Luanda - Pensando profundamente na minha condição ontológica, de ser preso à minha incapacidade ou refém da minha circunstância, tomei o meu lugar na procissão para o abismo, cheio do descaso, cheio de indiferença pelo irmão do lado, passando por instituições a exalarem um aroma de podridão mesclado com lavanda que não ilude, e muito menos esconde, as péssimas condições de trabalho ou o péssimo ambiente institucional, e que revela o odor nauseabundo e repugnante da ausência de carácter de quem finge que as dirige, fingindo-se diligentemente preocupado com miss Escola Pública, o major Saúde Pública ou a coronel saneamento básico.

Fonte: Facebook

Na procissão, vou pensando que lá, no lugar do sucesso, os espectadores hipnotizados aguardam, desde sempre, em bairros de lata, chapa, pau-a-pique ou cubatas e cubículos. Confusos, não sabem o que se sabe ou tem raiva de quem sabe.


E a “procissão” ainda vai ao adro e eu, e todos os que aqui estão ao meu lado, os intelectuais, académicos, cientistas, fazedores de opinião, gestores públicos e privados, vamos entoados ladainhas de “vais gostar”, “já está”, “not”, “yes”, enquanto seguimos o “padre” e os (novos) “santos” sem questionarmos o caminho, sem discutirmos profuda e detidamente o essencial.


Pedem-nos humildade e trabalho, “actos de contricção” que são deles e não nossos. Mas, mesmo assim, cá vamos nós, e porque queremos que nos levem a sério discutimos, nos intervalos das ladainhas e em tom baixo – afinal vamos em procissão -, que o país não vai bem, que algo de muito mal está a aconteceu ao país, que o país está eternamente adiado, e, passo a passo, não passamos disto. Não vamos mais longe do que isto, ou porque não vale a pena ou porque não convém.


E juntam-se a nós, na “procissão”, defuntos renascidos das cinzas dispostos a alcançarem um novo zénite. Entre os exonerados de ontem e os nomeados de hoje e que podem ser exonerados amanhã sem que o consigam entender, e nós também não, porque o foram, porque dispõe deles a gosto.


E de repente, e por culpa nossa, fazemos parte de uma longa procissão de títeres, manipulados por fios invisíveis, eles e nós, presos na nossa incapacidade, reféns da nossa circunstância.


E eu e eles somos tantos, e ainda assim incapazes. Caminhamos lado a lado com nomeados por (alegada) competência para lugares estratégicos para, logo a seguir, serem perseguidos e exonerados por quem os nomeou por (alegada) incompetência. Entre os dispensados de ontem e reconvocados de hoje e os convocados dispensados, não há espaço para os que poderiam ser elogiados ou felicitados. E caminhamos envergonhados - os que temos consciência da nossa covardia.


Excelência para aqui, excelência para ali, e fingimos que com boas maneiras podemos prosseguir com as más práticas, tendo, ainda assim, malícia para discutir os defeitos alheios, sempre, sempre os defeitos alheios, os nossos? Esses fingimos que não existem, sabe bem, pois o estomago é mui ingrato…


No jogo entram os “guardiões da lei” e os “aplicadores da lei”, em grandes e promíscuos banquetes para engendrarem o combate aos banqueteadores de ontem. E tudo vale. Vale enterrar a Constituição e a lei. Vale dar ordens e orientações idênticas aos esquemas que estão a combater. Vale movimentar quem ouse obedecer à sua consciência e à lei, vale a ameaça, a “mbaya judicial”…


Continuamos em procissão, passamos por entre os dedos o “terço” da revisão pontual de uma atípica Constituição. Dos nossos lábios sai o coro sem alma de uma “Avé Maria” enquanto remoemos o negócio Público que se tornou Privado dos mil e um testes de uma certa pandilha que manda para baixo do tapete os itens mais brilhantes da nossa terra, aquilo deveria merecer o slogan que um compatriota de feliz memória eternizou quando dizia: “é nacional, é bom e eu gosto”.


E aqui estamos nós, em procissão, a pensar no sorriso apatetado que fazemos quando temos à nossa frente as top models Fome e Malária, que dão as boas-vindas a todos quantos chegam ao Aeroporto das Catanas.


E eu com eles caminhamos nesta procissão de vivos semelhantes a mortos, até que tenho uma “epifania”, e vejo a arte do Piçarra, o Génio ser pisoteada para ninguém ver – como se ele não fosse estrondosamente visível -, e também um servo dos heróis da fotografia a mandar desligar uma “keta” do Paulo….


A procissão prossegue, passa por instituições públicas e entidades do Estado a falarem em nome particular ou ao serviço de uns em detrimentos de outros.


E lembro-me daquele velho vietnamita que transportava todos os dias dois baldes de água, presos a uma vara, para regar o arrozal. O da direita chegava quase cheio, o da esquerda, menos de meio, tinha um buraco no fundo e a água escapava por ali, mas o velho vietnamita, que não faz parte da nossa procissão, insistia em não substituir o balde. E assim continuou, dias e dias, semanas e semanas, até que ao fim de um ano, tudo se esclareceu: do lado direito do caminho só havia aridez e pedras, do lado esquerdo, crescia um morangueiro, flores e as borboletas andavam por ali.


Penso que ao contrário do velho vietnamita, o enorme balde roto que é o meu país, que, e tal como eu, parece incapaz de fazer nascer o que quer que seja no seu caminho.


E a nossa procissão continua... rumo ao abismo.

 



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