Lisboa - Luanda, 31 de Junho de 1991/ 31 de Outubro de 1992 a 03 de Novembro de 1992. Uma pequena, mas longa história.

Fonte: Club-k.net

Testemunho do coronel na reforma Félix Miranda



Em Off me estão a questionar porque me considero como Morto Vivo e porque razão não escrevo e publico as minhas memórias.


1 – Não publico porque sempre pensei que devíamos estar mais centrados na construção do futuro de Angola até aqui incerto e não muito na recomposição do passado traído. Prometeram-nos paz, parece que estamos a colher o ódio; prometeram-nos a reconciliação, mas estamos longe disso. Ontem quando eramos rapazitos, fomos considerados o FUTURO de Angola: hoje 46 anos depois, os jovens nos dizem que somos o PASSADO.


2 - Sobrevivi há múltiplos combates e ofensivas militares e outras peripécias que só Deus sabe porque ainda estou em vida. Mas, me é indiferente. Talvez porque eu próprio sempre minimizei, apesar de afinal ter feitos heróicos e que contribuíram imenso para a Paz e Democracia de hoje em Angola. Mas como o COVID – 19, este INIMIGO INVISIVEL do INVISIVEL anda por perto, aqui deixo um pequeno pedaço.


Por exemplo: “Em 1978, eu ainda instruendo das Tele-comunicações, andei perdido e já dado como morto, durante 3 dias e 3 noites nas matas do Cunene, no Chimporo; Palmeirinhas; Camue-Camue... com fome e sede, na sequência da Célebre Ofensiva em que o Dr. Agostinho Neto (MPLA) investiu o maior contingente de tropas de Russos e Cubanos, jamais visto na altura, para 'decapitar' a Direcção da UNITA e capturar o Dr. Savimbi. Foram 3 dias terríveis, a conviver, com o medo devido ao tripidar das lagartas dos Tanques T-54 e BRDM, das viaturas Kamaz e os rumores trovejantes dos helicópteros e aviões Caças Bombardeiros. Naquelas savanas, a deriva convivi com leões, elefantes, mas também macacos com quem eu disputava os frutos silvestres (maboques e lonchas). O General Manuvakola, o General Chiwale ou os Mais Velhos N'Zau Puna e Alcides Sakala, são testemunhas”. Mas passemos para o essencial:

2 – Morto Vivo porque, por exemplo:


a) Depois de ter estado em muitas frentes de combate e na Linha da Frente durante os anos a fio, e ter conciliado com as actividades jornalísticas, foi assim que, aos 31 de Junho de 1991, na qualidade de quadro da VORGAN, integrei a primeira Delegação da UNITA, a CCPM – Comissão Conjunta Política e Militar, chefiada pelo falecido Salupeto Pena, coadjuvado por Abel Chivukuvuku, o falecido Eliseu Chimbili e outros membros das FALA, que desembarcou em Luanda no quadro do Processo de Paz de Bicesse assinado aos 31 de Maio de 1991, em Portugal.


b) Quando partimos da Jamba, ao nos despedir, o Dr Savimbi disse que não confiava muito no MPLA e postos em Luanda, tudo poderia acontecer connosco, mesmo sermos reduzidos a mártires. Eu fui o 11° Membro da Delegação, na qualidade de Adido de Imprensa. Sozinho, trabalhava como um cavalo, dia e noite, até que formei alguns colaboradores, dos quais o “FFT”, o MP e outros e criei a Rádio FM VORGAN LUANDA, com a ajuda dos manos Horácio Junjuvili e Abel Chivukuvuku. Também fiz parte da Equipe, juntamente o falecido Salupeto Pena e Abel Chivukuvuku, que depois de se impugnar os resultados das eleições de 29 de Setembro de 1992, dia e noite andamos de reuniões em reuniões no CIAM e nos Negócios Estrangeiros, a procurar salvar o Processo e evitar o inevitável, o MORTICĺNIO que aconteceu em seguida. Nem as Nações Unidas conseguiram acudir, porque pareceu de antemão tudo estar já decidido. Eu fui um dos últimos jornalistas que entrevistou o Dr. Onofre dos Santos (Presidente do CNE juntamente o Dr. Caetano de Sousa), antes deste sair para Portugal e ter declarado aos microfones que no mínimo, as eleições estavam encharcadas de inúmeras irregularidades e que tinha poucas esperanças de se salvar o contexto. No dia seguinte soube que o Dr Onofre já não estava em Luanda.


c) Para espanto de todos, ou melhor, menos do MPLA, Margaret Anstee, Representante Oficial da ONU, apoiada pela Troika de Observadores, aos 19 de Outubro, valida os resultados e declara concluída a 1ª Volta das eleições, mas com um empate técnico, José Eduardo dos Santos/ Jonas Savimbi o que os levaria à uma 2ª Volta. Sempre nos esforços de se conseguir apaziguar a tensão, participei daquela delegação dos líderes dos partidos políticos que saiu de Luanda para se reunir com o Dr Savimbi na Casa Branca no Huambo e sucedeu os episódios e calúnias contra a falecida Anália de Vitória Pereira “Mamã Coragem” e o Engenheiro Simão Cassete da AD Coligação.


d) Depois, foi o que foi: de 31 de Outubro até mais ou menos 04 de Novembro de 1992, Luanda transformou-se num inferno, o dilúvio. Tinha-se ignorado as informações segundo as quais, as autoridades do MPLA andavam a distribuir armas à população. O certo é que, todas as instalações que albergavam as instituições ou tinham pessoal da UNITA foram atacadas pelas tropas, polícias e milícias formadas pelos comités do Poder Popular do MPLA. Todos aqueles que eram conotados com a oposição foram ceifados. Um dos nossos generais da CMVF para a formação das tropas conjuntas, hoje também em vida, escapou a morte, mesmo defronte as instalações da CCPM, quando saía de uma reunião de tentativa de se salvar a crise. Sobre mortos e feridos, nem contar. Também perdemos um dos nossos sonoplastas, morto em sua casa, na Avenida dos Combatentes. Mas deixemos também isso.


e) Antes do Dr. Savimbi ter abandonado Luanda, chamou-me no Mira-mar, num desses dias, a noite, cerca das 23 ou 24 horas. Eu estava no Estúdio a trabalhar com o meu sonoplasta de nome Jesus. Fui ao Mira-mar acompanhado pela sua guarda de comandos e levei a minha pesada gravadora de bobines SONY TC, que apoiava a Rádio. Posto em casa do Dr Savimbi, os dois no seu pequeno Gabinete de Reflexão, gravei a célebre mensagem, deixada aos luandenses a recomendar coragem e calma que a situação iria melhorar, mas com a expressa advertência que só deveria publicar a mensagem com a autorização do General Kalias. Em Off o Dr Savimbi disse que até aí tinham confiado no General França Ndalu para o diálogo, mas pelas informações que ia recebendo, compreendeu que o General Ndalu tinha perdido o controle da situação, e que o MPLA já não respeitava a Comunidade Internacional, pelo que não havia outra alternativa senão abandonar Luanda para salvar a UNITA. Soube mais tarde que o Dr Savimbi abandonou Luanda clandestinamente e eu apenas coloquei no Ar a Mensagem gravada, dias depois.


3 – Morto Vivo, porque: eu fui um dos que viu em vida, pela última vez o mano Adolosi Alicerces 'Mango', naquela infernal e mortífera noite, quando ao fugirmos da Sede do Largo Serpa Pinto que estava a ficar em escombros, deixávamos atrás, dezenas de mortos e feridos, mesmo aqui no interior de Luanda. Lembro-me de uma Viatura que levava feridos, com destino ao Hotel Tivoli, onde se encontrava a Dra Fátima Roque, foi interceptada e queimada.

 

A última vez que vimos o mano Mango 'O nosso mano que representava a fibra fina dos benguelenses, o preto inteligente do Liceu de Benguela, senhor de uma personalidade invulgar', deixa-mo-lo sim em vida. Como dizia, nesta noite em que parecíamos mais mortos em movimento do que vivos, estava o General Paulo Lukamba 'Gato' que chefiava a coluna em fuga, o Secretário Geral Mango Alicerces, eu, o Enfermeiro Assis, alguns seguranças e outro pessoal que nos fatídicos dias em que fomos atacados se refugiaram na Sede da Delegação da UNITA ali na Serpa Pinto, quem sobe para o ex - Colégio Mutu Ya Kevela e nas instalações onde funcionava os Negócios Estrangeiros do Dr. Abel Chivukuvuku. Portanto, isso foi frente ao famoso Prédio do Livro ali na Maianga. Nessa noite, em cada janela desse prédio tinha uma arma que disparava contra a nossa coluna. O mano Mango tinha uma lesão numa das pernas e por isso não conseguia caminhar. Ofegante, vendo aquele fogo-de-artifício de balas incendiárias, pediu ao General Gato que arranjasse uns homens para o atrelar e levá-lo de volta para sua casa que ficava ali nas cercanias. Não iria aguentar porque estávamos a seguir a pé até as quintas no Município de Viana onde se encontrava o General Begin, passando por barreiras de polícias e jovens armados que disparavam indiscriminadamente. Assim o General Gato orientou o segurança do mano Mango, mais alguém para levá-lo a casa. Dali, nada mais se soube.


Ainda nos dias dos confrontos, ouviu-se pelos motorolas os gritos do Velho Eliseu Chimbili a clamar por socorro porque sua casa, nas imediações do Zé Pirão, estava a ser invadida com tiros e estavam já muito próximos onde ele se encontrava.


O General Gato foi atingido numa das mãos, no meio do Kazenga quando depois de atravessarmos a Linha Férrea, passávamos a 5ª Esquadra e não conseguimos ultrapassar a emboscada de metralhadoras PKM que nos esperavam do outro lado da conhecida Estrada de Catete, no Quartel do Grafanil. Foi sem dúvida um verdadeiro cerco e aniquilamento. Outras dezenas de mortos e feridos ficaram ali. Não conseguindo furar aquela barreira, tivemos de manobrar e tomar Viana pelas colinas, com o General Gato as costas. Na quinta do General Begin onde estava a logistica da campanha, os tanques também a tinham cercado e estavam em acção. Entretanto, continuamos a marcha, invadindo lavras. Passamos pela Fazenda do General Pedalé, atravessamos o Rio Zenza por canoas e sempre perseguidos por uma Avioneta de Reconhecimento e um Helicóptero de Combate MI-8. Do Zenza até Caxito, outros mortos por fome e sede ficaram naquelas matas.


O que mais nos espantou, foi o facto de que, o Kazenga era o Bairro que apresentava mais indícios de pobreza e desgraça, mas foi ali onde pareceu-nos haver um verdadeiro exército, tanto foi o fogo em tudo quanto era canto e beco.

Na altura da fuga do Centro de Luanda, o Dr. Chivukuvuku não estava connosco porque se juntara aos Engenheiros Salupeto Pena e Geremias Chitunda, mais o General Ben-Ben e o General Katokessa no Mira-mar, para coordenar esforços na tentativa de Paz, com as Nações Unidas e as embaixadas. Nada, esforço inglório. Nas conversações com as autoridades do MPLA, mesmo por via rádio-móvel, os dirigentes da UNITA se sentiram traídos pelos seus homólogos generais Higino Carneiro, Ndalu e Nandó com quem procuraram o entendimento e o cessar fogo. Em troca foi lançada uma Brigada de Tanques que da Funda penetrou na cidade para cercar as posições da UNITA.

4 – Morto Vivo porque: quis Deus que naquela tarde do início do tiroteio, me atrasasse um minuto e fez com que eu não apanhasse a viatura, uma Toyota Prevea que levou o pessoal da Delegação para o almoço no Hotel Turismo que afinal já estava cercado e debaixo de fogo. A viatura foi atacada, mortos todos seus ocupantes e incendiada ali no Centro na Praça da Mutamba. Pude certificar que Deus por vezes te coloca pequenos obstáculos para te desviar do pior 'A Morte'. Naqueles dias, comíamos graças a tia Vitória com seus filhos que mesmo debaixo de tiros, se enchia de coragem e lá ia improvisando alguma coisa.

5 – Morto Vivo porque: sempre apeados, chegados ao Caxito - Bengo, onde fomos socorridos pelo General Numa, escapei a morte, dessa vez por ter bebido muita água suja de uma lagoa ali encontrada, se não me engano no Tumpo, e depois de encontrarmos o General Numa, etr comido até rebentar a barriga, depois de quase uma semana naquele deserto. O General Ben-Ben encontrou-nos depois em Caxito e deu-nos ali o relato de que Salupeto Pena, Geremias Chitunda, Abel Chivukuvuku tinham sido mortos.


O fim da UNITA em Luanda em 1992 foi declarado quando deixei de emitir na FM VORGAN LUANDA. De tantas bombas de morteiros e canhões, o edifício foi ficando em escombros e fui forçado a desertar a Rádio. Foi naquele momento que os correspondentes da BBC e Voz da América, respectivamente os jornalistas Reginaldo Silva e William Tonet, anunciavam a decapitação da Direcção da UNITA em Luanda, porque eu tinha deixado de emitir, na medida em que, com a FM VORGAN LUANDA passei a ser a voz de referência.


6 – Portanto, isto é apenas um quinto do muito que faz o pacotão das minhas memórias, com dados, factos e testemunhas. SÃO OUTROS QUINHENTOS! Sei que isso não contribui em nada. Mas como insistiram...



Mas, deixemos tudo isso e olhemos para o presente e o futuro.

 



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