Luanda - Na sequência da assinatura dos Acordos de Paz de Bicesse, aos 31 de Maio de 1991, foi criado um órgão reitor do processo de Paz com a designação de Comissão Conjunta Político-Militar, CCPM presidida paritariamente pelos senhores Elias Salupeto Pena e França Ndalu.

Fonte: Club-k.net

A CCPM integrava três comissões de trabalho especializadas, sendo:


a) Comissão Política/Fernando da Piedade Dias e Lukamba Gato. Na dependência directa desta Comissão, trabalhava também a Comissão de Fiscalização e Verificação da Neutralidade da Polícia Nacional/Madaleno Tadeu e Ambrósio de Lemos.


b) Comissão Conjunta para a Formação das Forças Armadas, CCFA/Demóstenes Amós Chilingutila e Higino Carneiro.


c) Comissão Mista para a Verificação do Cessar-Fogo, CMVF/Ciel da Conceição Gato e Augusto Domingos L. Liahuka "Wiyo".


A CCPM tinha o "apoio" da chamada Troika de Observadores que não eram outros senão os países directamente envolvidos no Conflito Regional da Africa Austral, decorrente da guerra fria. Falo da URSS e dos Estados Unidos da América, a que se juntou Portugal, outro país que tinha na altura interesses estratégicos, tanto políticos como econômicos no nosso país.


Foi neste contexto que Fernando Nogueira, na altura Ministro da Defesa de Portugal, visitou Angola em princípios de 1992, com certeza para se informar do processo de Paz e tratar de questões de interesse bilateral com as autoridades angolanas.


Em honra do senhor Ministro, a delegação portuguesa organizou um almoço nas suas instalações que se situavam na Mutamba, junto ao Centro de Imprensa Aníbal de Melo.


Para começar o almoço, foi-nos servida uma saborosa salada de abacate e camarão, tendo-se seguido depois toda a tradicional e rica gastronomia portuguesa.


Tudo parecia ter corrido às mil maravilhas até que já depois da meia-noite se inicia um grande alvoroço de sobe e desce do pessoal ligada à saúde da nossa delegação em Luanda, mais exactamente no Hotel Turismo onde todos nós residíamos.


Há uma crise de diarreia e vómitos em quase todos os "mais velhos" em particular todos os que participaram no famoso almoço, na delegação portuguesa.


Eu estava de rastos e para agravar a situação, começa a circular o boato do envenenamento, alimentado pelas nossas desconfianças patológicas e recíprocas.


Decidi mesmo naquele estado telefonar ao General Chilingutila, para saber do seu estado de saúde.


"Está difícil, nunca soube que se pode ter diarreia e vómitos tudo em simultâneo". Respondeu.


Passamos em revista a nossa jornada e ficou claro que se "envenenamento" tivesse havido só podia ter sido ao almoço. Era preciso rápidamente clarificar a situação, saber se os membros da delegação do governo estavam também afectados.


O General Chilingutila pediu então que eu ligasse para o então poderosíssimo Vice Ministro do Interior e Chefe dos Serviços de Segurança de Estado, na altura meu "buddy" na CP da CCPM.


Eram cerca das 02:00 da manhã quando disquei o número do "Nando", como era tratado naquela altura, para o tira teimas. O telefone tocou uma vez, à segunda alguém atendeu. Era a sua esposa.

"Alô, bom dia minha senhora, peço desculpas por incomodar a esta hora, eu sou o Lukamba Gato, tenho uma urgência e queria falar com o meu colega."

"Ele está incomodado, não poderei passar-lhe o telefone"

Não insisti mas a resposta da senhora "tranquilizou-nos" a todos. Afinal estava descartada a hipótese do envenenamento. O chefe da secreta estava também afectado.


Fernando Nogueira, o ministro da Defesa de Portugal, cancelou a audiência que teria tido com o Presidente da República e regressou de emergência para o seu país num jacto particular.


Nós ficamos por cá, no nosso Hotel Turismo. A intoxicação foi tão aguda que passamos os 15 dias subsequentes alimentando-nos de líquidos até nossa total recuperação.


O General Chilingutila era um líder nato. Foi um combatente pela Democracia. Foi um comandante mas e sobretudo um grande Camarada. Sempre solidário.


Angola perdeu um grande patriota, a UNITA ficou mais pobre a a família ficou sem o principal pilar.


O General Chilingutila foi um dos principais artífices da estruturação das nossas actuais Forças Armadas Angolanas.

Honra e glória à sua memória.


Até sempre meu caro compadre



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