Lisboa - Isaías Samakuva reocupou o seu lugar como conselheiro da República de Angola. O elogio feito por João Lourenço e o desejo expresso de que tenha voltado “para ficar” são estratégias para potenciar a divisão na UNITA e enfraquecer a oposição.


Fonte: Jornal de Negócios

A pós o Tribunal Constitucional ter considerado ilegal a eleição de Adalberto da Costa Júnior como presidente da UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola), o MPLA (Movimento Popular para a Libertação de Angola) aposta na divisão interna do partido do Galo Negro e numa consequente desintegração da FPU (Frente Patriótica Unida). Este movimento, que junta UNITA, PRA-JA (Partido do Renascimento Angola - Juntos por Angola) e BD (Bloco Democrático) e foi formado para concorrer às eleições gerais de 2022, tem Adalberto da Costa Júnior como figura aglutinadora.

 

Ao forçar um novo ato eleitoral na UNITA, o MPLA acredita que este será marcado por uma forte disputa, circunstância que terá dois efeitos. Por um lado faz com que a UNITA se concentre nos seus problemas internos, por outro, por via da divisão, o movimento do Galo Negro ficará mais enfraquecido enquanto principal partido da oposição. Aliás, neste particular importa sublinhar que a decisão de anular o congresso da UNITA surgiu na sequência de uma queixa apresentada por militantes deste partido.

 

Para já, Isaías Samakuva, que substituiu Adalberto da Costa Júnior como líder da UNITA, evitou uma ação de instrumentalização materializada em dois convites para conceder entrevistas à TPA (Televisão Popular de Angola) e TV Zimbo. Samakuva recusou, na medida em que essa participação poderia ser interpretada como uma forma de aproximação ao MPLA. Todavia, não tem como evitar os rumores de que esteve recentemente reunido com Fernando Miala, diretor do SINSE (Serviços de Inteligência e Segurança do Estado), considerado o cérebro por detrás dos ataques a Adalberto da Costa Júnior.

As duas premissas do MPLA

Em termos formais, o afastamento de Adalberto obrigou também à sua substituição por Isaías Samakuva como conselheiro da República. O líder interino da UNITA tomou posse ontem e João Lourenço não perdeu a oportunidade para tentar semear a discórdia na UNITA. “Foi durante algum tempo já nosso colega no Conselho da República porquanto sabemos o que esperamos de si. Enquanto mais uma vez conselheiro do Presidente da República, espero que desta vez venha para ficar”, declarou o Presidente da República. Nas entrelinhas o que se pode ler é que, por vontade de João Lourenço, Isaías Samakuva deveria continuar esta posição, o que significaria voltar a ser eleito presidente da UNITA.

 

Todavia, este foco na eliminação política de Adalberto da Costa Júnior indicia insegurança da parte do MPLA e tem criado ceticismo junto da comunidade internacional. Prova disso é o facto de as embaixadoras dos Estados Unidos, Nina Maria Fite, e do Reino Unido, Jessica Hand, terem tomado a iniciativa de reunir com representantes da FPU. “A comunidade internacional não podia ficar indiferente às denúncias de alegadas perseguições políticas e de suposta manipulada do sistema judicial pelo poder político, tal como tem vindo a ser denunciado pela indicação. Foi por isso que as duas embaixadoras convocaram os líderes da FPU para ouvirem as suas principais preocupações”, afirmaram ao Novo Jornal fontes ligadas a este processo.

 

À luz das atuais circunstâncias parece claro que João Lourenço e o MPLA jogam em duas premissas para se manterem no poder: a da semearem a confusão entre a oposição, sobretudo no seio da UNITA, e a de considerarem que a recuperação económica irá contribuir para uma reaproximação do eleitorado ao atual Governo.

 

 



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