria é o que nos falta em África. Faltou e continuará a faltar tudo isto, infelizmente. E nós continuamos a pregoar as democracias sem, todavia, acautelar estes importantes aspectos numa sociedade normal. Não é que eu esteja contra o estabelecimento das democracias em África e em Angola particularmente. Antes pelo contrário defendo-as. O que tenciono dizer é que uma democracia, nos nossos países, que não assente sobre os direitos fundamentais da educação, saúde, pão, habitação… é, de facto, uma concha vazia. E as nossas democracias têm sido mais conchas vazias que colheres cheios de xaropes. 

Após as independências nacionais, muitos países africanos não conseguiram dominar os “vulcões” que impossibilitaram a consolidação dos Estados recém-livres do colonialismo. Países, que facilmente podemos apontar dedo sem medo de não acertar, são prova inequívoca da nossa corrente. Uma vez alcançadas as independências, foram engolidos por inevitáveis conflitos internos, em muitos casos na tentativa do assalto ao poder político, consumando inclusivamente golpes de Estado, porque os detentores do poder estadual não tinham sido legitimados pela vontade popular. Por um lado.

Por outro, as formações políticas não têm tido a virtude de dialogar. Umas porque, em virtude dos grupos tribais que defendem, negaram-se a fazê-lo, pondo em causa as “soberanias nacionais”. Outras, porque, pela arrogância, fecharam-se no seu “ius imperii”. Por isso, não raras vezes se consumaram derrubes de governos em muitos dos nossos países. A título de exemplo, golpes de Estado aconteceram em Burkina Faso, levados a cabo por Coronel Saye Kizerbo e Thomas Sankara, capitão Blaise Campaoré. Desde 1960, data em que alcançou a sua independência da França, Burkina Faso já passou por cinco golpes de Estado, sem ainda contar com o assassinato de vários líderes da Oposição.

Esta prática, infelizmente, tem sido uma das formas mais adequadas adoptadas, em África, para inibir incivilmente o estabelecimento dos sistemas de eleição livre e justa por voto democrático e popular. O medo que tem pesado sobre os dirigentes políticos em relação ao povo que os não poderia escolher ou eleger para cargos públicos, a ambição de assumirem o poder e de governarem, a ânsia de se perpetuarem no poder, entre outros apetites, atiçaram fortemente o golpismo em África. E o golpismo, entenda-se aqui, não é só por meio da acção arma, mas também pelas manobras eleitorais, durante os escrutínios.

 No caso particular da linguagem dos discursos políticos, na tentativa de elucidar o pluralismo político, nem sempre esta realidade tem ajudado a edificar a torre democrática. Algumas vezes, os discursos de dirigentes políticos amarfanham a imagem do que seria a verdadeira democracia em África, metendo à bulha no seio das comunidades iletradas. E, quanto a esta última realidade, Angola não é uma excepção. A linguagem política no nosso país precisa de ser mais afinada para suscitar interesse popular na construção da nossa adolescente democracia. Afinada como uma música clássica de Beethoven. Não estão de acordo comigo?

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Fonte: A Capital



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