Paris - Muitos ficaram tentados a juntar-se ao acalorado debate sobre a escolha de Marieke Lucas Rijneveld, uma autora branca de 30 anos, pela editora Meulenhoff, para traduzir o poema inaugural de Amanda Gorman, The Hill We Climb, para o holandês. Este debate mostrou-nos mais uma vez como estamos mal preparados para corrigir as desigualdades que criamos entre os humanos. Embora muitas editoras literárias ocidentais tenham aderido ao movimento Black Lives Matter, na fase mais lucrativa para o seu marketing, especialmente no ano passado, para dizer, particularmente nas redes sociais, o quão anti-racistas elas eram, na Holanda rapidamente mostraram a sua verdadeira face na hora de dar provas concretas das suas convicções exibidas. Neste país onde a invisibilização dos Negros segue a mesma lógica da supremacia branca como na maioria dos países ocidentais, a ideia de escolher um talento negro para traduzir este poema revelador do nosso tempo não poderia vir naturalmente à mente. Lembra-nos isso que o não reconhecimento do racismo sistémico durará e que o negaremos por muito tempo ainda. A atitude da editora holandesa também negou o contexto político e cultural em que se fez o seu negócio literário, contando apenas a realidade económica e a busca do lucro e não as ‘Vidas Negras’. A editora também esqueceu que fez a sua escolha num contexto em que o racismo sistémico contra vozes holandesas negras era amplamente criticado nessa época e que tinha que fazer a sua escolha de acordo com a urgência do seu tempo. Não, optou por não querer compreender que era para ela a ocasião de se perguntar se quem traduz quem em que contexto era importante, não queria admitir que a tradução está inexoravelmente marcada pela experiência de vida do tradutor, já que inevitavelmente ocorre num contexto histórico, político e cultural específico para aquela pessoa. Portanto, embora Marieke Lucas Rijneveld tenha renunciado alguns dias após o início do debate, a sua escolha, a de uma vencedora do Prémio Booker Internacional, foi motivada principalmente pelo lucro. A edição é uma indústria onde a solidariedade não é prioridade nas escolhas económicas.

Fonte: Club-k.net

E embora Marieke Lucas Rijneveld não tenha experiência em tradução literária, o conhecimento da profissão de tradutor é importante, mas nem sempre suficiente. Como a poesia de Amanda Gorman se enquadra numa categoria em que o contexto político é tão importante, ela ofereceu-nos a oportunidade de quebrar o privilégio das vozes dominantes para criar um espaço de inclusão para as vozes que silenciamos. Não podemos dissociar The Hill We Climb do contexto político do trumpismo, da morte de George Floyd e do movimento Black Lives Matter. O mundo inteiro manifestou-se contra a violência policial e o racismo sistémico. É justamente esse contexto que deu origem a todas as traduções da obra de Amanda Gorman. Estamos, portanto, num ponto da história em que a questão da representatividade deve predominar. E como a poesia de Gorman também vem da tradição da spoken word (recitação), que oferece um conjunto de diferentes desafios de tradução, ela precisa de alguém que conheça os códigos dessa poesia cénica, alguém que saiba ir além do conhecimento da profissão de tradutor, para lhe dar vida no papel. Este é um aspecto fundamental da tradução. Traduzir The Hill We Climb requer mais do que uma escrita bonita ou um prémio literário. Traduzir The Hill We Climb é sentir as suas palavras no coração, na alma e no corpo.


A verdade é que há uma falta de diversidade no campo da tradução nas línguas ocidentais. Por exemplo, quem conhece um intérprete ou tradutor negro para o português? Eu não conheço, e muito menos um tradutor literário. E quando quis especializar-me na área, quando estava no terceiro ano da Sorbonne em 2001, a União Europeia, sob a liderança de Tony Blair, quis obrigar os tradutores a traduzir apenas para a sua língua materna. O meu francês e o meu inglês ficariam então inutilizáveis, pois, basicamente, só me restaria o português, uma bela língua de um pequeno espaço racista e sem mercado em que iria lutar com portugueses e brasileiros - brancos - que já não tinham eles próprios oportunidades de trabalho suficientes nas organizações internacionais que todos almejávamos. Então tive que estudar outra coisa depois dessa formação. O problema é mais uma vez a representação, mas também a acessibilidade, ou seja, o poder. Quem tem o direito de contar quais histórias e como é importante, bem como quem as traduz para quem e em que contexto. Mas existem várias vozes negras talentosas nas principais línguas-alvo das traduções, só é preciso querer procurá-las quando surgir a oportunidade de publicar um livro que trate da experiência negra. Não o fazemos porque sabemos que a literatura é política, a poesia é política, a tradução é política. Preferimos o status quo para que o sistema dominante continue a sufocar as experiências não-brancas. É um desejo de manter a invisibilização sistémica das vozes não brancas numa indústria que não faz nenhum esforço para implementar práticas de tradução literária inclusivas e diversificadas.


Mesmo assim, o debate teve o mérito de evidenciar a falta de diversidade no mundo do livro, principalmente entre editores, tradutores, livreiros e representantes. Colocou uma pressão positiva sobre ele que está a começar a quebrar o congelado mundo editorial. Na França, Fayard escolheu a artista belga de origem congolesa, Lous and the Yakuza, que não é tradutora e que é uma escolha que não me agrada muito. Mas essa escolha responde a outros imperativos e envia uma mensagem aos leitores e poetas, escritores e artistas negros de que as suas ‘vozes contam’. Na Espanha, o tradutor e escritor Victor Obiols, que já havia concluído a sua tradução de The Hill We Climb, foi demitido pela sua editora Univers e o seu trabalho não será publicado. E estou extremamente feliz que em Portugal, um país fundamentalmente racista, tenham escolhido Carla Fernandes, que felicitei calorosa e efusivamente, uma jornalista de origem angolana, que já trata dos assuntos do universo do poema. Vou ler com gosto essas traduções que serão feitas por vozes diferentes.

 

Ricardo Vita é Pan-africanista, afro-optimista radicado em Paris, França. É colunista do diário Público (Portugal), cofundador do instituto République et Diversité que promove a diversidade em França e é empresário.

 

 



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