Luanda - Há vezes que assisto a discussões e análises da nossa política que vejo indivíduos, completamente apopléticos, batendo num ponto que lhes enchem com muita indignação. Lembro-me, então, de um encontro que tive na Universidade de Oxford com o grande historiador britânico Allan Bullock. Estávamos no jardim da sua casa, a beber chá com bolachas, e a conversar sobre História. O académico estava bem animado por eu ter lido todas as suas obras (algumas com quase mil páginas) sobre vários temas europeus. Allan Bullock disse-me que a importância da História é que ela nos ajuda a ver que as coisas não são assim tão lineares, a História, ele disse, era um rio Ganges, o maior rio da Índia, com muitos afluentes.

Fonte: JA

Vejamos, por exemplo, a questão dos passaportes ou nacionalidades de muitos líderes da UNITA. Eu não sou líder na UNITA; porém, em termos sociológicos, pertenço a uma elite que, até recentemente, era uma boa parte do elenco do partido. O meu falecido irmão, Jaka Jamba, grande patriota e pan-africanista, teve vários passaportes de países africanos. Eu próprio, através da UNITA, vivi na Europa usando um passaporte de um país africano. Ter um passaporte de um país africano facilitava bastante nas viagens. Sim, como milhares de angolanos, tenho mais de uma nacionalidade — é pre-ciso ter vivido as humilhações e complicações que vinham com a aplicação de um visto. No meu caso, como jornalista que começou a viajar pelo mundo muito cedo, sempre me chamavam de lado para aqueles interrogatórios que, suspeito, são hoje feitos à religião muçulmana.


Duvido se entre centenas de estudantes da UNITA que viveram em Portugal por décadas há alguém sem nacionalidade portuguesa. Esta era adquirida principalmente por uma questão de conveniência. Com a nacionalidade portuguesa, as pessoas tinham acesso a vários serviços que nem sempre os estrangeiros poderiam alcançar. Claro que a nacionalidade portuguesa não implicava que alguém tinha deixado de amar o país onde nascemos; antes pelo contrário. Todos queriam estudar para um dia poder dar o seu contributo à nossa Nação. Como disse, eu tenho várias nacionalidades — mas cá estou, no interior do país formando jovens, e fotografando e escrevendo sobre as maravilhas do nosso país. Quando vejo pessoas a denegrirem os que, devido a várias circunstâncias, tiveram que adoptar várias nacionalidades, lamento a sua falta de imaginação.

Pela primeira vez, e peço desculpas aos manos envolvidos, vou revelar que em 2000 fiz parte de conversas altamente secretas entre entidades globais (irei revelar quem são um dia nas minhas memórias) com a liderança da UNITA no exterior. Havia, na altura, várias propostas na mesa — incluindo dando um “soft landing” ou “pouso suave” para o Doutor Jonas Malheiro Savimbi. Na altura, a UNITA estava sob sanções e nenhum país poderia encontrar-se com os seus líderes abertamente. Os encontros secretos realizaram-se em várias partes do mundo, alguns dos quais na Suíça. A delegação da UNITA foi sempre encabeçada por Adalberto Costa Júnior. O engenheiro João Vahekeny também participou nestes encontros.


Claro que sem um passaporte português, Adalberto Costa Júnior não sairia de Lisboa a Reiquiavique, capital da Islândia, num instante. Naquele momento, Adalberto Costa Junior era uma figura chave na ligação do mundo e a liderança da UNITA no interior. Lo-go que a paz veio aqui em Angola, Adalberto Costa Júnior instalou-se no país que lhe viu nascer. Dos Estados Unidos, eu acompanhava as peregrinações de Adalberto por vá-rios cantos de Angola. Lembro-me de um clipe em que Costa Júnior dançava com muita paixão numa roda tradicional em Cabinda.

Quase toda a minha vida vivi na diáspora angolana: na Zâmbia da minha infância; Reino Unido e Estados Unidos. Em Londres, todos os fins de semana ia para a casa do Mais Velho Francisco em Lewisham. Muitos jovens angolanos convergiam lá. O Mais Velho Chico, como lhe chamávamos, falava-nos nos valores da nossa terra; ele nunca parava de bater na tecla da importância de respeitar os mais velhos. Ele dizia-nos que a nossa existência no Ocidente não nos devia alienar da nossa essência africana. A esposa do Mais Velho Chico, que trabalhava como enfermeira, preparava para nós bagre fumado, mufete, caçula, etc. Nos Estados Unidos, vivi por anos na presença de figuras como o Tio Pedro Romeo Chafuta, músico da grande banda Ngoma Jazz. Foi do Tio Pedro que soube do Santos Qui-pexe; da Joana Pernambuco; do Lino da Popa e não só. O Tio Pedro, que é do Bembe, no Uíge, foi activista da FNLA em 1975 e viajou por toda Angola. Foi ele que sempre insistiu que o nosso país é maravilhoso. Os filhos de Angola podem ter outros passaportes ou nacionalidades; ao fim do dia, o que conta é a expressão do Umbundu que diz “Ombalundu vutima, ” que pode ser traduzido como “Ser do Bailundo é uma questão do coração e não de documento!”.

 



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