Lisboa - Otelo Saraiva de Carvalho, capitão de Abril, morreu este domingo aos 84 anos, no Hospital Militar de Lisboa. A notícia foi avançada pela rádio TSF e confirmada à agência Lusa pelo presidente da Associação 25 de Abril, Vasco Lourenço.

Fonte: Publico

Otelo Saraiva de Carvalho nasceu em Moçambique, na antiga cidade de Lourenço Marques, em 1936. Foi capitão em Angola entre 1961 a 1963 e na Guiné entre 1970 e 1973.

 

Foi o responsável pelo sector operacional da Comissão Coordenadora do MFA (Movimento das Forças Armadas), o movimento militar que pôs fim à ditadura do Estado Novo. Elaborou o plano geral de operações militares do 25 de Abril (com o título “Viragem Histórica") e combinou com jornalistas dos Emissores Associados de Lisboa e da Renascença as canções-senha (primeiro “E de Depois do Adeus”, de Paulo de Carvalho e depois “Grandola Vila Morena") que dariam o sinal para o arranque das operações. 


Na madrugada de 25 de Abril, dirigiu as acções do golpe a partir do posto de comando instalado no Quartel da Pontinha, em Lisboa. 

 

Graduado em brigadeiro, chegou a comandante da COPCON (Comando Operacional do Continente, um comando militar criado pelo MFA) a 23 de Junho de 1975, tendo sido afastado do cargo após o 25 de Novembro de 1975. Nessa altura, quando dirigiu o COPCON, Otelo tinha um “poder legal e imenso”, segundo a biografia “Otelo, o Revolucionário”, de Paulo Moura, ex-jornalista do PÚBLICO.

 

Conotado com a ala mais radical do MFA, Saraiva de Carvalho foi preso na sequência dos acontecimentos do 25 de Novembro e solto três meses mais tarde, tendo sido candidato às eleições presidenciais de 1976 e às de 1980, em que ganhou o general Ramalho Eanes. Nesse mesmo ano fundou o partido Força de Unidade Popular (FUP), um partido na área do “socialismo participado" e que foi extinto em 2004. 

 

Em 1985, Otelo foi preso pelo seu papel na liderança das FP-25 de Abril, uma organização terrorista de extrema-esquerda, que operou em Portugal entre 1980 e 1987, e à qual foi imputada a autoria de 13 mortes e de dezenas de atentados. 

 

Foi libertado cinco anos mais tarde, após ter apresentado recurso da sentença condenatória, ficando a aguardar julgamento em liberdade provisória. 


Em Junho de 1991, o Parlamento aprovou uma lei de amnistia, promulgada pelo então Presidente da República Mário Soares, mas que não abrangia os acusados de actos de terrorismo. Em 1996 foi aprovada uma lei que amnistiava “as infracções de motivação política cometidas entre 27 de Julho de 1976 e 21 de Junho de 1991”, mas não abrangia os crimes de sangue. O julgamento dos crimes de sangue, em que Otelo também foi acusado a par de outros 70 réus, iniciou-se em 1991 e durou 10 anos. O colectivo de juízes reconheceu que os crimes existiram mas não conseguiu identificar os autores dos crimes concretos.

 

Em 2014, o estratega do 25 de Abril encontrou (pela primeira vez) e cumprimentou Ana Maria Caetano, a filha de Marcelo Caetano, o presidente do Conselho deposto pela revolução dos cravos, numa conferência na Gulbenkian. 


Na biografia de Paulo Moura, Otelo assume a sua bigamia. “Aparece em público com elas, não mente a nenhuma, trata-as por igual. Também nisso é organizado. De segunda a quinta vive numa casa; sexta, sábado e domingo passa-os na outra”, lê-se na introdução do livro.

 

Em Março de 2020, segundo a revista Visão, esteve treze dias hospitalizado devido a uma insuficiência cardíaca.

 

Nas primeiras reacções à morte de Otelo, recorda-se “o homem do 25 de Abril” mas também a “uma figura controversa”. Manuel Alegre, histórico socialista e amigo do revolucionário, fala num “grande símbolo do 25 de Abril”. O Governo sublinha o seu contributo para o derrube da ditadura.



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