Na verdade, estamos perante um ambicioso programa que vai, plenamente, ao encontro das exigências do actual contexto do nosso País e das reais necessidades dos angolanos. Só que este MPLA de José Eduardo dos Santos que, hoje, se apresenta como o grupo político que melhor se posiciona para, finalmente, levar os angolanos rumo à Angola reconciliada, pacífica, próspera e democrática é, exactamente, o mesmo grupo responsável pela instauração do hediondo futunguismo e que, há mais de 30 anos, anda connosco às voltas e reviravoltas sem irmos a lado nenhum.

E ao contemplar as imagens da III Conferência deste MPLA de Eduardo dos Santos pude ver que estavam presentes todos os dinossauros do futunguismo. Uns apenas estão mais velhos do que eram nos fervorosos anos da revolução angolana e da luta contra o imperialismo e seus lacaios. Outros estão mais gordos e mais ricos do que eram nos duros anos do marxismo-leninismo. Tirando isso, pouco ou quase nada mudaram.

Isso fez-me lembrar da pergunta da minha filha. Ela está habituada a ver as fotos da família que tenho no computador. Certo dia, estava eu na Internet a ler uma bombástica declaração do general Kundy Paihama sobre os paióis da UNITA. A minha filha, ao ver a foto deste célebre dirigente angolano, perguntou:

-Papá essa foto é do avô? Respondi-lhe que não.
Mas, depois de ouvir a curiosa pergunta da minha filha, pus-me a pensar. Afinal, este grupo de Eduardo dos Santos já nos dirige há muitos anos! Por exemplo, em 1977, quando eu tinha a idade que a minha filha tem hoje (5 anos), Kundy Paihama já era um importante membro do Governo. Hoje tenho 36 anos e o General ainda é um intocável membro da estrutura do futunguismo! Ora, o grupo que quando eu tinha 5 anos prometia uma Angola melhor para mim e para os meus pais é, exactamente, o mesmo que, hoje, promete à minha filha de 5 anos uma Angola fantástica que não tive a sorte de ver e que, certamente, nunca verei!

O problema deste poderoso grupo reside no facto de os seus membros teimarem em governar o País mergulhados numa permanente indefinição político-ideológica, numa constante incoerência de valores e numa interminável contradição com as causas que dizem defender. Vejamos:

O grupo que, hoje, se apresenta como único capaz de promover a Reconciliação, a tolerância e a coesão nacional é, exactamente, o mesmo que nos ensinou que o MPLA tem de ser o único partido que um verdadeiro angolano deve aderir e apoiar. Por isso, aprendemos, com eles, a considerar todos aqueles que não se mostram fervorosos apoiantes deste MPLA de Eduardo dos Santos como pessoas de nenhum valor. Por causa disso, os desgraçados adeptos de outros partidos perdiam a sagrada condição de seres humanos, de compatriotas, conterrâneos, familiares, amigos ou vizinhos e ganhavam uma vil e desprezível identidade, passando a serem pessoas a desprezar e a abater. E os efeitos destes ensinamentos ficaram visíveis nas vergonhosas hecatombes de 1975, 1977, 1992 e 1993. E, hoje, o confronto entre a nossa mentalidade intolerante e os valores da reconciliação tem sido brutal.

O grupo que, hoje, se apresenta como a única força política capaz de reorganizar, moralizar, civilizar, educar e disciplinar a nossa caótica sociedade e promover o desenvolvimento cultural e espiritual dos angolanos é, exactamente, o mesmo que se mostrou incansável na promoção da destruição do angolano e da degradação moral da nossa sociedade. É que, enquanto as sociedades modernas reconheciam ser de extrema importância para o desenvolvimento cultural e espiritual dos seus membros manter as estruturas escolares e sanitárias das igrejas e os grandes valores do Cristianismo, o MPLA de Eduardo dos Santos optou por caminhar no sentido oposto. Assim, declarou que a religião era o ópio do povo e só contribuía para a perpetuação do obscurantismo dos angolanos. Por isso, o grupo protagonizou uma virulenta perseguição às igrejas cristãs e sentenciou que em pouco menos de 50 anos Angola seria um país sem igrejas. Destruiu toda a excelente rede de escolas e hospitais das igrejas. Passou a profanar o sagrado e a sacralizar o profano. Institucionalizou a fraude, o crime, a impunidade, a promiscuidade, a desonestidade e outras infames imoralidades.

O grupo que, hoje, se considera mais do que apto para construir uma sociedade democrática e participativa, garantindo as liberdades e os direitos fundamentais e desenvolvimento da sociedade civil é, exactamente, o mesmo que até há bem pouco tempo não suportava ouvir falar em Democracia, em Multipartidarismo nem em Eleições. É que, enquanto as sociedades modernas passavam a valorizar a Democracia e o Estado de Direito, o MPLA de Eduardo dos Santos optou por caminhar no sentido oposto. Assim, bloquearam a participação política. «Pessoalizaram» o poder. Monopolizaram os cargos públicos. Criaram um monstruoso aparelho de opressão, espionagem e repressão. Instituíram o militarismo, o autoritarismo e o culto da força. E a forma como agiram durante o vergonhoso e caricato processo de exoneração, julgamento e condenação do camarada Garcia Miala é o exemplo perfeito da incapacidade do grupo em se adaptar aos valores da Democracia e do Estado de Direito.

O grupo que, hoje, promete uma utilização eficaz dos recursos naturais e uma justa repartição do rendimento nacional e proclama ser capaz de protagonizar uma das mais extraordinárias recuperações económicas da História e colocar o País entre os mais prósperos do mundo é, exactamente, o mesmo que há décadas protagoniza uma péssima e desastrosa gestão dos nossos recursos humanos e naturais e usa em proveito próprio, e de forma descarada, os abundantes lucros das nossas riquezas. É que, enquanto os governantes das sociedades modernas se esforçavam por canalizarem, de forma eficiente, laboriosa e disciplinada, todos os recursos, todos os investimentos e todas as potencialidades na criação de condições que contribuam para o bem-estar físico e espiritual dos seus cidadãos, o MPLA de Eduardo dos Santos optou por caminhar no sentido oposto. Assim, apoderaram-se dos bens públicos. Desfalcaram os cofres do Estado. Ergueram um inoperante modelo de Estado, uma ineficaz estrutura de gestão governativa e um corrupto aparelho de Administração Pública.

É por estas e outras dolorosas constatações que insisto em dizer que este MPLA de Eduardo dos Santos está fora de prazo e não está à altura das exigências da actual realidade do nosso País. E todos esses dinossauros do futunguismo deviam perceber que a sua missão gorou e que representam um doloroso passado que urge esquecer e que deve estar, sempre, bem presente na definição do futuro de Angola.

Por isso, recuso-me a continuar às voltas e reviravoltas com este grupo político. Desejo boa viagem para aqueles que ainda acreditam neste MPLA de Eduardo dos Santos e querem continuar esta longa e errante caminhada rumo a lado nenhum.

Quanto a mim, fico aqui nesta confusa encruzilhada a que chegamos. Vou aproveitar descansar e ficar com os meus filhos a espera que apareça uma nova geração de dirigentes com nova cultura política, novos projectos e novos ideais e que me dêem garantias de estarem a altura de, finalmente, nos levarem à Angola que merecemos e que muitos dos nossos mais velhos sonharam e bateram-se por ela dedicando os melhores anos das suas breves vidas.

Tal como os meus pais, pode ser que nunca venha a ter a sorte de chegar à Angola prometida. Mas tenho a obrigação de desistir desta interminável aventura e de ajudar os meus filhos a não continuarem a seguir este errante grupo de maus governantes.

*José Maria Huambo
Fonte:http://www.angolainterrogada.blogspot.com/



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