Lisboa - “O Príncipe do Congo” é uma obra inspirada na figura de D. Nicolau de Água Rosada, um dos filhos de D. Henrique II, Rei do Congo. Ainda não deixara o viço dos seus 15 anos quando em 1845 o pai o escolhe, dentre os seus vários filhos, para ir a Lisboa numa missão que sendo do seu próprio interesse, servia também interesses de Portugal.

Fonte: Club-k.net

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Essa viagem e a jornada de ano e meio pela mítica capital do Puto acabariam por vir a representar para D. Nicolau o princípio de uma vida singularíssima – considerada assim não apenas pelos feitos que a marcaram, mas também pela tragédia do seu desfecho, em 1860. O destino que virtualmente lhe estava destinado antes da viagem não se cumpriu.



Se a singularidade da sua vida se deveu a um elemento em especial, foi de certeza mente que foi vendo abrir-se-lhe e à consciência cívica e política que nele foi despertando – uma e outra coisa fruto da carreira de funcionário da Fazenda em que a instrução adquirida ao longo de seis anos, primeiro em Lisboa, depois em Luanda, lhe permitira ingressar, e na qual haveria de singrar. Mas também à posição de destaque a que o seu estatuto de Príncipe do Congo o viria a guindar na cosmopolita sociedade luandense.



Portugal está por esse tempo a cuidar de recompor antigas influências no Reino do Congo – tão fulgurantes na centúria que se seguir à chegada de Diogo Cão ao Zaire, mas depois votadas a um lento definhamento. Os direitos históricos que para tal invoca vão merecendo, porém, cada vez menos aceitação entre potências como a Inglaterra e a França, cujos navios vão cruzando aqueles mares em movimentos que também parecem dar vazão a cobiças territoriais.


Resta-lhe estabelecer alianças com o Rei do Congo que ao próprio também interessam como maneira de fazer frente a potentados locais perenemente alevantados para lhe disputar o trono. Reforçar por essa via a sua autoridade é igualmente uma maneira de finalmente o habilitar a impor-se aos potentados, alguns dos quais, como o de Mossul, são praticamente autónomos.


A “carregação” de escravos que continua a praticar-se ao longo do litoral do Reino do Congo, em especial aí, constituía uma espécie de “calcanhar de Aquiles” para Portugal; ingleses e franceses argumentam que isso serve de demonstração de uma alegada incapacidade de Portugal para controlar o tráfico ou, pior ainda, de conivência com ele. Ambos os assuntos estão presentes na missão de D. Nicolau a Lisboa.



Portugal, na pessoa dos seus reis, sempre tratara o Rei do Congo como um igual – um irmão. E continuava a ser assim, como transparecia de coisas como o respeitoso protocolo com que D. Nicolau fora acolhido em Lisboa. Que outro significado poderia ter o tratamento de Sua Alteza Real o Príncipe do Congo, dado a D. Nicolau, tanto em Luanda como em Lisboa ou as deferências que sempre o rodearam?


Ao velho Rei D. Henrique II, passado ao mundo dos mortos no princípio de 1857, sucedera D. Pedro VI. As suas próprias fraquezas, somadas às fortitudes de um rival que lhe disputava o trono, D. Álvaro, fazem dele um rei fraco, incapaz de se afirmar e sobreviver sem o “socorro” de Portugal. O fim do Reino do Congo que D. Nicolau vê no preito de vassalagem que Portugal impõe ao novo Rei, como condição para ir em seu socorro, é a causa de um grito de revolta de D. Nicolau.


À sua rebeldia, levada tão longe quanto a publicação de uma carta de protesto num jornal de Lisboa poderia levar, associa reacções das autoridades portuguesas, em especial do governador-geral. Para se precaver resolve deixar o Ambriz, onde poucas semanas antes, vindo de Luanda, fora colocado como escrivão da Fazenda. Tem o Brasil como destino.


No Quicembo, a norte do Ambriz, onde se refugia, aproveitando para tal os préstimos de um feitor inglês, é, porém, acometido por uma turbamulta que o assassina. As contas que assim ajustam com ele são outras: as cedências de seu pai aos portugueses, entre elas a ocupação do Ambriz, e o apoio por ele próprio prestado a D. Pedro VI com base no reconhecimento dos seus direitos sucessórios.

Saberiam eles, malhas que a ignorância tece, que D. Nicolau andava por aqueles lugares “penando” pelo seu protesto contra a “morte” do reino do Congo, que premonitoriamente viu no acto de vassalagem de seu primo-irmão? Como se confirmou poucos meses depois, com o desembarque, ali mesmo, de tropas portuguesas que têm por missão impor definitivamente o novo Rei e submeter o Reino do Congo, colocando-o sob jurisdição do poder central de Luanda.


O que fez a vida de D. Nicolau assim, foi também o agitado mas igualmente profícuo período que Angola viveu entre o momento do seu embarque para Lisboa e esse outros momentos do seu assassinato. É ao longo dele, quinze anos ao todo, que Angola passa finalmente da Era do tráfico de Escravos para a História Moderna. Um feito alcançado em condições tortuosas, como a obra conta.

Ao tráfico de escravos, que ao longo de séculos havia moldado praticamente tudo em Angola, a economia, o Estado, o trabalho, sucedia uma nova realidade, chegada aos nossos tempos e fundada no aproveitamento de novos recursos: a agricultura, as minas, a pesca, etc. A nova realidade em que já entrara um território por essa altura também a estender-se para sul e para o interior, está patente na mostra de Angola que Portugal inclui no pavilhão que o representa na Exposição Universal de Londres de 1862.

 



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