Luanda - (Este texto foi publicado pelo autor na sua página no Facebook em meados de Março, antes da declaração do primeiro estado de emergência. Mas por considerar que o mesmo se mantém actual, o Club-k decidiu partilhar o seu conteúdo com os milhões de leitores sempre atentos aos factos que marcam a actualidade nacional e internacional)

Fonte: Facebook

Na noite de 10 de Março de 2020, uma terça-feira, o Presidente João Lourenço, segundo os mentideiros oficiosos, terá soltado um longo suspiro de alívio, descongestionando o clima pesado que pairava sobre o palácio presidencial.

 

Os lobbies de Angola em Portugal, com uma mãozinha do novo coronavírus, teriam conseguido travar, in extremis, a emissão do programa Ana Leal da TVI que faria revelações bombásticas sobre os novos esquemas e os novos rostos da corrupção que teima em fazer morada no centro do poder em Angola. Seria uma espécie de “JLo Leaks”.

 

Paralelamente às diligências da secreta, foi disseminado nas redes sociais, a uma velocidade superior à propagação do coronavírus, um artigo assinado por um escriba sem rosto, insinuando que Portugal seria a origem virulenta de todas as desgraças de Angola. A estratégia é muitas vezes confusa e quase sempre difusa.

 

Não tendo sido capaz de atenuar o sufoco das famílias e das empresas, dentro dos timings previstos, devido não só à pesada herança que lhe foi brindada pelo seu antecessor, como também pela dificuldade (ou falta de vontade) de se livrar da velha teia de cumplicidades que se mantém incólume no Palácio da Cidade Alta, o Titular do Poder Executivo parece ter-se deixado iludir pelos desvarios de marketeiros lusotropicalistas que, sem qualquer compromisso nem imaginação, elegeram mais uma vez forças externas como responsáveis absolutos pelos fracassos domésticos.

 

Senão vejamos. Logo após à sua investidura, com total legitimidade, o Presidente João Lourenço lançou uma cruzada contra a corrupção, galvanizou todos os sectores da sociedade e atingiu níveis de popularidade jamais vistos.

Por razões que só o próprio pode explicar, manteve no seu séquito homens e mulheres que têm as suas impressões digitais em alguns dos mais duros golpes desferidos contra a economia. Os angolanos acreditaram que se tratou de um expediente temporário para decifrar os códigos do cartel que afundou o país.

O tempo passou. O discurso de combate à corrupção e moralização da sociedade, amplamente aplaudido dentro e fora do país, começou a contrastar com os avanços e recuos de uma governação titubeante, marcada por algumas medidas erráticas e contraditórias que custaram milhões mas não trouxeram soluções.

O Presidente escancarou as portas do país a mercadores de todas as latitudes, empolgou-se em viagens ruidosas pelas mais reluzentes capitais ocidentais (Washington continua a negar-lhe o tapete vermelho), tropeçou na Grande Muralha da China e engoliu sapos em Moscovo e em Sochi.

Talvez não tenha percebido que a eficácia de qualquer política externa, desde os tempos de antanho, reside na definição clara dos aliados adequados numa visão de longo prazo e nunca numa miscelânea de compromissos ao sabor do vento, vento leste que pode ser circunstancialmente bonançoso ou severamente tempestuoso.

O Movimento dos Não Alinhados pertence ao passado e os BRICS dificilmente vingarão, visto que o Brasil de Bolsonaro é um retrocesso e a África do Sul está numa encruzilhada.

Converter-se de corpo e alma aos capítulos e versículos draconianos da bíblia do FMI e, ao mesmo tempo, manter um “pacto de sangue” com a China pode resultar numa armadilha. Pretender reformar o sistema sem investir no poder local provoca a desmotivação das forças vivas da Nação.

Endividar o país para lá dos limites sustentáveis sem fazer o trabalho de casa, ou seja, reunir consensos em torno das infraestruturas cruciais para o desenvolvimento (vias de comunicação, saneamento básico, energia e TICs); desgovernamentalizar o sector produtivo, dando voz activa à agricultura familiar; proceder à revisão da lei de terras; e disciplinar a banca, abrindo espaço para cooperativas de crédito de responsabilidade solidária. Quer dizer, aumentar a dívida pública sem observar essas premissas é esbanjar recursos, afugentar investidores e frustrar iniciativas dos pequenos empreendedores com grande capacidade de auto superação.

Estender a mão do Estado aos papões do sector privado, os mesmos de sempre, sem prestar a devida atenção aos sindicatos, às associações socio-profissionais, às cooperativas e às universidades é meio caminho para a descrença total.

João Lourenço está a perder uma oportunidade preciosa para fazer história, congregando as incontáveis boas vontades dispersas por esta imensa Angola.

Não basta auscultar. Não basta publicitar uma governação aberta e participativa. É urgente mudar o paradigma da concertação social, ser cada vezais mais agregador e encomendar soluções, em primeira instância, à sociedade civil para que cada cidadão, cada produtor, cada investidor encare os desafios do presente e do futuro com um sentimento de pertença.

Em 1978, Deng Xiaoping concebeu um regime em que o poder passou a emanar das bases, alicerçado nos municípios e nas províncias para garantir a efectiva coesão em torno do principal centro de decisão, onde pontifica o líder do partido. Da base ao topo. Hoje, a China é o gigante que faz estremecer o mundo.

No final da década de 1980, Mikhail Gorbatchev sonhou em reformar o regime por dentro e por fora, abriu demasiadas brechas, decretou uma lei seca, mas deixou-se embriagar no rancho do cowboy insolente Ronald Reagan. Resultado? A União Soviética implodiu. Se não tivesse emergido na hora certa um visionário como Vladimir Putin, a mãe-Rússia seria domesticada e os tentáculos da NATO já teriam sugado todos os gasodutos e oleodutos da Tchetchénia.

Adiante. Se a humanidade sobreviver ao tsunami da Covid 19, com todas as consequências catastróficas que se adivinham, de nada valerá ao Presidente e ao “glorioso” continuarem escudados na maioria qualificada que, vezes sem conta, desqualifica a incipiente democracia angolana.

Nunca é demais lembrar que a abundância de petrodólares, em tempo de paz, não criou nenhum traço de união entre os angolanos. E porquê? Porque o líder era um semi-deus, adulado do topo à base. No topo acotovelavam-se os comensais escolhidos a dedo e na base digladiavam-se os milhentos catadores de migalhas.

Agora, neste tempo de penúria e desnorte, com o mundo aterrorizado por uma pandemia letal que desafia todas as ciências cultas e ocultas, com o preço do petróleo empurrado para mínimos históricos e as maiores bolsas do planeta em queda livre, ou o Presidente interioriza a necessidade imperiosa de um pacto genuíno com todas as sensibilidades ou país estará condenado aos caos. E o que virá depois do caos?

*Alves Fernandes, 16/03/2020



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