Lubango - Tenho estado a lutar tenazmente a não me pronunciar para, em nome do meu chamado ministerial, não confundir os incautos e neófitos. Mas a consciência cidadã, o futuro eternamente adiado dos meus netos (ontem dizia ‘dos meus filhos’, anteontem dizia ‘o meu’ e receio amanhã ter que dizer ‘dos meus bisnetos’), a coerência da fé que professo e divulgo baseado no evangelho integral da graça me obrigam abrir a boca antes que a providência a feche de vez.

Fonte: Club-k.net

A missão do sacerdote é servir a Deus. Contudo só se serve a Deus servindo aos homens criados à imagem e semelhança divina. Então a missão do sacerdote é inequivocamente anunciar uma fé libertadora que vise levar todos humanos a abandonar o pecado, a valorizar o céu e a vida eterna, mas também a viverem com dignidade e equidade na terra, embora peregrinos aqui.


A missão do sacerdote é também profética, confrontando e denunciando o pecado em todas as suas formas e manifestações (individual, social, estrutural ou ambiental).


Em suma, a missão do sacerdote é discipular o cristão para que este personifique o reino de Deus aqui em toda a sua plenitude íntegra e coerentemente.

 

O evangelho do reino promove a paz espiritual e social. Não há paz sem justiça!

Entretanto, denunciar o pecado do rei pode ser suicídio a exemplo do profeta Jeremias, João Baptista, Martin Luther King, só para citar alguns mártires da fé. Deus é soberano e pode nos livrar da boca do leão; livrar na boca do leão; ou simplesmente nos promover à glória, o que é infinitamente melhor. ‘Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?’


A missão do rei e do estado é servir o país (não servir-se dele nem ser servido por ele) visando o bem-estar político, social e espiritual do cidadão independentemente da sua crença, raça ou cor partidária; visionando um desenvolvimento que dê um legado de justiça e equidade às novas gerações.


Estou preocupado com a promiscuidade entre o rei e o sacerdote. Temos cada vez mais sacerdotes que se deixam instrumentalizar ou se contaminam com ‘a comida e com o vinho do rei’ deixando a sua missão amordaçada.


Já dizia alguém que para os políticos você é instrumento ou inimigo. Não quero ser inimigo (a escolha não é minha) mas não me presto a ser instrumento (a escolha é minha)!


Estou preocupado com os caminhos da nossa diplomacia que se rende aos interesses materiais dos poderosos e por não apoiarem o angolano impedido de ou perseguido por praticar da sua fé em alguns países confessionais (islâmicos) e fingir cegueira diante do expansionismo de ideologias extremistas e perniciosas, ‘ignorando’ a sua agenda em nome de uma laicidade parcial, profana subordinada a interesses inconfessos.


É como criar um filhote de leão e não pensar que no dia da fome ele será leal à sua natureza e você será a refeição; ou ter uma víbora por animal de estimação sem ter em conta a letalidade de sua picada. Quem não aprende com a história…


Estou preocupado com a degradação sociopolítica e económica do país, num clima em que os preços sobem de elevador e o cidadão, já mutilado, é obrigado a acompanha-los pela escada. Diz o velho adágio que “é nas águas turvas que se pega o bom bagre”. Será que existe algum pescador a turvar as águas?


A guerra pós independência foi o turvar das águas pelos partidos políticos e pela comunidade internacional.


As guerras eleitorais e pós eleitorais são o turvar das águas pelos beligerantes que não olham para meios para alcançarem seus objectivos. ‘O povo é a razão (?) e a vítima destas lutas!


Também é turvar as águas o afastamento ‘legal’ do cenário político de todos os potenciais candidatos sérios, o que compromete a democracia no país. O ‘afastamento do cenário legal’ dos que defendem a independência dos poderes compromete o equilíbrio destes.


Também é turvar as águas a instrumentalização e manipulação dos órgãos de informação que a serviço dos políticos diabolizam e descredibilizam todos os adversários que o regime não consegue amordaçar. Isto compromete a sua isenção e consequentemente a liberdade a todos os níveis.


O cenário eleitoral que se criou em que o deputado ‘cabeça de lista’ é o Presidente da República subordina o legislativo ao executivo e confunde a missão dos dois. Ter magistrados que têm a história de uma militância partidária fanática (doutrinados a ser cegamente leais a um partido) compromete a isenção e a imparcialidade da justiça.


Ao permitir que o Presidente da República possa ser concomitantemente presidente de um partido político partidariza o estado, divide os cidadãos e compromete a lealdade de todos os cidadãos na construção uma nação una. Dificulta entender se ele fala nas vestes de presidente da nação ou nas de presidente de seu partido.


Um dos princípios da economia é que o dinheiro não se perde. Sempre que ele some do teu bolso entra no bolso de outro. Há quem esteja ou tenha enchido os bolsos à custa da miséria do povo. É um ‘assalto’ feito legalmente permitir uma desvalorização imoral do salário do trabalhador, enquanto alguns ostentam insanamente e para ludibriar o povo se apresenta um ‘boi de piranha’, digo, um Lussati.


A sobreposição ou substituição da competência pela militância, a ocupação de posições por causa dos privilégios e do prestígio que elas oferecem e não pelo serviço exigido, desvirtua e descaracteriza o esprito de sacrifício tanto na política quanto na religião. Afinal quem não serve não serve!


Numa situação normal, num país normal apelaria à prerrogativa constitucional de o povo se manifestar pacificamente para comunicar aos governantes a sua insatisfação e para pressioná-los a cumprir com as promessas de campanha. Entretanto, ao longo dos anos, aprendi que se assim se fizer, a inescrupulosidade do sistema não hesitará em infiltrar agitadores que provoquem violência para justificar uma repressão ainda mais atroz.


Não acredito na santidade da oposição mas acredito que a alternância seria um mal melhor e reduziria sobremaneira a acomodação e os vícios criados pelo excesso de tempo na governação, além de melhorar em muito o actual estado calamitoso. O voto justo e consciente lembraria aos político que o povo que os mandata também pode-lhes retirar o mandato pela mesma via se não lhes serve.


Há quem advogue a criação de um partido cristão mas esta não é a vocação do Evangelho. Acho que foi por isso que Deus chamou Moisés para liderança política e Arão para o sacerdócio.


A história bíblica mostra que Deus sempre agiu assim. Saul-rei e Elias-profeta, David-rei e Natã-profeta etc. Não que ser rei signifique ser profano ou ser sacerdote signifique necessariamente ser santo.


A historia também tem demostrado que quase todos os sacerdotes que trocaram o templo pelo palácio acabaram fazendo igual ou pior do que os impios, salvo raras e louváveis excepções.


Pronto, desabafei mesmo que não me saia barato! Sei que muitas vezes a semente da fé só floresceu regada com o sangue dos mártires. Também sei que nem mesmo um fio de cabelo cai de nossa cabeça sem a permissão de Deus.


Que Deus nos ajude e dê discernimento; que Deus tenha misericórdia desta nação; que Deus nos dê governantes íntegros e justos; que Deus nos dê sacerdotes servos e tementes; que Deus restaure e avive a sua Igreja!



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