Lisboa - Sob os auspícios do Governo português, realizou-se, entre 10 e 15 de Janeiro de 1975, a denominada Cimeira de Alvor, durante a qual foi rubricado um acordo de entendimento entre os três movimentos de Libertação e ficaram definidos os processos e mecanismos que conduziriam a completa autonomia de Angola. O jornal A Província de Angola abriu a sua edição de 16 de Janeiro com o título «INDEPENDÊNCIA A 11 DE NOVEMBRO. Angola governada por angolanos a partir de 31 de Janeiro».


Fonte:  angolainterrogada.blogspot.com/


No último dia de Janeiro tomava posse o Governo de Transição composto por representantes de Portugal e dos três movimentos de libertação (MPLA, UNITA e FNLA).


Ao Governo Português cabia nomear os ministros da Economia, das Obras Públicas, Habitação e Urbanismo e dos Transportes e Comunicações.


O Dr. Vasco Vieira de Almeida foi o homem escolhido para assumir a pasta da Economia. Quatro meses depois da tomada de posse do Governo e perante a acelerada deterioração do ambiente sociopolítico de Angola, ele enviou uma histórica carta ao Governo de Transição de Angola e aos líderes dos Três movimentos.


Eis a carta que prova que mais do que a dura guerra «que nos foi imposta», a má governação, caracterizada essencialmente pela falta de capacidade de gestão economico-administrativa e de uma vontade política madura, consciente e responsável por parte dos nossos dirigentes é a grande responsável pela longa estagnação nosso promissor país:


“Durante breve lapso de tempo após a minha chegada a Angola, julguei possível contribuir para consolidar e reforçar a plataforma de entendimento a que aparentemente se chegara em Alvor. Vejo agora que tal é impossível e entendo dever tomar a atitude que livremente considero mais justa. A hora é tão grave que não é legítimo falar senão com clareza (...)


Estava perfeitamente consciente, como é óbvio, das diferenças ideológicas profundas entre os movimentos, mas tinha a esperança de que- sem que ninguém abdicasse das suas próprias convicções- seria possível encontrarmos em comum fórmulas de actuação que visassem reconquistar para os oprimidos e explorados deste país, a dignidade perdida.


Surgiu-me, como evidente, que numa terra com tão graves injustiças e tão terríveis desigualdades, era necessária uma profunda reforma das estruturas sociais, e que a luta de classes entre os estratos de interesses tão violentamente opostos, constituiria desde o início, um elemento fundamental do processo (...)


Não contava porém com a miopia política daqueles que, não contentes em precipitar o conflito no tempo, provocaram uma luta militar suicida de que a única vítima é o povo que também dizem representar, correndo o risco de aniquilar à partida o projecto pelo qual tantos se bateram e morreram durante catorze anos de luta contra compatriotas meus (...)


A verdade é que neste momento quem abate milhares de velhos, mulheres e crianças em todos os pontos do país, são angolanos. São angolanos também, aqueles que executam irmãos seus, com uma selvajaria indescritível. São ainda angolanos que espalham a fome, o terror, a violência e o pânico em todo o território.


E que fez o governo durante este período? Praticamente nada, excepto revelar a sua absoluta incapacidade e irresponsabilidade. O governo (...) não funciona como corpo organizado. Limita-se por isso a ser a arena estéril de debates intermináveis, onde todos os problemas de administração são cuidadosamente escamoteados. É impossível impor o menor plano de acção, porque cada um pretende ter o seu feudo privativo onde ridiculamente possa dar importância à sua própria imagem.


Uma boa parte dos governantes é totalmente incompetente, mas nem sequer disso tem consciência, perdendo o seu tempo em escaramuças caricatas para obtenção de miniprestígios de fachada. As decisões não se tomam; e quando se tomam não se cumprem. Reina a mais completa indisciplina (...)


Em reflexos primários de nacionalismo mal entendido, destroem-se ingénua ou propositadamente as próprias estruturas vitais do país, com a ideia de que com o que sobra dos escombros será possível reconstruir de novo, sem se pensar nos tremendos custos sociais e nos terríveis sacrifícios e sofrimentos humanos que esse caminho fatalmente impõe, não se atendendo sequer na dramática experiência de outros países de África antes de Angola.


Apelida-se Portugal e o Governo Português (...) de neocolonialistas, quando quem está a preparar o país para novas formas de colonialismo- não certamente português, e bem mais duro ainda- são alguns angolanos pela maneira como actuam (...)


Enquanto estiver neste cargo, que não pedi, cabe-me apontar a prepotência e a incapacidade venham de onde vierem, e tenho o dever único de defender os superiores interesses da Nação Independente que Angola quer ser (...)".

Extraido de: Angola: A Guerra e o Crime, Ed. Formação, s/l 1976, pp. 140-144



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