Luanda - É o actual bastonário da Ordem dos Engenheiros de Angola e concorre para mais um mandato de quatro anos, sendo o único a apresentar candidatura às eleições previstas para o próximo dia 7 de Novembro. A pessoa de quem se fala é Augusto Paulino Neto, engenheiro de minas, que, em entrevista ao Jornal de Angola, lamentou o facto de muitas obras públicas no país apresentarem péssima qualidade.

Fonte: JA
Bastioeng.jpg - 45,69 kBO senhor parte para as eleições do dia 7 de Novembro de forma isolada, para uma renovação de mandato. Que argumentos traz o seu programa para convencer o eleitorado?
O que nós pretendemos essencialmente é consolidar um conjunto de acções que vínhamos levando a cabo, desde 2017, quando assumimos os destinos da Ordem dos Engenheiros de Angola. Apostamos seriamente na renovação, que procura incluir todas as correntes de pensamento existentes na classe dos engenheiros e que traga as gerações jovens para mais perto da gestão da Ordem. É uma forma em que entendemos ser a melhor para prepararmos a sucessão, ao mesmo tempo que melhoramos a capacidade dos profissionais. A ideia é de que possamos manter o nosso propósito de cumprir com a nossa missão, que tem a ver com a promoção e defesa dos interesses dos profissionais de Engenharia, valorizar e prestigiar a profissão e, desta forma, contribuir para o progresso do nosso país. Para este mandato, nós temos uma proposta de sete objectivos fundamentais. Queremos o resgate do papel da Engenharia angolana; continuar a sintonizar a Ordem com as exigências do século XXI e enfrentar essa nova realidade, em função da Covid-19; trabalhar na consolidação financeira e administra-tiva da Ordem, de forma a continuarmos a promover a Engenharia a todos os níveis; apoiar, cada vez mais, o profissional de Engenharia, seja ele estudante, recém-formado, seja profissional no activo, tendo em conta a necessidade de apostarmos seriamente na formação contínua e na melhoria das capacidades técnico-científicas dos nossos membros. No fundo, o que pretendemos é reforçar a imagem da Ordem, colocando-a a um nível de referência para os assuntos de Engenharia.

Como pensa o senhor fazer para materializar esses objectivos, uma vez que alguns desses propósitos são do mandato anterior?
É verdade que, no fundo, os referidos objectivos são consequência do trabalho que fomos desenvolvendo, desde 2017. Por exemplo, quando falamos em resgatar a Engenharia angolana, é porque defendemos que temos de assumir a Engenharia como uma profissão de risco e de confiança pública. Resgatar a Engenharia angolana é reconhecer nos engenheiros angolanos a capacidade e a racionalidade que têm os engenheiros no momento de pensar e resolver problemas, ajustando as soluções à realidade angolana e garantir que os projectos e a concepção das grandes obras tenham lugar em território nacional, com a participação do saber local, acumulando-se, desta forma, conhecimento, experiências e habilidades internas, para sustentar o futuro. Desta forma, nós vamos consolidar na Ordem as competências e o "know-how” para regular a profissão de Engenharia, tendo em vista os desafios actuais e os que se podem colocar futuramente. Vamos ter de consolidar o diálogo que temos mantido com o Executivo, no sentido de apoiarmos continuamente a busca de soluções que estejam ajustadas à realidade nacional. Entre outras acções, nós vamos sugerir que engenheiros altamente qualificados possam ser chamados para os quadros das administrações locais, no sentido de estes fornecerem suporte necessário ao planeamento estratégico local e definir vocações económicas que possam permitir o estabelecimento de prioridades, utilizando os recursos colocados à disposição dessas entidades. Teremos de concluir a nossa base de dados e de acervo profissional e começar a operacionalizar o Conselho de Gestores de Faculdades de Engenharia, criado no ano passado, e reforçar o funcionamento integral do nosso Observatório Nacional de Infra-estruturas.

Falou em resgate do engenheiro angolano. O que se quer resgatar, de facto?
Os engenheiros estão, praticamente, em todas as áreas da vida económica do país e constituem uma peça fundamental para o desenvolvimento nacional. O que nós precisamos é que, sempre que desenvolvermos alguma actividade ou projecto, aquilo que é o conhecimento fique em Angola e esteja registado em Angola. Se repararmos, por exemplo, boa parte de determinados projectos que são aqui desenvolvidos são pensados e traçados fora de Angola. E uma vez implementados, o que acontece é que o conhecimento ou a base do conhecimento não fica em Angola, porque quem o concebeu acaba sendo o dono desse "know-how”. Nós queremos inverter esse cenário. E isso vai exigir de nós, enquanto profissionais, uma maior responsabilidade e a necessidade de nos rodearmos de pessoas com competências para aquilo que for exigido, quer em termos de definição do projecto, quer na execução desse projecto. Ou seja, vai exigir que nos preocupemos com a nossa formação e capacitação. E que essa capacitação seja, sobretudo, um processo contínuo.

O que estará na base dessa questão que levantou de projectos para Angola serem pensados e traçados fora do país e por estrangeiros?
É mais ou menos consensual que já houve diferentes ocasiões em que o País teve de privilegiar algumas parcerias para executar os seus Programas de Investimentos Públicos, por falta de capacidade interna de execução das respectivas empreitadas e por indisponibilidade financeira, cujas linhas de crédito tinham como base negocial a transferência tecnológica dos países de origem para Angola. Por força disso, muitas vezes, os projectos são executados fora do território nacional e a sua execução acaba sendo atribuída a em-presas originárias dos países com quem o Estado estabelece tais parcerias. O que temos de fazer é começar a dialogar e a fazer entender que, apesar de termos como fonte de recursos financeiros outros países, há a necessidade de se integrarem técnicos angolanos, para permitir não só a transferência do "know how”, mas, também, para fazer com que os nossos técnicos possam incorporar nos projectos o conhecimento que têm sobre a nossa realidade e preparar o terreno para a participação das nossas Universidades, das nossas empresas e de gabinetes de projectos, num exercício de trazer a engenharia e a elaboração de projectos para dentro do nosso território.

Essa questão da escolha de profissionais estrangeiros pode, igualmente, estar relacionada com a falta de confiança que o dono da obra tem nos técnicos angolanos?
Também. De uma maneira geral, aquilo que é a vontade do dono do projecto ou da obra tem peso na escolha das pessoas envolvidas na empreitada. Mas, isso não impede que o país hospedeiro possa fazer algumas exigências, no sentido de que haja uma incorporação de profissionais locais ali onde for necessário, caso existam as necessárias competências internas para o efeito, isto é, sem qualquer tipo de favorecimento ou de proteccionismo.

A elaboração de projectos para Angola fora do país, na sua visão, pode ser apontada como uma das razões que contribuem para a pouca durabilidade de certas obras?
Pode ser. Mas, um dos principais problemas da qualidade versus durabilidade, por exemplo, reside na má escolha dos empréstimos dos materiais e na ausência de um conhecimento exaustivo das suas capacidades e características. Outra variante importante tem a ver com o tipo de utilização a que é sujeito o produto final que, muitas vezes, difere da utilização para o qual foi projectado. Um outro aspecto que também concorre para este mal, que há muito faz morada nas nossa vidas, tem a ver com a manutenção, um aspecto que tem sido relegado para lugares secundários e, muitas vezes, ignorado.

Que outras preocupações mais a Ordem quer ver resolvidas, durante o próximo mandato, além dessa questão do quase afastamento de profissionais angolanos em obras no território nacional?
No decorrer da nossa actuação, nós vamos sempre nos deparar com problemas que exigem soluções. E, se partirmos do pressuposto de que a função última do engenheiro é apresentar soluções para os problemas, não temos outra alternativa que não seja actuar como profissionais que trabalham para alcançar essa máxima.

Quais são as grandes dificuldades do engenheiro angolano no exercício da profissão?
Nós precisamos de fortalecer a preparação dos engenheiros e de passar a exigir mais qualidade, mais competência e excelência aos aspectos éticos e profissionais. Para isso, vamos privilegiar a utilização de meios modernos de comunicação, para mostrar à sociedade e às entidades públicas e privadas a importância estratégica da Engenharia no bom funcionamento e no desenvolvimento do país. Isto significa que nós temos de aumentar a influência da Ordem nas decisões estratégicas do país relacionadas com a área da Engenharia, bem como tentar estar presentes em todos os fóruns de debates de âmbito nacional e internacional.

Qual tem sido o nível de participação dos engenheiros nacionais na execução dos projectos públicos, uma vez que, há uns anos, queixava-se do facto de a Ordem não ser tida nem achada?
Isto é um processo. À medida que formos dando sinais daquilo que somos capazes de emprestar à sociedade en-quanto profissionais, acredito que mais vezes seremos chamados a participar. Mas, não devemos só estar à espera desse chamado. Precisamos de fazer um trabalho para mostrar que estamos disponíveis e capazes de contribuir, de forma efectiva, para aquilo a que formos chamados. Tem de haver, também, um esforço da nossa parte, com vista a mostrar o que somos capazes de fazer.

Insistindo na mesma questão: a vossa participação nos projectos públicos de engenharia é boa ou não?
Já estivemos muito piores. Temos constatado alguma mudança. Já começamos a ter nalguns órgãos de decisão e, principalmente, de execução alguns colegas nossos. Agora, nós precisamos continuar a trabalhar para aumentar esse número de engenheiros a participar nas decisões e nas escolhas de estratégias e na definição das grandes linhas de desenvolvimento do País, nomeadamente nas infra-estruturas, na indústria, na agricultura, nas pescas, nos recursos naturais, na energia, nas tecnologias de informação e comunicação, no ambiente, na educação e na saúde.

Neste período em que está à frente da Ordem dos Engenheiros, a vossa instituição já foi chamada pelo Estado angolano para dar a sua contribuição em grandes projectos?
Nós somos, há dois anos, se não estiver em erro, membros do Conselho Técnico de Obras Públicas, onde temos dado o nosso contributo nas discussões dos grandes temas levados para esse fórum. Quando se criou o gabinete de gestão do novo aeroporto de Luanda, nós fomos chamados e tivemos encontros com os responsáveis desse gabinete e, a partir daí, desenvolvemos um trabalho de diagnóstico da referida empreitada. Na altura, colocavam-se duas questões: ou era um assunto para continuar ou abandonava-se o projecto do novo aeroporto. Nós constituímos uma equipa de peritos da Ordem, que visitou o empreendimento e apresentou o relatório do diagnóstico. Mas, infelizmente, tudo parou, por causa de alterações no referido gabinete e, depois, veio a Covid-19. Porém, a equipa está aí constituída e pronta para continuar os trabalhos, tão logo seja chamada para esse efeito. Além dessas duas frentes, independentemente de sermos chamados ou não, os nossos técnicos, volta e meia, apresentam projectos com base naquilo que são as suas constatações enquanto profissionais. Por exemplo, na Gala dos Engenheiros, em Dezembro de 2019, nós apresentámos o Conceito de Estratégias de Desenvolvimento da Ilha de Luanda e o Projecto de Produção de Adubos Orgânicos no Cunene. Também fomos chamados a dar o nosso contributo para a alteração do Decreto Lei sobre a Revisão do Imposto Predial Urbano, em que estivemos a trabalhar com técnicos da Administração Geral Tributária (AGT) e apresentamos os nossos pontos de vista, alguns acolhidos e outros não. Também estivemos envolvidos na identificação de problemas nacionais e emissão de pareceres sobre projectos de desenvolvimento como o Plano Integrado de Intervenção nos Municípios (PIIM) e o Projecto de Apoio ao Crédito (PAC), sobre as autarquias locais, bem como prestamos diversos trabalhos de assessoria técnica ao Tribunal Provincial de Luanda.

Do ponto de vista de constatação da Ordem, onde é que tem havido falhas na execução de projectos públicos, principalmente na construção de estradas e edifícios?
É um pouco difícil estar a elencar aqui onde falhamos. Mas, basicamente, em alguns casos, a falha está na inexistência do projecto. Às vezes, as pessoas não deram importância necessária ao projecto e, noutros casos, falhamos na fiscalização e, também, há situações ainda em que falhamos na manutenção das obras, assim como falhamos na má utilização da mesma obra. Se em alguns casos, podemos apresentar esses elementos como factores para o insucesso de uma determinada empreitada, noutros, o insucesso pode ter tido a ver com a integração na obra de questões relacionadas com a realidade local.

"O acto de fiscalização está subordinado a um conjunto de instrumentos legais”

O arquitecto e o engenheiro, em termos de cooperação nas obras, como trabalham?
O arquitecto e o engenheiro, normalmente andam de mãos dadas. Ambos estão preparados para executar projectos e, depois, efectuarem a fiscalização desse mesmo projecto. O que nós preconizamos é uma maior cooperação entre as duas ordens profissionais, no sentido de encontrarmos os melhores caminhos para o desenvolvimento das duas organizações profissionais e do país.

Numa obra, quem deve fiscalizar? O arquitecto ou o engenheiro?
O acto de fiscalização está subordinado a um conjunto de instrumentos legais que definem, entre outros, o quê fiscalizar, em que consiste o trabalho de fiscalização e quem deve fiscalizar. Portanto, a fiscalização só deve ser efectuada por quem estiver devidamente preparado, ou seja, por quem tenha competências para levar a cabo essa tarefa. Os dois profissionais podem fazer a fiscalização, basta que tenham capacidades e competências.

O engenheiro, há pouco, referiu-se à falta ou à má fiscalização como um dos factores da pouca durabilidade das obras. Por que razão temos essas falhas na fiscalização? Por carência de fiscais ou incapacidade desses?
Nós temos falhado muito na escolha dos fiscais. O problema é que olhamos para os fiscais como técnicos sem importância e que só os colocamos na empreitada por uma questão de cumprimento da lei, quando, na verdade, os fiscais são peças fundamentais na execução de obras. Ao longo do desenvolvimento da empreitada, são os fiscais que garantem que aquilo que está projectado para a edificação seja cumprido rigorosamente!

O que mais preocupa a Ordem, em termos de execução de obras, desde a projecção à fiscalização, tendo em conta a realidade das empreitadas feitas nas diversas províncias?
O maior problema está no facto de vermos alguma incapacidade de o dono da obra perceber que, se quiser ter uma obra de qualidade, tem de incorporar nela pessoas de qualidade, que saibam o que estão a fazer e que estejam preparadas para fazer o que lhes é exigido. Não podemos continuar a improvisar nem a fingir que estamos a fazer bem as coisas. Devemos executar os trabalhos com maior responsabilidade, com qualidade e, sobretudo, com a percepção de que qualquer obra é quase sempre o resultado de um projecto integrado onde intervêm, pelo menos, três partes fundamentais, que são o cliente, o utilizador e o engenheiro. O engenheiro tem a função de esclarecer o que o cliente realmente deseja e transformar esse desejo em algo que seja útil ao cliente. É o engenheiro que faz com que o cliente entenda o que os utilizadores precisam, harmonizando, desta forma, os interesses de cada um dos intervenientes.

Voltando à questão da participação de engenheiros nacionais em empreitadas financiadas por entidades estrangeiras e/ou projectadas para Angola, mas fora de Angola, a Ordem tem alguma proposta concreta para contrapor essa situação?
Essa é uma das nossas principais lutas. A nossa actuação tem-se pautado no sentido de apresentarmos contribuições, para que se garanta a qualidade e que a empreitada cumpra com aquilo que são as expectativas dos utilizadores da mesma. Portanto, isso faz parte da nossa missão.

Sobre a problemática da pouca durabilidade das obras, não o ouvimos a mencionar a questão dos equipamentos ou materiais de construção. Esses não têm peso algum na determinação do tempo de vida de uma obra?
Quando nós falamos da durabilidade de uma obra, por exemplo, de uma estrada, não podemos esquecer que, além dos materiais e da forma como se vai fazer a obra, há outro aspecto fundamental que se deve ter em conta, que é a forma como utilizamos a obra. Já fiz referência a esse aspecto. Muitas vezes, queixamo-nos de que uma estrada não durou o suficiente, mas tudo depende da forma como a via foi feita, como foi concebida e da forma como é utilizada. Deixa-me recuar no tempo, para referir que quando alcançamos a paz, em 2002, a construção e reabilitação da malha rodoviária foi definida como prioridade para se garantir a rápida circulação de pessoas e bens pelo país. Essa construção e reabilitação baseou-se, fundamentalmente, na malha que já existia antes da Independência Nacional, para que, mais tarde, se reforçassem e alargassem os itinerários mais frequentados. Mas, acabamos por não fazer, depois, pelo menos em grande parte das obras reabilitadas, e pelos mais variados motivos, as correcções de traçado nem os pavimentos foram reforçados para atender ao novo tráfego, à base de meios rolantes mais pesados e com mais velocidade. Com a actual conjuntura, teremos de fazer isto, com os ajustes necessários, talvez com recurso às parcerias público-privadas e, provavelmente, ao estabelecimento de portagens. Ora, se uma estrada foi concebida, por exemplo, para suportar um determinado nível de carga, como dez toneladas, numa projecção de cinco anos, mas, ao receber cargas e velocidades superiores, é natural que essa estrada dure menos tempo! Há um conjunto de factores que contribuem para o insucesso ou sucesso de uma obra, desde a forma como é concebida, executada e utilizada.

Nos dias que correm, de acordo com o que disse mais atrás, ainda há obras executadas sem projecto?
Infelizmente, é uma realidade. Nós tivemos várias situações. Agora, não é correcto que se faça desse jeito. Não podemos pactuar com isso.

Nesses casos, a Ordem tem alguma palavra a dizer ou qual tem sido a vossa posição quando isso acontece?
Às vezes, as pessoas olham para a Ordem como se fosse a fiscal de tudo, mas não é assim. O que a Ordem dos Engenheiros de Angola fiscaliza é o exercício da actividade ou da profissão. Dos nossos profissionais, nós esperamos que tenham uma atitude ética sempre que forem exercer a profissão. Que eles nunca pactuem com situações não aceites enquanto se exerça a profissão de Engenharia. Que eles nunca pactuem com situações que possam pôr em causa os princípios morais e éticos. Dos engenheiros esperamos que actuem com honestidade intelectual e dignidade perante o cidadão, os colegas, as famílias e a sua própria consciência. Perante uma situação que ache fora das regras da profissão, deve-se denunciar esse engenheiro, via Ordem ou de outras entidades que têm a missão de velar pela boa prestação do profissional, tendo como referência a aptidão e a atitude profissionais.

E a Ordem tem recebido queixas da parte de donos de obras, por causa de trabalhos mal feitos por engenheiros?
Muito poucas queixas. Mas, nós acreditamos que à medida que formos nos impondo como uma organização de profissionais de Engenharia e atingir os níveis desejáveis de disseminação de informação à sociedade sobre a missão da Ordem, provavelmente, passaremos a ser mais contactados. Hoje, nós temos estado a trabalhar de forma activa junto do Tribunal Provincial de Luanda, para ajudar a dirimir conflitos ou litígios ligados a obras e a questões fundiárias. Sempre que fomos solicitados, nomeamos um dos nossos membros, perito na matéria em questão, para ajudar o tribunal na resolução desse caso, com base na visão técnica.

Há muitos casos desses?
Este ano, fizemos umas dez intervenções junto do tribunal, por solicitação desta entidade da Justiça.

Por norma, essas queixas em que a Ordem é solicitada a intervir a nível do tribunal estão relacionadas com que tipos de situações?
Umas são pessoas que reclamam do empreiteiro, principalmente por deficiências encontradas na obra, e outras queixam-se do fiscal, que não terá feito bem o seu trabalho. É um conjunto de situações que surgem e, sempre que o tribunal solicita a nossa intervenção, nós fazemos esse trabalho.

E do ponto de vista disciplinar, há casos em que a Ordem já terá sido obrigada a expulsar ou a retirar a carteira profissional a engenheiros?
Ainda não.

Nunca houve motivos para isso ou tem havido algu-ma flexibilidade da parte da Ordem?
Nunca fomos chamados a actuar nesse sentido. Mas, se algum profissional e membro da Ordem agir na contramão ou em desrespeito à legislação ou aos estatutos da Ordem, existem mecanismos apropriados para agir disciplinarmente contra esse profissional.

Há algum controlo do número de engenheiros não inscritos na Ordem, dos que terminam a Faculdade e dos que frequentam cursos superiores de Engenharia?
A Ordem tem o controlo de cerca de cinco mil membros. Nós temos o controlo dos que são nossos membros. Mas estamos a desenvolver um trabalho para aumentar cada vez mais o leque de pessoas na Ordem.

Como anda a relação entre a Ordem e as instituições académicas que ministram cursos superiores de Engenharia?
Criámos, no ano transacto, o Conselho de Gestores de Faculdades de Engenharia, um órgão que integra responsáveis de faculdades de diversas Universidades e institutos superiores que ministram o curso de Engenharia. A ideia é juntar sinergias para trabalharmos na melhoria do ensino das engenharias e termos um controlo mais efectivo das instituições que formam engenheiros. Neste momento, o conselho conta já com cinco faculdades, mas estamos a trabalhar para que, num futuro próximo, possamos dispor de um maior número de gestores dessas instituições. Paralelamente ao trabalho desenvolvido pelo conselho de gestores, a Ordem tem um Sistema de Acreditação de Cursos de Engenharias. Até ao ano findo, esse processo de acreditação era quase obrigatório para os que quisessem inscrever-se na Ordem. Ou seja, nós só admitíamos recém-formados que viessem de Universidades com cursos acreditados na Ordem, mas, com a introdução do exame de admissão à Ordem, deixamos de exigir que o candidato se apresentasse à Ordem com o curso acreditado nas condições anteriores. Portanto, hoje, o processo de acreditação de cursos é voluntário, dependendo da Universidade se o faz ou não. Porém, a grande vantagem é que as Universidades com cursos acreditados pela Ordem ficam, automaticamente, numa boa posição para verem os seus cursos certificados a nível da Federação Europeia das Associações de Engenharias e a nível da Federação Africana das Associações de Engenharias. Qualquer uma dessas organizações tem um sistema de certificação de cursos de Engenharia e, para se ter acesso a este sistema de certificação, as Universidades que o quiserem fazer terão de ser antes acreditadas pela Ordem dos Engenheiros.

"Não podemos avaliar as universidades cujos planos curriculares não conhecemos”

Qual é a periodicidade desse exame de admissão a que fez referência?
Os exames de admissão são efectuados sempre que tivermos um número mínimo de candidatos acima de12 candidatos. Deixa explicar que esse exame é precedido da frequência de quatro disciplinas. Quando o candidato se inscreve na Ordem, é admitido como engenheiro estagiário. Para atingir a classe de engenheiro efectivo ou engenheiro associado, ele tem duas opções: ou faz, directamente, o exame de admissão, com as disciplinas de Língua Portuguesa, Inglês técnico, Ética e Deontologia Profissional e Fundamentos de Engenharia ou, então, frequenta essas mesmas disciplinas em cursos ministrados por formadores da Ordem. Nesta formação, caso obtenha uma avaliação superior a 14 valores, o engenheiro estagiário passa a membro efectivo e é-lhe oferecido, pela Ordem, um estágio profissional que varia entre os seis e 18 meses.

No quadro da relação com as Universidades, que avaliação é que a Ordem faz dos planos curriculares das instituições de ensino que formam os engenheiros?
Nós só podemos avaliar as Universidades que se apresentam na Ordem para verem os seus cursos acreditados. Não podemos avaliar as que não conhecemos os seus planos curriculares.

E sobre essas com cursos acreditados pela Ordem…
Essas dão-nos todo um conjunto de elementos que nos permitem fazer uma avaliação dos seus planos curriculares. Há aquelas que passam, naturalmente, pelo nosso crivo e há outras que acabam por receber recomendações da Ordem, no sentido de melhorar um ou outro aspecto do currículo. Aliás, no ano passado, aprovámos o que designamos por "Referenciais dos Cursos de Engenharia”, que vamos agora publicar em Diário da República. Isso é um documento que tem as referências de base para qualquer curso de Engenharia. Não é um programa estático, uma vez que as exigências de um curso de hoje, daqui a cinco anos, por exemplo, podem alterar-se completamente, num mundo em que assistimos grandes mudanças diariamente. Nós queremos que as Universidades formem engenheiros para o mundo de hoje e do amanhã. Não queremos mais instituições académicas a formar quadros para o passado.

E quais são essas referências de base para os cursos de engenharias?
As referências têm a ver com aquilo que são as cadeiras básicas para qualquer curso de Engenharia, além das cadeiras específicas de cada curso. Todas essas orientações estão nos "Referenciais dos Cursos de Engenharia”. As disciplinas básicas são as matemáticas, as químicas, as físicas.

Num dos momentos da nossa conversa, o senhor bastonário disse que o engenheiro existe para dar soluções aos problemas. A questão das ravinas no país é um caso que tem preocupado as comunidades. O que a Ordem faz para estancar esse problema natural?
Deixa-me esclarecer que a questão das ravinas não é um assunto de hoje. Em 2012, a Ordem dos Engenheiros apresentou um projecto de contenção de ravinas para as províncias da Lunda-Norte e do Bié. Na altura, fizemos uma avaliação desse fenómeno nas duas regiões e conseguimos apontar os caminhos para resolver o problema. Hoje, se formos para essas localidades e olharmos para as ravinas, é claro, seremos obrigados a fazer outro levantamento, novos estudos e apontar outras soluções. Também chegámos a fazer o mesmo trabalho na Estrada Namibe/Tômbwa e no cemitério que se encontrava ali por perto, porque estas estruturas estavam a ser soterradas pelas dunas. Infelizmente, as nossas propostas não foram executadas. E como resultado disso, o cemitério, por exemplo, foi totalmente coberto pelas dunas!

Qual foi a explicação para a não execução da vossa proposta?
Não sei. Não recebemos nenhuma resposta, até hoje.

Naquela altura, que propostas tinham sido apresentadas pela Ordem dos Engenheiros para a contenção das ravinas e das dunas?
Não me recordo agora. Faz muito tempo! Estamos a falar de 2012. A coisa importante a reter aqui é que sempre que a Ordem constata algum problema, reúne uma equipa de especialistas e apresenta soluções para esse problema. A execução ou não é algo que nos ultrapassa.

A Ordem controla cerca de cinco mil engenheiros. Também tem tido casos de falsos engenheiros, como acontece noutras classes profissionais?
Eu não sei o que são falsos engenheiros. Para nós ou é engenheiro ou não é engenheiro. Agora, há pessoas que se fazem passar por engenheiros. Esses estão a cometer um crime e, por isso, são criminosos. Esses não são falsos engenheiros, mas criminosos!

E esses casos de pessoas que se fazem passar por engenheiros, também, nunca chegaram, na forma de denúncia, à Ordem?
Sempre que fomos chamados, para certificarmos se alguém é ou não engenheiro, nós actuamos.

E são muitas vezes chamados?
Não. Felizmente, não temos tido muitos casos com esta problemática.

O senhor está prestes a terminar um mandato e com possibilidade de iniciar mais outro, uma vez se tratar do único candidato às eleições de 7 de Novembro. Que Ordem é que conseguiu erguer nesse período de liderança da instituição?
Posso assegurar que o nosso balanço é positivo. Quando nos candidatámos, em 2017, propusemo-nos a executar sete objectivos, desdobrados em 26 acções. Dessas 26, cumprimos cabalmente 22 acções, sendo que mais três estão em curso, porque fazem parte do funcionamento normal da Ordem. Há o desafio da nova sede. Este não arrancou, porque o projecto executivo ficou concluído apenas em Setembro. Agora, estamos prontos para começar a pensar na construção da nova sede da Ordem dos Engenheiros de Angola.

E que Ordem dos Engenheiros se pode perspectivar para daqui a quatro anos?
Em 2017, quando se colocou essa pergunta, nós dissemos que teríamos uma Ordem diferente, o que está a acontecer hoje. No fim deste mandato, esperamos ter uma Ordem renovada, por isso, vamos trabalhar seriamente na sucessão. Teremos um grupo mais sólido e, de certeza, com uma situação financeira mais folgada.

Quando diz que pode a Ordem conseguir uma situação financeira mais folgada, quer dizer que há muitos membros que não têm as quotas regularizadas?
Hoje, há muito mais engenheiros quotizando. Só para ter uma ideia da transformação da Ordem, ao longo dos últimos dois anos, passamos a ter engenheiros, que, antes, nunca mais queriam saber da Ordem, a apresentarem-se, para pagar as quotas em atraso e uns, até, estão a pagar as quotas adiantadas! Isso significa que o nível de adesão à Ordem tem estado a aumentar.

Embora seja único candidato, tem levado a cabo campanha para mobilizar o eleitorado. Em tempos de pandemia da Covid-19, como é feito esse processo?
Temos feito, essencialmente, recurso às novas tecnologias de informação. E a prova disso é que a votação vai ser feita via on-line. Muitos não acreditavam que fôssemos avançar com as eleições, por causa da situação da Covid-19. Estamos a mostrar que é possível trabalhar neste novo normal. Vamos fazer uso das tecnologias disponíveis até à exaustão, para que a Ordem esteja presente nos grandes desafios da sociedade e junto dos seus membros.

Os membros com a situação das quotizações não regularizadas ainda têm alguma margem para participar nas eleições?
Não tenho a certeza, melhor do que eu, só a Comissão Eleitoral poderá responder a esta questão. Mas, esse é o momento de as pessoas consultarem os cadernos eleitorais, que foram publicados, há algum tempo. É preciso que estejam em situação regular, para receberem o email da Ordem que os habilita a votar.

Senhor bastonário, como é que é visto o engenheiro angolano fora de Angola?
Quando reúne a aptidão profissional e a atitude profissional exigidas, é tão bom quanto qualquer outro engenheiro de outras latitudes. Aliás, se olharmos para engenheiros formados cá, no país, e a prestar serviço fora de Angola, recebemos um "feed back” bastante positivo. Os nacionais dão cartas. É preciso que se empenhem e ponham o profissionalismo ao serviço da actividade, para alcançarmos o sucesso quer dentro, quer fora de Angola.



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