Luanda - Sempre que chega o 04 de Abril, Dia da Paz, confluem em mim uma confusão de sentimentos: pesar pelos milhares de compatriotas nossos que ficaram pelo caminho (incluindo entes queridos, amigos, companheiros de luta, colegas, conhecidos) com os quais nunca mais terei a ventura de estar em contacto; alegria por o pesadelo ter terminado; raiva e impotência por ter sido usado e servido uma causa cujos objectivos não foram minimamente alcançados (milhares de concidadãos nossos vivem ainda hoje na indigência e, não foi para isso que lutamos), força para agir e ajudar este país a se desenvolver, mas ao mesmo tempo frustração pelo emaranhado de coisas que isso está. Os nossos esforços para a instaurar um Estado forte ficaram, gorados pela insuficiência de competências na Administração Pública. Não há sector nenhum no país que funcione plena e efectivamente como era de se esperar, porque andamos a governar de improviso, o pessoal à nível da tomada de decisão devia perceber que não tem como esse pais dar certo, com excessivo abuso do senso comum e governação na base da tentativa erro/acerto.

Fonte: Club-k.net

O pior é que em momentos mais difíceis já se fez melhor, em termos de governação. Só no ramo da educação, comparem, por exemplo, os manuais escolares daquele tempo e os de agora. Vejam a qualidade dos quadros que se formaram antes e os de agora. Antes de 1992, haviam Exames nacionais. No dia do Exame, todo o mundo fazia a mesma prova de Cabinda ao Cunene. Como é que hoje até na mesma escola e mesma classe, não se consegue elaborar uma única prova para todos os alunos, se o currículo escolar é nacional?

Mesmo com vários ataques ao longo do trajecto, os bens alimentares e de primeira necessidade eram transportados de “colunas militares” e chegavam até às zonas mais recônditas desse país. Os serviços de saúde, o saneamento básico, a distribuição de energia elétrica e água potável funcionavam minimamente. Como é que conseguimos sair daquele patamar para estarmos hoje pior que antes, em muitos dos casos?


Entre outros, temos dois handicaps dos quais nos devemos livrar se quisermos trilhar o caminho do progresso: Temos fracas universidades (são elas que dão soluções aos problemas) e, fracos jornalistas (são eles que levantam os problemas, despertam o público e "forçam" o Governo a resolve-los).


A academia que devia servir de bússola para ajudar quem governa a governar bem, anda mais perdida que o próprio Governo. As universidades são lugares de pesquisa científica e desenvolvimento para a sociedade, são igualmente espaços públicos de ideias e, por isso, a sua autonomia é de importância fundamental para assegurar o ensino e a pesquisa de qualidade, bem como a capacidade de adaptação aos novos tempos. Os paises com um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) alto dispõe de universidades robustas e centenárias.


Por outro lado todas as acções do Governo estão sob escrutínio popular o tempo todo, por isso, elas devem ser implementadas de forma transparente e o público deve ser devidamente informado, do processo que envolve a sua concepção, materialização e informação sobre os resultados (positivos ou negativos). È aqui que entram os nossos “queridos” jornalistas, não é por acaso que a midia é chamada de o Quarto Poder. O jornalismo e os meios de comunicação de massa exercem uma forte influência sobre o público, eles moldam a sociedade. Salvas as excepções, a maior parte dos profissionais da comunicação social não merece tal título, aquilo que eles fazem pode ser tudo, menos jornalismo. Não se apercebem que o tempo da propaganda já lá se foi.

PARA QUÊ TENTAR REINVENTAR A RODA?


As dificuldades por que passamos não são únicas e exclusivas de Angola. A literatura já tem a resposta para a maior parte delas. A ciência resolve. Mas se continuarmos a funcionar com base no senso comum, não chegaremos lá. Nunca, podemos esperar mais 500 anos. Não vai acontecer. Infelizmente, poucos cidadãos são conscientes da natureza intrinsecamente falha do pensamento humano quando não validado pela ciência (isso é assim em todo o lado, até nos países desenvolvidos e com academias vibrantes, o senso comum fala mais alto, tem mais aderentes). Vejam o que se está a passar com a questão da pandemia, tem muita gente que acreditas nas mais variadas teorias da conspiração geradas em torno do assunto, tal é a força do senso comum. Mas nós precisamos de confiar mais no conhecimento científico do que na nossa intuição.

"Insanidade é continuar a fazer sempre a mesma coisa e esperar por resultados diferentes."Albert Einstein.


Angola não é o primeiro, nem é o único país do mundo que se debate com questões como: profissionais com falsos diplomas, profissionais mal formados e incompetentes, falta de qualidade do sistema de ensino, mau serviço médico, venda ambulante desordenada, desacato à autoridade, má actuação policial, etc, etc. há já muitos estudos feitos nessas matérias, é só replicá-los.


Já o afirmei em várias ocasiões e repito: Todas as áreas e profissões têm a sua ciência, têm normas e procedimentos que permitem o seu funcionamento harmonioso. Acontece assim na governação, é assim na defesa e segurança, educação, saúde ou em qualquer outro sector. Sempre que um ente, público ou não, fizer atropelos sistemáticos às normas e procedimentos (deliberada ou inconscientemente), como temos visto na nossa terra, estará esse ente, a mostrar o seu desrespeito total pela ciência. Os resultados estão aí: tomam-se decisões, depois recua-se, tomam-se decisões, depois vê-se que afinal não foram devidamente considerados aspectos cruciais para o resultado positivo esperado, e andamos nisso.
A governação em Angola precisa repaginar-se e alinhar os seus ponteiros com a ciência. Todas as instituições públicas precisam de reformas profundas e não de paliativos. O processo de tomada de decisão deve sempre ser precedido de um estudo/investigação científica, para que as decisões sejam tomadas com base naqueles dados e factos resultantes do estudo previamente efectuado. só assim se pode garantir que se tomam decisões efectivas. É só usar as ciências camaradas chefes. Não custa nada.


ANGOLA NUNCA MAIS A GUERRA

O nosso país viveu por cerca de 30 anos no medo, incerteza e angústia. O conflito angolano que durou de 1975 à 2002, foi considerado a mais mortífera e longa guerra civil africana, clamando a vida de mais de 500.000 soldados e civis, desperdiçando inúmeros recursos financeiros e causando a destruição completa ou em parte de várias infraestruturas vitais.

A guerra começou mal Angola se tornou independente de Portugal, de má memória. Uma observação empírica faz-nos perceber que, no geral, se compararmos os países africanos antigas colonias anglófonas e francófonas são mais desenvolvidas que as lusófonas e, muitas vezes a gente se pergunta, o porque? A minha resposta é sem rodeios: A nossa herança colonial é o analfabetismo científico que enferma todas as instituições do nosso país. Absolutamente todas!!!


Numa altura em que as outras principais potencias coloniais em Africa (Gra-Bretanha e a França), já começavam a preparar as suas colonias para as suas independências, Portugal inventou o luso-tropicalismo e considerava as suas "províncias" africanas partes integrantes da Metrópole. Não é novidade para ninguém que, as potências imperialistas procuraram administrar as suas colônias de modo a assegurar o aproveitamento máximo das suas riquezas. É assim que a mão-de-obra nativa foi colocada a serviço do colono, tanto para extrair minérios, trabalhar nas lavouras, construir pontes, caminhos-de-ferro, canais e portos, para permitir o escoamento da matéria-prima e dos produtos agrícolas. A manutenção desse sistema cruel foi a custa da violência para combater a resistência da população e mantê-la submissa. A administração colonial era directa, com os funcionários da metrópole substituindo as autoridades locais, ou indireta, utilizando-se das autoridades locais subordinadas a funcionários da metrópole. Os ingleses privilegiaram a administração indirecta, ao passo que os Tugas foram para a administração directa e como consequência toda a mão de obra da era do colono.


“A eclosão da guerra, em 1975, foi acompanhada pela partida de mais de 95% dos colonos portugueses, que equivaliam aproximadamente a 340.000 habitantes (cerca de 5% da população). Devido ao malogro do regime colonial no investimento na educação dos africanos, este êxodo significou a perda da grande maioria dos quadros do país e do pessoal tecnicamente qualificado. Milhares de pequenos negócios e propriedades agrícolas foram abandonados, e o país viu-se a braços com uma grande escassez de pessoal qualificado. Conjuntamente, a eclosão da Guerra e a saída dos colonos mergulharam Angola numa profunda crise económica de que nunca recuperou inteiramente.” (Tony Hodges, 2002, p. 27).


O conflito foi uma luta de poder entre dois irmãos desavindos, que foram usados, indiretamente, pelas duas superpotências da época, a URSS e os EUA. O Wikipédia (2021) chamou isso de “guerra por procuração”. Quer com isto dizer que o país foi usado como campo de batalha de uma guerra por procuração da Guerra Fria por Estados rivais como União Soviética, Cuba, África do Sul e Estados Unidos.


A luta prolongou-se até 1991, altura em que se assinaram os Acordos de Bicesse, que trariam um cessar-fogo de imediato e removeram todas as tropas estrangeiras que lutavam em Angola (cubanas e sul-africanas) e determinaram um novo governo nacional e respetivo exército único, juntamente com as primeiras eleições multipartidárias que o país teve. Infelizmente, depois de um ano Angola volta a mergulhar numa guerra civil brutal até 1994 com a assinatura do Protocolo de Lusaca, que durou muito pouco. Assim, a guerra pode ser dividida em três períodos de grandes combates, a saber: de 1975 a 1991, 1992 a 1994 e 1998 a 2002, incluindo períodos de paz frágeis. Os confrontos militares só viriam a terminar em 2002.

Olhando para trás, percebemos que o saldo da guerra é muitíssimo pesado, a economia, assim como toda a população, sofreu as consequências de toda esta guerra civil. Mais de 500 mil pessoas morreram e mais de um milhão de deslocadas, uma das causas que fez aumentar a pressão sobre as principais cidades, principalmente Luanda (ela sozinha com cerca de um terço da população do país inteiro), com todas as consequências que daí advêm, ou seja, limitou o acesso da populações rurais às áreas de cultivo e mercados e destruiu os recursos dos camponeses; esvaziou o campo de mão-de-obra e fez afluir milhares de deslocados para as cidades.. A guerra devastou as infraestruturas e danificou gravemente a administração pública, a economia e as instituições religiosas do país
Perguntem à um militar o que é palmilhar este país de lés à lés, mochila às costas, espingarda na mão, fome, sede, chuva, sol, calor e frio no lombo. Perguntem à um bieno o que é ter a cidade capital da sua terá natal, a beira de ser riscada do mapa, engolida por bombardeamentos impiedosos. Perguntem também à mãe que perdeu os filhos, o empresário que perdeu os bens todos, ao angolano que perdeu os entes queridos, o pouco que tinha e também a dignidade, o que significam tamanhas perdas. A guerra é uma experiência muito traumática que afectou-nos à todos. Perdemos todos, matamo-nos uns aos outros. Veja a forma como nos comportamos, salve-se quem poder, tipo estamos na selva. Casamentos desmoronarem sem razão aparente, filhos/miúdos a se desviarem para maus caminhos, tipo foram enfeitiçados, ausência quase que total de valores cívico-morais, enfim. Não é que esses problemas sejam novidade, não. É que parece que estão a crescer numa progressão geométrica. É pena não sermos sérios a fazer estudos e analisar estatísticas. Os números não mentem. Creio que tudo isso tem alguma relação com essa coisa de “traumas de guerra”.


Dezanove anos depois, não é nada agradável ver o clima de crispação que se está a viver neste momento entre os nossos políticos. Mostra um nível de baixeza preocupante. Somos assim tão reles? Será que não aprendemos nada com os nossos erros passados? Em política existem adversários e não inimigos. Afinal, a guerra já acabou. Angola é maior que todos nós, ela devia vir em primeiro lugar, na agenda de cada um e de todos.


A guerra traz pobreza, traz miséria, provoca a redução das condições de vida da população, deslocações compulsivas, insegurança, insegurança alimentar, má nutrição, graves dificuldades no acesso à saúde e educação. Para que te quero guerra? Nunca mais volte, que nós estamos mbora bem assim sem ti.

A GUERRA É UM MONSTRO QUE CONSOME PAISES INTEIROS


“É a guerra aquele monstro que se sustenta das fazendas, do sangue, das vidas, e quanto mais come e consome, tanto menos se farta. É a guerra aquela tempestade terrestre, que leva os campos, as casas, as vilas, os castelos, as cidades, e talvez em um momento sorve os reinos e monarquias inteiras. É a guerra aquela calamidade composta de todas as calamidades, em que não há mal algum que, ou se não padeça, ou se não tema, nem bem que seja próprio e seguro. O pai não tem seguro o filho, o rico não tem segura a fazenda, o pobre não tem seguro o seu suor, o nobre não tem segura a honra, o eclesiástico não tem segura a imunidade, o religioso não tem segura a sua cela; e até Deus nos templos e nos sacrários não está seguro” (Padre António Vieira)

 



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