Luanda - Durante o conflito armado que terminou com a Assinatura da Paz em Bicesse, Portugal, em 1991, as Forças Armadas Populares de Libertação de Angola, FAPLA, comandadas pelo seu Comandante-Em-Chefe, Eng.º José Eduardo dos Santos, lançavam sucessivas ofensivas que visavam a tomada do Bastião da Resistência da UNITA, Jamba.

Fonte: Club-k.net

As campanhas ocorriam, geralmente, na época de cacimbo (de Maio a Agosto de cada ano) em virtude das dificuldades que a época chuvosa trazia consigo (de Setembro a Maio), particularmente com a necessária movimentação de meios logísticos e de guerra, geralmente muito pesados. Segundo peritos de guerra, a época de cacimbo era a mais apropriada para as actividades militares que envolvessem grandes concentrações de Soldados, viaturas de logística, assim como os também mui pesados Carros Blindados, Tanques de Guerra, e ainda os Helicópteros, Caças Bombardeiros, etc.


Para contrapor, as Forças Armadas de Libertação de Angola, FALA, e o seu Alto Comandante, o General de Exército, Dr. Jonas Malheiro Savimbi, político e estratega de craveira internacional, tinham de estar em alerta máximo nessas fases do ano. Para tal, concentravam as suas melhores unidades nas prováveis rotas de progressão das FAPLA. Era um exercício que se repetia todos os anos, principalmente, desde 1985 a 1990.


Fazendo uma análise sem nenhum rigor militar, de alguém, como eu, que vivia de longe a verdadeira guerra, embora vivendo activamente a guerra de forma indirecta, tinha a percepção de que os combates mais violentos tiveram lugar na província de Cuando Cubango, na região do Mavinga, nas áreas da nascente do rio Lomba, do rio kuzumbia e nas áreas de Tchambinga, – isto quando a iniciativa de avanço fosse das FAPLA. Mas quando fossem as FALA ao ataque, as grandes batalhas tiveram lugar em Kangamba, Kuito Kwanavale e Kazombo e em muitas outras localidades pelo país fora onde as acções de guerrilha se fizeram sentir. Pelo menos foi isso que pudemos perceber dos contos dos soldados, feridos de guerra, de comandantes de unidades e também de prisioneiros das FAPLA que chegavam à Jamba.


Os prisioneiros contavam-nos histórias das cidades: os de Benguela falavam do Lobito e da Catombela; tentavam descrever-nos como era a Restinga e a Colina da Saudade; diziam que o Lobito era mais lindo que Benguela. Os de Luanda falavam dos Bairros Kinaxixi, Sambizanga, Kifangondo. Até havia uma música que eles nos ensinaram, que era, mais ou menos, assim: “ no Domingo, fui a Kifangondo, visitar a prima Mariquinha, no Kifangondo não havia água... a sopa estava boa, com água da lagoa...”. Essa música ficou comigo; quando a paz chegou, fui visitar Kifangondo, e disseram-me que, no tempo de guerra, os comandos especiais das FALA, sob comando do brigadeiro Amílcar Katokessa(de feliz memória), tinham atacado Kifangondo. Dentro de mim, pensei na canção que dizia que no Kifangondo não havia água... Por acaso, era uma canção bonita que os nossos manos nos ensinaram,(nós tratávamos de manos ou tios os prisioneiros de guerra, tal como era praxe tratarmos todos mais velhos de idade, familiares ou não. Para nós eram manos, tios, avôs). Nós mantínhamos com os prisioneiros uma relação muito afável, muitos deles jogavam futebol nas melhores equipas da Jamba, e outros eram nossos professores.


Para além das histórias das cidades, contavam também histórias da guerra, eles falavam à vontade, porque sabiam que nós gostávamos deles e não sabíamos nada da luta. Pelas perguntas que fazíamos, eles viam-nos como curiosos e inocentes, por isso, falavam sem receios do dia em que foram capturados pelas FALA. – Eram várias histórias da guerra e de aventuras contadas pelos prisioneiros e pelos feridos de guerra.


Uma das histórias que os mutilados de guerra gostavam de contar, era aquela em que um soldado, em pleno combate, corre atrás do Tanque T54 das FAPLA, abre a tampa e lança uma granada. Diziam que, pela sua bravura, o soldado foi promovido para tenente.


Outra história era a dos soldados que, tendo a sua unidade caído em um campo de minas, em Cangamba, disponibilizavam-se a passar à frente, para abrir o caminho.


Eram histórias de bravura, sendo verdadeiras ou não, eram as histórias que nos contavam e gostávamos de ouvir. Tais histórias apelavam à coragem e à entrega incondicional à causa pela qual se lutava e se acreditava ser justa. – Os soldados das FAPLA e das FALA, lutando em trincheiras diferentes, cada um acreditava na justeza da sua causa. – Por isso é que, às vezes, fico chateado quando os que deram tudo por Angola são maltratados. Isso dói-me bastante! Punge-me o coração!


Na verdade, a guerra, para nós, crianças, era, apenas, de ouvir dizer. Nós levávamos uma vida normal: íamos à escola, brincávamos, íamos à lenha, treinávamos karaté, jogávamos a bola, ganhávamos campeonatos, jogávamos com equipas de outras áreas, para tal, tínhamos de viajar de Unimog do Kafindo, cerca de 150 km, para chegar a Mita-o-Mbamba ou ao Biongue. Para nós a vida era mesmo normal, porque não conhecíamos outra vida, senão aquela. E tornava-se mais normal ainda porque, desde a sua fundação até à assinatura do acordo de paz de 1991, a Jamba manteve-se sempre no mesmo lugar. Se tanto, sofreu apenas dois ou três ataques aéreos, cujas bombas caíram nos arredores.


Nós não sentimos directamente a guerra, como aqueles que viviam mais para o interior do país, nas chamadas regiões militares, em que uma Base tinha de se movimentar em função da posição das FAPLA. Para sabermos da guerra, perguntávamos aos militares que estavam sempre em movimento de ida e volta para as áreas de combate. Por exemplo, em uma das ofensivas, em 1987, um dos oficiais que nos contava alguns episódios era o Capitão Lito Borges. O tio Lito Borges, grande meio-campista da Estrela Vermelha, geralmente, era a ele que cabia a execução dos livres próximos a grande área. Tinha um pé canhoto muito habilidoso e marcou muitos golos de bola parada. Os seus livres levaram sempre perigo à baliza da Estrela Negra, defendida pelo tio Jessé. Ele também chegou a ser nosso treinador nos juvenis da Estrela Vermelha. E como militar, era capitão da D.G.P.C.OP (Direcção Geral do Pessoal do Comando Operacional). Outras vezes, como já referi, ouvíamos histórias pelos militares FAPLA capturados nas frentes de combate e que chegavam até à Jamba. Mas quem nos dava mesmo pormenores de alguns combates, eram os mutilados de guerra. Eles contavam histórias arrepiantes, muitos deles largavam algumas lágrimas ao falarem do dia em que foram alvejados. As lágrimas não eram pelo facto de perderem a perna ou o braço, eram lágrimas de tristeza por não terem conseguido salvar o companheiro, a quem eles chamavam de “badi”, do inglês buddy, que significa companheiro. – “Buddy yangue wafa!”, em português: o meu companheiro morreu. Falavam da morte dos companheiros com muita dor! E nós ficávamos também contagiados pela emoção, e, rapidamente, ao notarem o nosso estado de tristeza, contavam uma outra história de vitória. A vitória para eles não era apenas a de forçar as FAPLA a recuarem, às vezes, era por terem escapado de um emboscada sem nenhuma baixa. Quando o grupo regressasse intacto, era motivo de muita alegria nas Bases, com direito à Farra (pé de dança), e na Jamba gritava-se, em voz alta, “good news... good news...”.


Voltarei...

Luanda, 09 de Setembro de 2021.
Gerson Prata

 

 



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