Brasil - A partir das aventuras de um cão pastor alemão em Luanda e do relato do comportamento do animal pelos seus diferentes donos são mostrados aspectos sociais de uma Angola dos primeiros tempos da independência. A interessante narrativa é da obra O Cão e os Caluandas, do escritor angolano Pepetela, nascido Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, um dos mais reconhecidos e premiados daquele país.

Fonte: Atarde.uol.com.br

O autor, que recentemente participou, de modo virtual, da Festa Literária do Pelourinho – FLIPELÔ– onde foi lançado o novo livro de sua autoria, Sua Excelência de Corpo Presente, em O Cão e os Caluandas traz um conjunto de histórias ficcionais de pessoas que conviveram com um animal. Relatos que foram coletados por um personagem/narrador anônimo que procura o cachorro. As narrativas são ambientadas no ano de 1980, em um país em conflito.

O cão, cujo nome varia de dono de diversas camadas sociais, é uma testemunha de dramas individuais – adultério e cenas de ciúmes– e atitudes que impactam no coletivo na Angola livre mas ainda muito pobre e com problemas de desemprego, de moradia e de falta de alimentos, por exemplo.

Neste cenário pós guerra (foram 13 anos de luta para Angola se tornar independente do colonialismo português e mais 27 anos de guerra civil) a reconstrução do país é árdua. Mas é difícil acabar com os desvios morais e nas histórias são relatados esquemas de corrupção que contemplam desvio de alimentos de fábrica, cerveja em troca de documentos, presença de cambistas e até compra de diplomas falsificados. Caluanda são chamados os angolanos nascidos em Luanda.

Com selo da Kapulana, a publicação que originalmente foi escrita em 1985, mas que só foi publicada no Brasil em 2019, apresenta diversas vozes ( os múltiplos caluandas e o personagem/ autor) que contam o encontro com o cão utilizando diversos gêneros de escrita que vão de peça teatral, documentos burocraticos, atas chegando até à reportagens de jornais. O escritor não deixa de fora a oralidade, tão reverenciada nós países africanos, que na obra surge através dos relatos gravados. Tudo ficcional, vale lembrar.

AVISO AO LEITOR

A publicação da Editora Kapulana é bem cuidada. Além da apresentação , traz um texto analítico da obra– "A crítica de Pepetela", assinado por Tânia Macedo, professora titular de Literatura Africana da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo– e, de brinde, um glossário com expressões usadas em Luanda no período pós -independência.

E mais: Traz textos sobre o autor, obras, prêmios e destaques de carreira dele como doutorado honoris causa, medalhas e ordem de mérito cultural. Outro acerto da publicação, destacado inclusive pela própria editora na apresentação do livro é a ilustração de Mariana Fugisawa tanto na capa como nas páginas internas. Particularmente sou uma grande admiradora das capas, elas me chamam sempre muita atenção e esta é uma que dialoga com a obra do autor com muita precisão e sensibilidade.

Para quem acha que a resenhista aqui divagou, lembro, só citando o Brasil que o Prêmio Jabuti, um dos mais importantes do país tem uma categoria destinada a premiar as capas e por extensão, os capistas. Cartão de apresentação de uma obra, a capa é muito mais que uma cobertura protetora que une as páginas de um livro.

VERDADE COMO DIAMANTE

Ao mesmo tempo que conta histórias sobre o cachorro, que passeia na casa de reacionários e ex- combatentes o escritor angolano através do personagem/ autor questiona a verdade. No capítulo Carnaval com Kianda, o personagem diz: " A verdade é como um diamante, reflete a luz do sol de mil maneiras, depende da faceta virada para nós". Tudo depende do ponto de vista.

Nesta história onde aparece o cachorro durante um desfile de Carnaval oficial, o animal acaba desbancando as agremiações favoritas que perdem ponto na folia tentando escorraça- lo. Aquela que ganha o desfile é a que integra o cão na apresentação. E é questionada. Entram em cenas outras vozes como jornal e TV para mostrar que um mesmo fato pode ter diferentes interpretações.

Ao longo dos contos que podem ser lidos separadamente mas que no conjunto costuram um painel da Angola em reconstrução são mostradas relações de gênero desigual. Até mesmo nos encontros afetivos de companheiros revolucionários revela-se uma falta de respeito ao desejo feminino. Uma herançs que ainda impera em células de partidos que na teoria louva a mulher, mas que na prática a boicota, a desmerece, a escanteia.

BUGANVILIA E TONINHA

Pepetela durante todo o livro fala do crescimento de uma espécie de trepadeira, a buganvília, que pode converter-se num exemplar muito volumoso, com ramos fortes de até 12 metros de altura, mas muito espinhoso. O cão não gosta da planta que começa pequena, ramifica-se em todo o muro e no final do livro já atinge a área externa, esmagando as outras espécies. Pode ser lido como uma alegoria da opressão, do capitalismo ou da própria corrupção que avança.

O autor também fala de um animal marinho, a toninha, mamífero da linhagem dos golfinhos ou do boto cor de rosa da Amazônia, de modo poético. Enquanto o cão odeia a buganvília, ele se apaixona pela toninha que vive no mar pode ser vista como um ideal libertário.

Pepetela que em 1969 chegou a participar diretamente na luta pela libertação de Angola, em Cabinda e que depois do governo revolucionário instalado chegou a ser vice ministro da Educação é um intelectual altamente crítico do partido MPLA – Movimento Popular pela Libertação de Angola.

E neste livro como em A Geração da Utopia, outra obra do autor, ele não alivia para com os equívocos do MPLA e corrupção dos seus membros O que é raro, já que muitos militantes não conseguem fazer a auto-critica de erros do partido que se filiaram.



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