Luanda - Depois de quase duas décadas de experiência democrática e de reconciliação nacional, o país vive nos nossos dias um período de tensão política.

Fonte: JA

O discurso político está cada vez mais crispado e os antagonismos passam do político para o pessoal e do circunstancial para o inconciliável. O ambiente político degrada-se a olhos vistos e a reconciliação nacional, apesar da sua maioridade, esta a perder fôlego para um fenómeno chamado desconfiança política.

O fenómeno da desconfiança política tem uma natureza multidimensional, projectando uma percepção negativa dos políticos e das instituições todas, como sejam parlamentos, partidos, governos, tribunais ou até a Polícia Nacional.

O fenómeno da desconfiança política cresceu de modo proporcional com as hipóteses de concretização de alternância política. A ansiedade pelo poder e a proximidade do período eleitoral leva a que cada acção, qualquer que seja vista como um plano diabólico para eliminar o adversário.

Uma parte deste fenómeno é claramente induzido, ou seja, existem forças na sociedade que se ocupam da exacerbação de situações, alimentando nas redes sociais, na im-prensa, entre certos analistas e nos grupos de fanáticos, teorias da conspiração. E não faltam, nos dois principais partidos, teorias acabadas sobre planos do adversário.

Estamos a viver uma verdade síndrome da desconfiança e a base dessa síndrome é a intriga, a manipulação dos cidadãos e, especialmente, a descrença quanto ao funcionamento das instituições públicas.

Num clima destes não é surpreendente a crise despoletada pelo almoço do Presidente da República. Na verdade, o ponto de partida da discórdia foi a desconfiança. Alguém partiu do princípio, e mobilizou os fanáticos, de que o almoço era uma estratégia de afastamento do líder da UNITA. Ao longo dos últimos anos, vários têm sido os analistas a defender o envolvimento dos mais velhos.

Todos os países têm senadores, mais velhos, que pela suas condições podem aconselhar informalmente o Chefe de Estado e os políticos. Noutras paragens isso é muito frequente. Se desassociarmos o tal almoço de uma suposta campanha para isolamento do líder da UNITA então facilmente vemos que a lista dos mais velhos é coerente com a explicação dada. Dela não constam outros líderes partidários nem pessoas com menos de setenta anos, excepção feita ao Presidente e Vice-Presidente da República.

Lamentavelmente esse é o clima e perante isso os cidadãos são manipulados e o clima de tensão se agrava. Com a instrumentalização dos cidadãos, outros olham para a desconfiança como uma estratégia destinada a difamar e denegrir o Chefe de Estado. Com a acusação de arquitectar planos contra o líder da UNITA, a imagem do Chefe de Estado não sai favorecida. Qualquer cidadão se sente no direito de fazer juízos nega-tivos sobre a suposta atitude do Presidente da República e também isso acaba por aprofundar ainda mais a tensão entre os actores políticos.

Por conta das desconfianças todas as partes têm razões de queixas e reclamações dos adversários. Os actores políticos acusam-se reciprocamente de não serem capazes de agir com sentido de Estado. A oposição acusa o Presidente da República de ter essa responsabilidade, o que é verdade, mas ao mesmo tempo não tira o pé do acelerador e usa uma linguagem de afronta, de acusações e de desconsideração, o que provoca igualmente um sentimento de ataque pessoal.

Quando este ano, a comemoração da paz coincide com a Páscoa, apetece aproveitar a ocasião para debater os caminhos para diminuir a desconfiança política. Estudos vários definem que o antídoto para a desconfiança é a confiança política e esta só se consegue com diálogo. O caminho para diminuir a tensão reinante na vida política é o diálogo e o bom senso. O líder da UNITA necessita de dar mostras de respeito pelas nossas instituições e usar uma linguagem sensata, crítica sem ser de ataque pessoal e, ao mesmo tempo, ao Presidente da República pede-se que faça prevalecer o sentido de Estado, os interesses da Nação e inicie uma série de encontros com forças políticas para restabelecer a confiança política. Como na Páscoa, a paz seja convosco, angolanos.

 



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