Paris - A história colonial e a submissão complacente da nossa elite aos imaginários não africanos justificam as várias aberrações que vemos em Angola. Porque se a nossa elite ainda se orgulha de não se identificar com a África e até se rebelaria contra quem ousasse compará-la aos tchadianos, já que aos congoleses da RDC isso seria mesmo o motivo de um duelo mortal, como esperar que ela seja capaz de detectar um racismo astuto se aceita de bom grado um racismo ostensivo e escandalosamente insultuoso? Será apenas uma questão de cultura? Também. Mas é acima de tudo complacência, um problema de imaginários colonizados, truncados, que não conseguem mais distinguir as coisas.


Fonte: O Pais

Em Angola é totalmente normal

Quando se instila habilmente o auto-ódio em alguém, obtém-se seres assim! Portugal não foi estúpido ao dar o país a quem o deu na Independência: aos seus aliados. Aos seus filhos, aos seus escravos que vieram de São Tomé e Príncipe, de Cabo Verde, a outros que vieram de outras terras que havia criminosamente ocupado, incluindo o Brasil de onde nos mandou numerosos criminosos, e a outros da nossa terra que ele colonizou bem. O objectivo era manter os imaginários da Dominação em Angola, para dar continuidade à Colonização dos Negros. E foi muito bem sucedido. Do contrário, como podemos justificar que num país predominantemente negro se possa, sem pestanejar, posar no saguão de um hotel a estátua de um anjo branco, com armadura antiga e espada apontada, que esmaga com o seu odioso pé a cabeça de um Negro, o Diabo, prostrado no chão e acorrentado? Esta é a assinatura do Hotel Portugália de Malanje, para dar as boas-vindas aos seus clientes e para lembrar que Portugal realmente nunca saiu de Angola.


Esta imagem, copiada de "São Miguel derrota Satanás", uma pintura do artista italiano Rafael Sanzio realizada em 1518, evoluiu à medida que a Europa se impunha a outros povos do mundo. Mas a chamada pintura original, que hoje está no Louvre, depois de ter sido o símbolo do poder real na França, não nos mostra um Negro. E o capítulo da bíblia, Apocalipse 12-7, que inspirou a pintura, também não fala de um Negro na luta no céu do arcanjo São Miguel contra o Dragão, que ele precipitou na Terra. E mesmo quando se lê a bíblia, há poucas representações negativas de pessoas negras. Quando se fala dos três reis magos, o Venerável Beda já recordava no século VII que foi um Negro que deu ao menino Jesus a sua humanidade no dia do seu nascimento, oferecendo-lhe mirra. Também sabemos que a Rainha de Sabá ofereceu ao Rei Salomão quantidades de ouro. E quando o pequeno Jesus estava em perigo de morte, os seus pais fugiram com ele para ir protegê-lo em África e não na Europa. É curioso que digamos todas essas coisas bonitas sobre um povo e um continente que depois chamamos de selvagens e amaldiçoados, para melhor justificar a sua submissão, não é? Mas tudo mudou de forma rápida e repentina, até hoje, com a ambição conquistadora da Europa.


Em "Otelo", Shakespeare dá-nos informações edificantes sobre essa hábil construção da imagem do Negro pelo Branco. A peça mostra-nos claramente o processo de transição; do Negro que representava poder, riqueza e sabedoria para o Negro que seria despido da sua humanidade, humilhado, preso ou morto. Foi estabelecido nos imaginários que tudo o que é bom é branco e que tudo o que é mau é preto. Fez-se viajar um Jesus Cristo branco, louro como um finlandês, e mudou-se a imagem da pintura de Rafael Sanzio, que hoje inspira a estátua do Hotel Portugália em Malanje, tal como o trono da Grã-Bretanha a usa numa das suas medalhas mais prestigiosas, com a qual a rainha condecora embaixadores, diplomatas e altos funcionários das Relações Exteriores que serviram ao seu império no exterior.


É com esses imaginários que os povos negros e não brancos do mundo são subjugados em benefício da supremacia branca desde o século XVI. São mensagens activas e subliminares que reforçam a conquista, subjugação e desumanização desses povos. Então, hoje, no século de todas as emancipações, poderia ter me surpreendido se tivesse visto tal estátua no saguão de um hotel em outro país africano, que faz o trabalho da memória e da consciência. Em Angola é totalmente normal. É o passado que informa o presente. E se até em França estamos agora a tentar criar um país que reflecte o mundo actual, em Angola os imaginários continuam ainda intactos. Anteontem, o presidente Macron desejou comemorar o bicentenário da morte do controverso Napoleão Bonaparte e o meu amigo Louis-Georges Tin o lembrou, na sua tribuna publicada no mesmo dia no "Le Monde", o quanto isso era um erro. E enquanto não questionarmos vigorosamente os imaginários que governam o nosso país, Angola, continuaremos com esta coisa estranha que construímos e que queremos chamar de país, que não representa a maioria dos angolanos, nem a grandeza da África e dos negros do mundo. Entendo o choque do compatriota que partilhou nas redes sociais o vídeo com a infame estátua e fico muito feliz em saber que pessoas como ele também existem no nosso país.


A sua consciência é revigorante, é o rumo. Porque Angola e África serão reabilitadas e regeneradas, pelos seus filhos como ele e não por uma elite voltada para o ultramar e longínquos alhures. A África não será salva por essa elite cuja parte que se considera mais educada só pode dissertar sobre "Auto da Barca do Inferno", de Gil Vicente, mas que ignora a existência e as proezas de Sundiata Keita. E até lá, o Hotel Portugália de Malanje continuará a exibir a sua estátua que nos faz lembrar a imagem do polícia branco que matou George Floyd.


Ricardo Vita é Pan-africanista, afro-optimista radicado em Paris, França. É colunista do diário Público (Portugal), cofundador do instituto République et Diversité que promove a diversidade em França e é empresário.



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