Luanda - A UNITA, que não vive os melhores dias, esforça-se para desfazer a imagem de descalabro que o partido transmite atualmente. Rafael Savimbi nega: "Não é verdade que o partido esteja a viver uma convulsão interna grave".

*Nádia Issufo
Fonte: DW

Há sinais de convulsões internas no maior partido da oposição, em Angola, impulsionadas por movimentações indesejadas, aparentemente manipuladas a partir de fora.

Rafael Savimbi, deputado da União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), desvaloriza as suspeitas de que a sua formação esteja a caminho do descalabro. E sobre uma lista de supostos traidores da UNITA, que corre nas redes sociais, onde consta o seu nome, o filho do fundador do partido, Jonas Savimbi, nega tudo.

DW África: A UNITA dá sinais de estar a viver uma convulsão interna. O que está o seu partido a fazer para rever isso?

Rafael Savimbi (RS): Não é verdade que o partido esteja a viver uma convulsão interna grave. O que houve foi uma decisão, que consideramos ter sido injusta e inoportuna, do Tribunal Constitucional (TC) de anular o XIII Congresso Ordinário da UNITA. Este é que é o problema. Como consequência disso, há debates e houve reuniões da direção do partido que decidiram pela realização do congresso em dezembro deste ano. Naturalmente que a situação abalou os militantes e as bases. E isso é que tem exigido da nossa parte abordagens políticas e elevação para, com serenidade e unidade, avançarmos rumo ao congresso e normalizarmos a vida interna do partido.

 

DW África: Diz que não há convulsão no seu partido, mas houve uma celeuma aquando da nomeação do secretário do vosso partido para Cacuaco, por parte do novo secretário provincial em Luanda, supostamente da confiança de Isaías Samakuva. Este é mais um indício de que, de facto, as coisas não vão bem no partido...


RS: Estamos a gerir consequências da decisão injusta do TC e, repito, felizmente há maturidade e elevação política para podermos ultrapassar o mais urgentemente possível toda essa situação.

 

DW África: As atribulações poderão contribuir para a sua descredibilização em época eleitoral. "Lavar a roupa suja dentro de quatro paredes" será o suficiente para manter a boa imagem do partido?

RS: Não há nenhuma organização política, até mesmo as famílias em casa têm os seus problemas. Num partido político, as pessoas também têm os seus pontos de vista. O fundamental é que não percamos o foco e que todos saibamos que temos um propósito comum. O que nos une à volta dos ideais da UNITA é trazermos mudanças e felicidade para os angolanos. Mas temos regras, instituições próprias, temos o congresso, a comissão política, o comité permanente, os orgãos intermédios e de base onde todas as questões são esclarecidas para que o partido avance. A UNITA não é uma instituição, partiu de um movimento de libertação e evoluiu para um partido político clássico. Tem os seus problemas e tem a sua história, mas é mesmo assim que ela está a sobreviver e a viver com os seus 55 anos.

 

DW África: Revê a UNITA do período do seu pai na UNITA de hoje?

RS: Revejo uma UNITA que deve pensar nos angolanos. Jonas Savimbi dedicou toda a sua vida a Angola e aos angolanos. Os ideiais de Savimbi continuam válidos. Seja quem for a dirigir a UNITA tem de estar alinhado com o que Savimbi idealizou com os seus companheiros, porque é valido. E todos os congressos realizados no pós-Savimbi têm reafirmado a identidade política da UNITA.


DW África: Corre nas redes sociais uma lista de membros da UNITA que estarão supostamente a trair o partido, e o seu nome consta dela. É, de facto, um dos traidores?

RS: Também tomei conhecimento dessa lista através das redes sociais e aproveito para dizer que não me revejo nela. As minhas lutas são outras. Quando decidi dar a minha contribuição a Angola por via da UNITA não o fiz por questões de ordem material. Estamos aqui porque temos uma ideia e queremos dar a nossa contribuição para tirarmos Angola e os angolanos da agonia política em que se encontra. Por isso mesmo, não é hoje que vamos entrar nestes pequenos joguinhos, o que queremos é apelar à unidade do nosso partido.

 

DW África: Adalberto Costa Júnior é o seu candidado à liderança da UNITA?

RS: Até este momento Adalberto Costa Júnior é o único candidato. Então, é o candidato da UNITA, porque nas circunstâncias atuais não há condições de haver outros candidatos. É verdade que, na UNITA, não há um único candidato, não existe isso nos nossos estatutos. Somos pelas múltiplas candidaturas e foi sempre isso que nos distinguiu do MPLA. Mas estamos a viver um momento muito peculiar que faz com que [desejemos] a reposição de uma situação que infelizmente não correu bem e nos foi retirada pelo TC.

 

DW África: Em Moçambique, o maior partido da oposição está hoje praticamente moribundo, por sua própria culpa, mas também por supostas intervenções externas. Vê o mesmo futuro para o seu partido?

RS: Vejo um futuro risonho para a UNITA. A UNITA viveu momentos piores que estes. A UNITA vem somando dificuldades, derrotas e vitórias. É neste alternar que a UNITA completou 55 anos. Tenho a certeza e a esperança que, depois deste congresso [de dezembro], mais uma vez vai surpreender. Vai dar uma mensagem muito forte a Angola e aos angolanos, e sobretudo aos nossos detratores.



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