Lisboa - Celebremos o Dia da Mulher Africana, mas não nos enganemos: nós que somos mulheres e que somos negras, não estamos na última carruagem, simplesmente sequer viajamos.

Fonte: Publico


Escrevo para assinalar a efeméride, hoje é Dia da Mulher Africana. A data, sem surpresas, passa ao lado das restantes efemérides como a do Dia Internacional da Mulher, o Dia da Mãe, do Pai ou o mais recente Dia dos Avós, datas queridas e em que, numas mais, noutras menos, todos encontramos razoabilidade suficiente para serem motivo de destaque e de comemoração. Não vou abrir uma frente de batalha nem questionar o óbvio, isto é, por que motivo muito provavelmente mais de 70% das pessoas que, acidentalmente ou por curiosidade engenhosa, estão a ler esta crónica desconhecem que ao calendário romano houve quem já incluísse o Dia da Mulher Africana nas efemérides a ter em conta. Foi na Tanzânia, em 1962, durante a Conferência das Mulheres Africanas que, paralelamente à criação da Organização Pan-Africana das Mulheres, esta data foi instituída e a partir de então, paulatinamente pelos Países Africanos e depois pela Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos, sendo reclamada por um ideal Pan-Africano.


Podia escolher a via, legítima, de entrar pelos movimentos independentistas e africanistas para defender cronicando uma data longe de ser memória comum, e assim mais rapidamente chegaria a uma outra data que vem ganhando alistadas, a que celebra o Dia da Mulher Negra, mas decidi que, sendo mulher e negra, não haveria de entrar por uma luta que é minha para retesar algo processualmente parcimonioso: que sim, que estamos abaixo da superfície da pirâmide, que sim, que sequer somos a base da mesma, que é óbvio, o reconhecimento da mulher negra é de tal forma uma miragem que é impossível afirmar que somos estrutura de um qualquer sistema ou sociedade. Não somos. A posteriori não o somos, uma vez que a sociedade, enquanto lugar de cruzamentos, não postula o nosso reconhecimento. A priori torna-se ainda mais clara a negação do evidente, mantemo-nos a séculos luz de ser parte da estrutura e prova-o toda uma academia que enquanto casa do saber e pensamento é distópica no que ao estudo da mulher negra diz respeito. Não discursa, não teoriza e muito menos produz conhecimento livresco sobre a nossa existência, a existência da mulher negra e as suas dialécticas. Assim sendo, da soma das partes é razoável concluir que o lugar que não ocupamos na sociedade é prova de que serão precisos séculos; sim séculos, nem anos, nem décadas, séculos para que as mulheres negras sejam reconhecidas, primeiro pelas outras mulheres, e não o são; depois pela sociedade onde se integram, mas que objectivamente não nos/as integra, anulando assim a possibilidade de emancipação e de criação de um discurso sobre.

Escolho a terceira via. A via de incluir no grupo de que faço parte as mulheres negras que são brancas, isto é, assumir que a negação da minha existência pode encontrar acessibilidades em grupos de mulheres que transportam no seu ADN outros negacionismos que não exclusivamente o de género
Ora se digo isto, qual será então a via que escolho para me legitimar? Eu que sou mulher e que sou negra e que não quero permanecer emudecida nas margens? A terceira via. A via de incluir no grupo de que faço parte as mulheres negras que são brancas, isto é, assumir que a negação da minha existência pode encontrar acessibilidades em grupos de mulheres que transportam no seu ADN outros negacionismos que não exclusivamente o de género. Quais? As que têm pertenças territoriais africanas, américo-latinas, caribenhas, de tal forma incluídas que não são assimiladas pelos valores que ditam o que é discurso e o que não é discurso, isto é, os valores de matriz greco-romana ocidental.

Há umas semanas atrás este jornal mostrou-nos, na capa do caderno Ípsilon, a via para a humanização da mulher negra quando colocou na capa a actriz Betty Faria, legitimando-a num discurso que é o único que nos pode legitimar a nós, mulheres negras. Não é um discurso de círculo fechado, à semelhança do que fez correr tinta à volta das adaptabilidades para traduzir Amanda Gorman, que legitimará a luta das mulheres negras pela sua proclamação identitária, mas antes a elevação do discurso de outras mulheres igualmente não legitimadas, como Betty Faria. Será esta a pedra de toque da nossa luta, é por esta via que poderemos engrossar o movimento iniciado em 1962 na Tanzânia e que, amanhã, fará a comunidade europeia, ocidental, de norte, letrada, caucasiana etc., a confrontar-se com o espanto e a obrigar-se a reproduzir em larga escala núcleos de pensamento sobre o espaço da mulher negra e a sua necessária emancipação, afirmação de direitos e igualdade de oportunidades. Não nos enganemos: nós que somos mulheres e que somos negras, não estamos na última carruagem, simplesmente sequer viajamos.

Se tenho esta certeza, ela resulta também do espanto que me foi introduzido por uma mulher africana, caucasiana, com uma coroa loira, sentada no desconforto de uma sociedade europeia que, tendo-a incluindo, não a assimilou.

Não comece já a atirar pedras na convicção de que me acossa o sentimento de inferioridade, que não me descobri, que ando perdida, não sei quem sou, estou fora da matilha. Não venha a correr, de modo simplista e simplório, dizer que eu não me assumo, que quero ser aceite, que não estou na frente de guerra, que não armo trincheiras porque essa é a fórmula menos inteligente de me catalogar. É batido o argumento “é burra, complexada!” O que custa verdadeiramente é andar de lanterna na mão a fazer soar “eu procuro o homem!”

Espantei-me com a forma como aquela maravilhosa moçambicana de olhos azuis, coroa loira, magra, pequenina, sorriso tímido e voz pouca, foi-me apontando o dedo: “Eu sou de Moçambique, não sou daqui. Os meus pais e os meus avós nasceram em Moçambique. Os meus pais vieram para Portugal e aos 18 anos tive de optar. Ou era de Portugal ou deixava de ser de Moçambique. E eu… O que é que faz uma pessoa aos 18 anos perante uma opção daquelas?


Como escrevia, no final de Junho espantei-me com a forma como aquela maravilhosa moçambicana de olhos azuis, coroa loira, magra, pequenina, sorriso tímido e voz pouca, foi-me apontando o dedo: “Eu sou de Moçambique, não sou daqui. Os meus pais e os meus avós nasceram em Moçambique. Os meus pais vieram para Portugal e aos 18 anos tive de optar. Ou era de Portugal ou deixava de ser de Moçambique. E eu… O que é que faz uma pessoa aos 18 anos perante uma opção daquelas? O que me custa é ir a Moçambique e ficar na fila dos estrangeiros. Porque até hoje não me deram a dupla nacionalidade. Não é por mais nada. Não quero o passaporte de Moçambique para fazer negócios, nem comprar terras. Custa saber que o meu umbigo nasceu ali, mas que não tenho direito à minha nacionalidade. Quando era pequena dizia que tinha nascido em Nampula. As senhoras mais velhas logo faziam sinais entre si. Cuba, Cuba, no Alentejo. Ela nasceu em Cuba. Não liguem, é criança. E eu pensava, deixem-se estar no vosso chá, continuem a profetizar os vossos dogmas, essa religião não é a minha. Eu sou ex-trans-eira. O meu umbigo está ali.”

Caí no espanto. Estava preparada para tudo menos para aquilo. Lembrei-me das vezes que ouvi aquela mesma história contada do lado de cá. Pelos homens e mulheres negras como eu que, por uma Lei da Nacionalidade feita de forma completamente arbitrária, tinham sido expatriados e despejados num território que a maioria jamais havia pisado. Dezoito anos feitos e foram expulsos de Portugal, mala na mão “e agora encarem, mesmo que pela primeira vez, essa terra que é a vossa. Recebam este passaporte, isto é uma obrigação. Tu aí, o teu lugar é ali, pega nas tuas coisas e volta para a tua terra.”

Mesmo sabendo nós que o começo se faz pelo princípio, continuamos às voltas à procura do meio. E como a história é cíclica, Portugal confronta-se hoje com o que eu e outras nos vimos confrontadas tantas vezes, a pergunta de sempre que continua sem resposta “onde estão os negros na sociedade?”
Já antes daquele dia 25 de Junho havia escutado uma mesma voz estremecida num outro olhar, também ele por vezes frágil, outrora terei cruzado com um mesmo sorriso sem cheiro a alegria que eu pensava ser um exclusivo nosso, dos negros como eu que me relatavam histórias de um Portugal injusto e cruel. O espanto só era novo na cor da pele. A Ana fez-me pensar na Namalimba ao afirmar-se entre a ternura e a inconformação: “A Africana sou eu, eu nasci em Angola. O Francisco nasceu na Amadora, mas é ele a quem perguntam de África”. A Namalimba é outra rainha do Sul, orgulhosa na sua coroa loira. O Francisco é negro, como eu. Rainha de copas e Rei de espadas. Mesmo sabendo nós que o começo se faz pelo princípio, continuamos às voltas à procura do meio. E como a história é cíclica, Portugal confronta-se hoje com o que eu e outras nos vimos confrontadas tantas vezes, a pergunta de sempre que continua sem resposta “onde estão os negros na sociedade?” De tempos a tempos é isso, a pergunta reemerge e logo vêm os negros puristas a dizer que eles são quem está na fila cimeira da trincheira; seguem-se os mestiços numa autodescoberta puritana que passa sempre pela exibição e nisso vão soltando um “porque não vais para a fila da frente da trincheira?” Isto porque o canguru para aparecer tem sempre de mostrar que salta alto. Juntam-se os tacticistas empurrando os outros para a fila de trás ao mesmo tempo que furam a fila da frente, pensando “talvez seja desta que ganho o lugar no pódio da trincheira” e eu sigo em fuga para a memória de uma jovem criança em Malanje.


Naquele ano eu viajava em pesquisas para um projecto da minha empresa – se fosse hoje, quem sabe alguém se lembrasse de mim como Black Business Owner, mas eu ando a contrarrelógio e a chegada da sociedade “racializada” entendeu ter o direito de me retirar os meus poucos direitos, incluindo o de reclamar memória – quando cheguei à Comuna do Kota, lugar onde vivia um dos fundadores dos Marimbeiros do Duque de Bragança – que como eu também já viu tempos de glória a lhe serem roubados pela sociedade do “quem gritar primeiro apanha a oportunidade”. O Marimbeiro, mais-velho na Comuna, interrompeu a sua crónica para dar assento ao neto e à tradicional marimba. Juntos transpiraram aquele dia quente de fim de cacimbo com o som que saía daquele tão mágico instrumento. Uma jovem, pequena, de corpo frágil, aproximando-se da crónica já depois do seu preâmbulo começou a dançar; de imediato o director da Comuna se aproximou dos meus ouvidos para explicar que era de praxe oferecer algo à mais nova, escolhida entre as mulheres da Comuna para dançar. Fi-lo. Ela granjeou as outras mulheres baterem palmas. Olhavam para mim de forma cúmplice, bondosa e sorriam. Há dois meses que viajava por Angola, naquele dia percorria a terra que viu nascer o meu pai e, estranhamente, aquela foi a primeira vez em que me senti fora da minha zona de conforto. A noite chegou anunciada pelo laranja do céu e eu não dormi. Atacaram-se-me os intestinos, subiu-me a febre, remoeu-me a cama. O meu corpo vivia mais de água do que de horas de sono quando, no dia que se seguiu àquela redescoberta viagem, me acordaram com a notícia de que o regresso seria de jipe, o voo Malanje-Luanda tinha sido cancelado. Na picada por terras Kimbundu, parámos encostando o jipe para o estômago receber funge de carne seca num local onde a degustação se fazia céu aberto. Perguntei à cozinheira se tinha casa de banho. Receou primeiro, respondeu depois “Lá atrás, mas não tem para coisas grandes”. Voltei a sentar-me e o motorista logo na pergunta: “Acordou indisposta? Era o seu pai a dar boas-vindas”. Até hoje falham muitas dúvidas se terá sido mesmo o meu pai ou se tudo não passou de obra delas, daquelas mulheres de risos cúmplices que juntas elegeram, sem que nenhuma mostrasse rivalizar com as outras, quem iria dançar, quem iria receber o ofertório.

Tinha de contar esta história, pois de outra forma não vos teria conseguido explicar a importância de se comemorar o Dia da Mulher Africana.



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