Luanda - Anos atrás, um jornalista angolano me perguntou se as várias referências ao 27 de Maio de 1977 nas minhas publicações, era por causa do que aconteceu ao meu pai, a pergunta surgiu em reacção a uma publicação em que falei da fuga da minha mãe com os seus filhos, meu irmão e eu, quando o caos tomou conta do Sambila.

Fonte: Club-k.net

A minha resposta teve apenas três letras, mas foram insuficientes para o meu interlocutor, que não sabe que nas minhas pesquisas entrevistei pessoas que me falaram do irmão dele que também morreu como fraccionista. Eu joguei em vários campos do meu Sambila, me lembro que numa das vezes chutei mal e quase perdi o dedo grande do pé direito, um desses pelados ainda hoje é lembrado como campo dos partidos, mas devido a idade não fui capaz de juntar o útil ao agradável na primeira vez em que a minha mãe me contou sobre o meu pai e o 27 de Maio. O forte apego que sempre existiu entre o meu pai e o seu filho amado, criou de imediato um forte bloqueio mental que me impediu de acreditar que da boca do meu pai saiu uma só reacção eufórica em favor de Nito Alves.

 

Os que ainda se lembram do meu pai no Sambila vão perceber por que depois da morte da minha mãe, 24/5/94, concluí que o meu silêncio estava a fazer muito barulho, mas nem eu nem os que escutaram histórias semelhantes daquele dia tínhamos a coragem de escutar o nosso juiz interno, a consciência, para ir atrás daquilo que nenhum de nós podia negar ainda mais porque o campo dos partidos no Sambila e o meu amigo, que as pessoas diziam ser xará do pai, um dos heróis cuja morte é atribuída aos fraccionistas, eram coisas boas demais para serem ignoradas e apagadas, porque fazem parte da omitida história de Angola. Então, fingir ou minimizar o que aconteceu simulando pedidos de perdão e desculpas, é o mesmo que imitar o crocodilo que parece derramar lágrimas ao devorar a presa. Nós quando nascemos já encontramos o "desculpas não curam ferida", realmente não há como desculpar ou perdoar quem não está arrependido!

 

O meu pai daqui a dias fará 76 anos, a versão dele é como a de muitos que estavam inocentes que estavam na hora errada no lugar errado, até nas imagens feitas no mesmo dia e que fazem parte dum filme angolano, dá para ver civis desarmados a serem atacados por militares, alguns civis até levantam às mãos antes de chegar as barreiras militares, mas mesmo assim são recebidos com quedas e coisas afins!

 

O meu pai contou em meio a emoção que a minha mãe lhe pediu para não sair de casa, mas ele saiu no exacto momento em que o Sambila é invadido para se resgatar os heróis que estavam na casa do Kiferro, foi essa "pressa" que lhes deu a nganza de "construir" o campo dos partidos, os tanques e as balas não diferenciavam nem fraccionistas nem os inocentes, assim ele saiu de casa e ao abrir a porta do quintal teve aquela visão aterradora dos muitos mortos. A partir daí a DISA o incluiu como figurante no filme que produziu quer no Sambila quer no BNA, locais em que sofreu enorme tortura mental, nunca lhe tocaram um dedo sequer, é verdade, mas viu inúmeros conhecidos entre vizinhos e colegas, a serem espancados e levados para nunca mais serem vistos! Nenhum desses inocentes que ele viu transformados em fraccionistas, isso seja sublinhado, teve o nome mencionado pelo presidente João Lourenço.

É aqui onde bate o ponto! O governo primeiro publicou no Jornal de Angola a sua versão da intentona que alguém em nossos dias chamou de inventona, dias depois essa versão surgiu no mercado em forma de brochura, quem já leu essa brochura é capaz de concluir, como eu, que os fraccionistas tomaram mesmo o poder e lá permanecem intocáveis até hoje, as muitas provas forjadas desde a morte e queima dos mortos não convencem ainda mais quando o próprio fogo é incapaz de deixar provas no local do crime!


O PROGRESSO ASSOCIAÇÃO SAMBIZANGA foi caluniado pelo governo, está lá na versão oficial, até um torneio da chacha que o PROGRESSO ganhou foi usado como argumento para vincular o clube com o golpe de estado! Mais grave do que isso, é a colagem do RACISMO que se fez a intentona do 27 de Maio, esse termo intentona é muito usado na versão oficial, é ponto assente que é essa colagem que ainda persiste que faz com que muitas pessoas culpem os MULATOS e BRANCOS pelo enorme derramamento de sangue na repressão dos fraccionistas.


Ainda há pessoas vivas, entre eles jornalistas, que testemunharam em 1999 o "debate" que tive com a saudosa Gabriela Antunes e que podem puxar pela memória para lembrar o que eu disse sobre o erro de se fazer crer que os golpistas sofriam de fobia pelos MULATOS e BRANCOS.


É por causa dessa mentira infantil que muita gente fica espantada ao ver MULATOS e BRANCOS entre os dizimados na programada repressão do governo. Ainda bem que Iko Carreira no seu livro de memórias lançado em 1996 admitiu ser impossível calcular o número exacto de mortos pelo governo, fica claro que há uma tentativa deliberada de silenciar em definitivo as vozes dos inocentes cujo sangue clama por justiça! É por isso que nesse e nos próximos 27 em que eu estiver vivo, a minha vela continuará acesa no meu Facebook para impedir que se apague essa página ímpar da nossa história, é muito cinismo e hipocrisia querer misturar Deolinda Rodrigues, Teresa Cohen e outros mortos pela FNLA na luta anti-colonial com os inocentes presos e mortos na justiça selectiva do 27 de Maio de 1977. Custa acreditar que em Angola ainda se acredita que o governo pode com impunidade prender e matar inocentes porque os que andaram na guerrilha também violentavam civis! Se é normal colocar em pé de igualdade um governo e um movimento guerrilheiro, fica claro quem tem a mente cheio de calos que lhe impedem de sentir pena dos inocentes.


Os deuses gregos sentiriam inveja desse comportamento! Aos mercenários deram o luxo em 1976 de um julgamento com júri internacional, aos angolanos fraccionistas prenderam e mataram porque o presidente Agostinho Neto não queria perder tempo com julgamentos! Ninguém contrariou a voz do presidente e hoje querem que a culpa morra solteira para prevalecer outra vez a lógica da obediência às ordens superiores que alegram o chefe.



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