Luanda - […] Adivinhava-se um desfecho positivo nas negociações em Bicesse, por isso, impunha-se que houvesse rapidamente uma cessação de hostilidades militares. Neste sentido foi acordado por mim e pelo general Ben Ben que nos devíamos encontrar, rapidamente algures, mas naquela região, sendo necessário obter autorização expressa dos nossos mais altos comandantes. No meu caso era o Presidente da República Popular de Angola, José Eduardo dos Santos, nosso Comandante em Chefe. E do lado de Bem Ben, era o Dr. Jonas Malheiro Savimbi. Dois dias depois obtive do Presidente José Eduardo dos Santos, com prévia consulta ao ministro da Defesa, general Pedalé, a autorização para o encontro entre as Chefias Militares em confronto no Luena. O general Ben Ben também recebeu autorização expressa do seu líder. Definimos o local do encontro. A nascente do rio Cauango, a sul do Luena.

Fonte: Memórias de Higino Carneiro

A composição das delegações militares não excedeu as cinco pessoas de cada parte. Juntou-se a nós um jornalista angolano que devia presenciar e relatar o que se passasse no encontro. Fiz-me acompanhar do tenente coronel Sanjar, do major Bento Sozinho, da Inteligência Militar, dois seguranças, do William Tonet e do motorista que conduziu o jipe Waz, que nos levou ao local do encontro.


Do lado da UNITA chegaram ao local do encontro o general Ben Bem, o general Chilingutila, o general Canjundo, o brigadeiro Mackenzie, o brigadeiro Consagrado e pessoal da segurança. Chegaram numa viatura vulgarmente conhecida por Tubarão, o Hammer americano. O encontro produziu os resultados esperados. Foi elaborada uma acta produzida pelo jornalista William Tonet e assinada por mim em nome Supremo do Governo (FAPLA) e pelo general Ben Bem em nome da UNITA (FALA). Tal como prevíamos, no regresso à base de onde havia partido a delegação chefiada pelo general Ben Bem, dois dias depois, uma viatura accionou uma mina que ceifou a vida do general José Nogueira Jamba Kanjundo.


Esta realidade provocou a justeza da decisão tomada superiormente pelo Comandante em Chefe das FAPLA, o Presidente José Eduardo dos Santo ao autorizar sem reservas a realização deste primeiro encontro das chefias militares, no dia 15 de Maio de 1991, na nascente do Rio Cauango, província do Móxico.


A notícia difundida pela Televisão e pela Radio sobre este encontro apanhou de surpresa o País e o mundo, porque ainda decorriam as negociações bilaterais em Bicesse, embora fosse previsível um desfecho positivo relativamente à Paz em Angola. Regressado a Luanda, fui imediatamente informar o ministro da Defesa sobre os resultados do encontro. Depois fomos encontrar-nos com o Presidente José Eduardo dos Santos a quem prestei uma informação mais exaustiva desse encontro entre as chefias militares das FAPLA e das FALA.


Recordo-me que num dos encontros seguintes fiz-me acompanhar do jornalista William Tonet então também correspondente da Voz de América. Este, solicitou um apoio para desenvolver melhor a sua actividade jornalística, o que prontamente foi aceite pelo Presidente José Eduardo dos Santos, atribuindo essa tarefa ao seu secretário de Defesa e Segurança, o então coronel António José Maria. Para quem não sabe, o general António José Maria é tio do jornalista William Tonet. Também soube que o apoio nunca lhe chegou a ser dado, por algum desentendimento entre os dois, que até chegaram a ter uma discussão presenciada por muitas pessoas, num dia de futebol no Estádio da Cidadela. Aí o caldo entornou-se como se diz na gíria. O William Tonet não recebeu o apoio prometido. Ele era nosso amigo.


Sobretudo meu e do general João de Matos. Convivemos bastante. Ainda trocamos mensagens quando precisamos de conversar.

 

In “Memórias: Soldado da Pátria”, de Higino Carneiro (págs. 82, 83 e 84)

 

 



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