Luanda - Cidadãos, em muitos casos, não identificados, estão a criar perfis falsos na rede social Facebook, com imagens e nomes de dirigentes ou governantes angolanos com o objectivo de defraudar a outrem. A prática tomou proporções alarmantes ao ponto de um grupo ter burlado pelo menos 150 milhões de Kwanzas, em Cabinda

Fonte: OPAIS

Com a audácia desmedida e sem medo nenhum, muitos cidadãos decidiram ganhar a vida a criar perfis falsos de dirigentes, governantes ou pessoas que ocupam importantes cargos no Estado, para enganar os menos atentos. Eles, supostamente, são secretários de Estado, ministros, comandantes da Polícia Nacional, generais e inclusive Presidente da República e Primeira-Dama.

Os falsos dirigentes invadiram a rede social Facebook (dada a facilidade para se criar um perfil nesta plataforma), com páginas que apresentam algum registo diário de interação, imagens inéditas da pessoa em causa, discursos e declarações verídicas, como forma de maquilhar a falsidade. Depois de criada a página, evidentemente, fazem pedidos aleatórios de amizade.

Assim, o internauta, que normalmente sente-se honrado ao receber um pedido de amizade da Primeira-Dama da República, por exemplo, ou do Ministro da Energia e Águas, escusa-se de recusar, ainda mais quando o pedinte é o responsável máximo do sector no qual o receptor do pedido tenciona algum dia trabalhar.

São inúmeros os perfis falsos existentes no Facebook em nome do Ministro da Energia e Águas, João Baptista Borges, que a sua assessora de comunicação, Neusa Cumbe, perdeu a conta. Pelo menos, até o fecho desta edição, o Jornal OPAÍS contabilizou um total de 29 contas, inclusive uma onde o suposto ministro aparece a vender viaturas.



Neusa Cumbe disse, em conversa com o nosso jornal, que já foi contactada várias vezes por pessoas que disseram que o ministro, por via do seu Facebook, as pediu amizade, e prometeu arranjar emprego. “São contas falsas. Tentamos bloquear algumas vezes, denunciamos, mas não conseguimos resultados satisfatórios”, disse.

Lidera a lista de falsos perfis o do ministro do interior.

Não é só do Ministro da Energia e Águas, também existem contas falsas do secretário de Estado e administradores ligados ao mesmo sector. Entretanto, na lista de perfis falsos criados, que tivemos acesso, lidera o ministro do Interior, cuja última contagem dava para um total de 169 perfis e páginas.

O Ministério do Interior, de acordo com a constatação feita pela nossa reportagem, aparece como o dirigente ou responsável máximo que mais é vítima de criação de perfis falsos, o que demonstra a perda do medo por parte dos falsificadores.

Mensalmente recebemos alguma notificação, principalmente nos grupos do Whatsapp, de um perfil falso criado em nome do ministro, comandante, inspector-chefe, directores de gabinetes ligados ao Ministério do Interior. Encontramos, do 2º Comandante da Polícia Nacional, António Pedro Candela, por exemplo, um total de 60 perfis falsos.

Por ser dos mais afectados, o Ministério do Interior, o jornal OPAÍS envidou esforços para obter alguma declaração do Director do Gabinete de Comunicação e Imprensa do MININT, Waldemar José – que também é vítima de perfis falsos –, mas este nos remeteu ao seu homólogo do Serviço de Investigação Criminal (SIC-Geral), o porta-voz Manuel Halaiwa. Entretanto, até ao fecho desta edição, nossa preocupação não tinha sido respondida.

Mais de 150 milhões de Kz burlados


Perfis falsos criados no Facebook, com o propósito de defraudar valores a pacatos cidadãos, por meio de proposta de emprego, anúncio de venda e prestação de serviços, por um grupo composto de 16 pessoas, em Cabinda, facilitou a burla de mais de 150 milhões de Kwanzas.

O grupo de marginais, denominado Placa FBI, criou, segundo as informações do SIC, perfis falsos do Presidente da República, da Primeiradama da República, de secretários do Estado, ministros, governantes, magistrados, líderes religiosos, altas patentes das Forças Armadas Angolana e da Policia Nacional e defraudou 150 milhões de Kwanzas.

No dia 28 de Janeiro do corrente ano, passados nove meses depois da detenção dos 16 cidadãos integrantes do referido grupo, teve início o julgamento dos mesmos, no Tribunal de Comarca de Cabinda.

A quantia defraudada foi conseguida, segundo a acusação, em menos de um ano. Dos 16 cidadãos nacionais, apenas um é do sexo feminino, e todos respondem pelo crime de burla por defraudação, por meio do uso de falsos perfis no Facebook.

Ainda na província de Cabinda, e na mesma senda, no mês passado, dia 26, numa micro- operação nos bairros Cabassango, Lombo-Lombo, 4 de Fevereiro e Povo- Grande, três outros cidadãos, com idades compreendidas entre os 30 aos 38 anos, foram detidos por crimes de uso de documentos falsos e burla por defraudação.

Os indivíduos também criaram perfis falsos, em nome de governantes e outras individualidades ligadas ao aparelho do Estado, com o fim de ludibriar os cidadãos.



Da operação realizada, foram apreendidos três cartões de débito, dois telemóveis que eram usados na prática de burla e uma suposta cópia do bilhete de identidade do governador de Benguela, Luís Manuel Da Fonseca Nunes.

Combater os perfis falsos criando os verdadeiros

Para o engenheiro informático e arquitecto de rede de segurança, Orlando Nzage, o problema dos falsos perfis pode ser evitado com a existência dos “verdadeiros perfis”, pois a falta de actividade por parte desses dirigentes nas redes sociais, a falta de informação passadas nos órgãos oficiais sobre este assunto, tem facilitado o aumento deste tipo de falsificação. Para ele, se os dirigentes angolanos tivessem uma actividade constante nas redes sociais, certamente evitariam que suas contas fossem falsificadas, uma vez que as pessoas poderão diferenciar o perfil falso do original.

“Hoje em dia é indispensável que um dirigente tenha alguma actividade nas redes sociais. Criar um perfil, identificar este perfil como o oficial, alimentar a página e fazer campanhas contra as páginas falsas, ajuda bastante”, acrescentou.

Esta sugestão do engenheiro surge pelo facto de nesta rede social ainda não existir algum mecanismo ou programa para impossibilitar a criação de contas falsas, pelo que o recurso a autenticidade ajuda neste tipo de combate.

Perguntado se é possível identificar e prender os falsificadores de contas, a partir do conhecido endereço IP (Protocolo da Internet), o entrevistado disse que sim, pelo que deve haver um trabalho conjunto com os Serviços de Investigação Criminal, na área de crimes cibernéticos. É um endereço que ajuda bastante, mas não dá a localização exacta e, sim, aproximada, geograficamente, com a ajuda de um satélite.

“Também podemos localizar pelo seu distribuidor. Vamos supor que o nosso malfeitor esteja a usar um provedor nacional (…). Pelo facto de o endereço IP ser atribuído a um equipamento dentro da rede, se fizermos um scanner deste endereço conseguimos obter, para além da localização geográfica, o provedor da internet e, por meio deste, identificar a pessoa”, exemplificou.

Para finalizar, disse que dada as fragilidades existentes no Facebook, em termos de segurança, e porque um dos artigos da Cambridge Analytica fala sobre isso, esta rede torna-se menos confiável e segura. Sobre este assunto, o engenheiro informático recomenda os dirigentes angolanos a usarem o Twitter ou o LinkedIn, por serem redes com muito pouco escândalos que envolvem a segurança e dados dos seus usuários.

 



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