Lisboa – Quando ainda ao tempo do Presidente Agostinho Neto, pensou-se em criar um “Protocolo do Estado” para apoiar as cerimonias do Chefe de Estado, o então jovem  José Carlos Mouzinho, que aderira  ao MPLA, no período de 1974/75, encontrava-se em ascensão na sede do partido, onde lhe fora confiada a missão do protocolo partidário.

Fonte: Club-k.net

A partir da sede do MPLA, “Zé Carlos” como era tratado entre os seus camaradas, viu passar pelo Protocolo do Estado da Presidência, figuras como Hermínio Joaquim Escórcio (hoje embaixador); Domingos Van-Dúnem que por ai ficou durante seis meses, e  Júlio Guerra (já falecido). É neste período que aos  23 de Fevereiro de 1982,  Zé Carlos Mouzinho seria requisitado da sede do partido para se transferir para as antigas instalações da Presidência da República e ocupar   o cargo do Director Nacional do Protocolo do Estado.

 

José Carlos Mouzinho, tornou-se, em função do seu cargo, homem de confiança de José Eduardo dos Santos de quem já convivera desde a sede do partido. Diz-se que o Presidente Dos Santos  apreciava nele certo dinamismo que aplicava nas tarefas que lhe eram incumbidas  mas também o conhecimento profundo sobre as regras protocolares. Desde a sua saída do cargo, JES levou quatro anos para   nomear alguém com a experiencia de  Mouzinho.

 

De acordo com informações da época, a amizade entre Eduardo dos Santos e José Mouzinho que veio  estender-se até aos seus filhos (com realce à Tchizé dos Santos), tendo  sido minada no seguimento de intrigas palacianas oriundas de ministros ou altos funcionários do partido, que o apresentavam como “homem havido de poder” e de reclamações resultantes da convicção de ser próximo de  JES.

 

Num dia 23 de setembro de 1986, o Presidente José Eduardo dos Santos exonerou-o do cargo.


Até aos dias de hoje as motivações que ditaram a saída de José Carlos Mouzinho do circulo presidencial, nunca foram bem vistas  por observadores atentos a realidade  política angolana de que o mesmo foi objecto de intrigas que a  época caracterizavam o regime do MPLA, como se poder ler no argumento de José Eduardo dos Santos anexado  ao despacho presidencial de então e  que o Club-K te acesso: “por ter vindo a assumir, de alguns tempos a esta parte, atitudes poucos consentâneas com os métodos de trabalho implantados no gabinete do Presidente da República, enveredando não raro, pela adaptação de soluções acentuadamente incorretas e marcadas por excessivo individualismo, determino que cessa, a partir desta data, a comissão de serviço do camarada José Carlos Mouzinho, no cargo de diretor nacional do protocolo do Estado, para o qual havia sido nomeado por despacho de 23 de Fevereiro de 1982”.

 

Desde a saída de  Carlos Mouzinho, o protocolo do  Estado da presidência ficou sem director durante quadro anos, sendo que o seu cargo passou a ser  exercito interinamente  por um “adjunto” Antônio Augusto Sebastião Alburqueque até 23 de Novembro de 1989, data em que o Presidente José Eduardo dos Santos reestruturou este departamento passando a designar-se por “serviços centrais do protocolo do protocolo de Estado”. JES nomearia finalmente um novo diretor, Antônio Sebastião “Tó” Lengue, que entretanto fora também afastado  depois de 10 meses, no decorrer de outras intrigas palacianas.

 

Afastado que estava do circulo presidencial, Carlos Mouzinho, lançara em 1991, um livro de 172 paginas intitulado “O Protocolo Diplomático e a minha experiência”. O referido livro, vendido em livrarias portuguesas, é referenciado como “um guia de trabalho, em matéria de normas de protocolo diplomático, contendo descrições precisas para consulta de quem exerce funções nesta esfera de actividade indispensável para as relações entre representantes do Estado e do Governo e entre representantes de Estados ou Governos diferentes”.

 

Por outro lado, enquanto os seus antecessores foram nomeados ou colocados em missões diplomáticas no exterior do país, o antigo director Carlos Mouzinho permaneceu em Angola trabalhando como 'prefeito' da vila residencial do GAMEK. Ainda neste período de não apaziguado com os seus camaradas, surgiram no período eleitoral de 1992, ventilações de que o extinto Partido Renovador Democrático (PRD), que integrava dissidentes do MPLA, como o padre Joaquim Pinto de Andrade, queria tê-lo tomando proveito da sua situação de renunciado pelo regime.

 

Desde estes últimos 36 anos nunca mais foi citado ou visto publicamente. Uma eventual reaproximação com o regime terá ocorrido com a chegada de João Lourenço ao poder no seguimento de uma intermediação facilitada por Edeltrudes Fernandes Costa, ocorrida em 2018. Ao gabinete presidencial, Carlos Mouzinho que se encontrava baseado em Lisboa, deu tona sobre o seu estado de saúde nos últimos anos na qual planeava deslocar-se a um país asiático para assistência médica mais avançada.

 

De acordo com novos regulamentos internos, os diretores do Protocolo do Estado da Presidência tem a categoria de embaixadores. Não há informação de que no período de reaproximação ao gabinete presidencial, Carlos Mouzinho tenha regularizado a sua situação de forma a beneficiar de uma reforma em conformidade com o cargo que desempenhou no aparelho de Estado.

 

No sábado, 10 de Julho, José Carlos Mouzinho foi anunciando por familiares como tendo falecido em Lisboa. As causas da morte não foram mencionadas.

 



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