Luanda - Depois de muita conversa e pouca ou nenhuma argumentação convincente, depois de se terem condicionado favores a uma adesão às teses do governo entre várias entidades do poder tradicional, o país conheceu a aprovação sem surpresas do PROJECTO C.


Fonte: Folha 8

A parcialidade perigosa


Porém, é preciso dizer que a “não-discussão” e “apresentação-avaliação” de todos esses projectos a fundir para formar o texto definitivo da nova Constituição de Angola, foi bastante complicada a nível do território, pois se discussão dos temas chave não houve, em certas regiões a “apresentação-avaliação” não ocorreu de forma visível e abrangente, como foi o caso da maioria das províncias.  Remetendo-nos à teoria, convenhamos que em democracia, chegada a fase crucial da votação, os actores políticos e todos os cidadãos inscritos nas listas eleitorais podem votar, a favor, contra, abster-se ou não participar, e todos estes actos são contabilizados com igual peso, uma vez todos serem iguais perante a lei e disporem dos mesmos direitos. Isto se não houver batota, claro está, o que está longe de acontecer no nosso país.


A batota, assinale-se para conhecimento de quem ainda não sabe, não se pratica unicamente durante as sessões de voto. O “terreiro em que a batota pode ser exercida é muito mais abrangente, por exemplo, quando se prometem favores que nunca serão realizados, quando se faz o tráfico de influências, quando gente que deveria manter uma neutralidade exemplar vêm a público opinar e elogiar este e denegrir o outro, não estamos no campo da lisura e neutralidade.


Isto para dizer que não se está a ver por que raio de cargas de água um eminente bispo jubilado da Igreja Metodista e um outro seu confrade, respeitável entidade da Igreja Católica do Uige, cada um deles do alto do seu prestigio religioso, quiseram emprestar um mau exemplo ao virem, publicamente tecer considerações desabonatórias contra um dos actores políticos do nosso país, que exerceu os seus direitos constitucionalmente consagrados, suportados pela competente Lei dos Partidos Políticos em vigor e o regulamento da Assembleia Nacional.


Ora este requisito de reserva não impede que os religiosos de carreira, bispos incluídos, em função da responsabilidade social que cada um deles tem nas suas congregações e no todo nacional, possam, possam e devam dar as suas contribuições a nível dos respectivos conclaves.


Assim, baseando-nos no facto de que tanto o Bispo jubilado  da Igreja Metodista, como o bispo do Uíge não deram qualquer contributo para a elaboração do texto de nova Constituição, talvez por não terem visto incluídas no texto da proposta constitucional as suas visões pessoais para o país ou a visão da igreja, parece-nos coerente perguntar em que lógica emergem as suas críticas à um partido político que não votou a favor e o que é que ela vem fazer nesta carruagem.


Na realidade, quando os diferentes actores religiosos se misturam no exercício político, não respeitam as suas funções nem tão-pouco se  respeitam, pois dão um mau exemplo de parcialidade aos fiéis e aos cidadãos, gerando assim um longo rolo de suspeições.

 

Os padres, e também os bispos, devem executar um papel pacificador, mediador, de imparcialidade, mas infelizmente nos últimos tempos o prestígio de muitas Igrejas tem estado a decrescer pelas posições parciais dos seus mais emblemáticos representantes, como se eles quisessem recuar no tempo e levar os angolanos para uma época que faça lembrar o tempo da inquisição, essa “Santa Inquisição” de triste memória, cuja história temos estado a beber, agora que nos encontramos em fase de doutoramento em Toledo, antiga capital europeia da Inquisição e onde foram escritas páginas sombrias da Igreja Católica Apostólica Romana, que seria melhor nunca mais rememorar, nem praticar, como bem tem dito e assumido o Santo Padre.


É claro que em Angola ainda estamos longe de enveredar por esse caminho, mas já estivemos mais longe do que agora, e se um dia isso acontecer é bom que se saiba que foram intervenções deste tipo que ajudaram a lá chegar.


Portanto, foi mau, pois não parece legitimo, que neste momento se esteja a questionar se os padres e bispos actuaram ou não, sempre do lado certo e com posições angolanas e nacionalistas, no período colonial ou se por terem exercido o sacerdócio naquele período, devem ser excomungados. Se essa for a lógica nunca se lançarão as verdadeiras sementes da reconciliação e harmonia entre os angolanos, que não são obrigados a pensar sempre da mesma maneira.


É que a voz de um bispo assim como a de um bom padre respeitável, têm muito peso, e se incentivarem o sectarismo, a partidarização, ou qualquer forma de radicalismo, podem levar a que se cometam muitos excessos.


Além disso, o mais intrigante é que estas duas personalidades da Igreja passaram com o mata-borrão, escova, borracha e sabão por cima da mais que duvidosa prisão de alguns intelectuais da sociedade civil de Cabinda, incluindo homens da igreja, como se já estivessem de acordo com o sucedido e a corroborar as suspeições que recaem sobre eles.

 

De salientar que a forma como estes cidadãos e cristãos estão a ser tratados perante a indiferença e o silêncio das Igrejas, independentemente do que se venha a apurar não abona de maneira alguma para o seu bom nome e reforço do seu imenso prestígio. Pelo contrário, a situação está a ser muito politizada e a Igreja, em vez de se manter em silêncio, devia precisamente denunciar a politização do caso, por se tratarem de figuras com ligações as Igrejas submetidos a maus tratos inadmissíveis, que nos levam a vaticinar o pior. E o pior todos sabemos o que se pode visionar.


Seria bom, pois, que estes bispos dissessem também o que se passa na outra vertente, para que os fiéis não tenham cada vez mais receito de se confessar com temor de as suas confissões poderem chegar ao conhecimento dos órgãos castrenses, policiais e militares.



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