Luanda - É um dos mais influentes políticos da nova geração. Aos 24 anos assumiu a liderança do secretariado municipal da UNITA no município de Belas e anos depois do secretariado provincial de Luanda, com menos de 30 anos.

Fonte: OPAIS

Manuel Armando da Costa Ekuikui, ou simplesmente ‘Nelito Ekuikui’, garante ser ‘um produto de Isaías Samakuva’, o líder que o projectou e fez dele a figura hoje conhecida. Apontado hoje como sendo um dos indefectíveis de Adalberto Costa Júnior, o também deputado atira: ‘sou da UNITA. Eu não posso estar contra o presidente do partido’. Mais pormenores sobre a UNITA, os últimos acontecimentos, que ditaram a anulação do congresso que acabou repetido, assim como a Frente Patriótica Unida e os seus subscritores também mereceram a sua apreciação.

É um dos mais influentes políticos da nova geração. Aos 24 anos assumiu a liderança do secretariado municipal da UNITA no município de Belas e anos depois do secretariado provincial de Luanda, com menos de 30 anos. Manuel Armando da Costa Ekuikui, ou simplesmente ‘Nelito Ekuikui’, garante ser ‘um produto de Isaías Samakuva’, o líder que o projectou e fez dele a figura hoje conhecida. Apontado hoje como sendo um dos indefectíveis de Adalberto Costa Júnior, o também deputado refuta e atira: ‘sou da UNITA. Eu não posso estar contra o presidente do partido’. Mais pormenores sobre a UNITA, os últimos acontecimentos que ditaram a anulação do Congresso que acabou repetido, assim como a Frente Patriótica Unida e os seus subscritores também mereceram a apreciação de do político

Nasceu no Huambo em 1991?

Certo! Numa fase em que Angola se preparava para organizar as suas primeiras eleições gerais.

 

Como é que se envolveu na política?

Nasci no calor do conflito armado e numa família de guerrilheiros. O meu pai é um antigo guerrilheiro e a minha mãe também fez guerrilha. Entretanto, esta veia política também nasce comigo. Não fazíamos nem ouvíamos outra coisa. Ouvíamos os nossos pais preocupados em irem para as frentes de combate e isso inspirou-nos. Mas, o que mais me motivou a fazer política foi a última fase da guerra. Tinha os meus 10 anos, mas vi a minha mãe, como vi irmãos, amigos e muita gente a morrer. Vi gente que não professa nem conhecia a causa a morrer. Alguém que tinha 10, 15 anos, senhoras que seguiam os maridos, mas não sabiam porque estavam aí. Apenas foram.

 

Isso ainda no Huambo?

Não. Já no Leste de Angola. Recuamos do Andulo, em 1999, e fomos para as matas. Começamos pelo interior até ao Leste. Fizemos uma longa marcha. E ao longo desta marcha muita gente foi ficando. Isso fez nascer em mim o sentimento de justiça. Compreendi desde pequeno que só iria fazer alguma coisa se entrasse para a política. A política não é nada mais senão a gestão de interesses de vários grupos, sejam eles políticos, religiosos e até étnicos. Quem quer ter um país estável tem que saber gerir interesses de vários grupos. O meu interesse e o seu têm que estar salvaguardados. Se compreendermos a política nesta dimensão, nós teremos uma Angola sem conflito. Não importa quem está a governar, porque quem estiver a governar tem que saber salvaguardar o interesse de todos. É onde nasce o meu interesse pela política, porque a compreendo desta forma e não é diferente. Acho que os actores políticos têm que aprender a representar e a conjugar interesses. O que deu origem à guerra foi que entre os actores políticos, nenhum representa o interesse do outro. E deu origem ao conflito.

 

É o que se vive até hoje?

É o que se vive até hoje, porque ainda há muitas desconfianças. Ninguém confia no outro. Não aprendemos o que se diz que é verdade, nem com o nosso passado que é a guerra. Outras realidades africanas já aprenderam, mas nós ainda não aprendemos. Continuamos a não acreditar no outro. Acreditamos numa mesa de fino, com envelopes de baixo e não fora das mesas. Quero com isso dizer que dentro dos palcos onde coabitam políticos de várias forças há até um diálogo que parece sincero, mas é falso, porque fora se transmite outra coisa. Se o diálogo que se faz nos corredores do Parlamento, quando se está a tomar um café, se transmitisse para a população de uma maneira geral e cada um de nós pudesse representar o interesse do outro, quer esteja na oposição ou no poder, acho que iríamos evitar muita coisa. Teríamos um país a crescer, porque cada um de nós se iria aplicar para ajudar o país.

 

Quando Angola alcança a paz tinha menos de 20 anos?

Muito menos.

 

Quais são as vivências que tinha?

Nesta altura, só conhecia uma coisa: guerra. Nasci no calor do conflito armado, como lhe disse, e cresci nisso. Até aos meus 11 anos apenas conhecia a guerra. São as vivências que tenho. Aprendi desde pequeno a coabitar com a morte, porque era normal morrer, na altura, ou de fome ou por uma bala. Dali também que sou daqueles que quando olho para determinada pessoa nos extremos, isso preocupa-me em função das lições que trago do passado. O que menos Angola precisa é de um país instável. Há muita gente que não viu guerra e acha que a instabilidade é normal.

 

O que lhe veio à alma depois da morte de Jonas Savimbi?

Quando Dr. Savimbi morre, eu não tinha consciência praticamente de nada, como deves saber. Era um garoto. Mas quando ele morre foi como se tivesse caído um balde de água. Foi-se o imbondeiro e as folhas estavam espalhadas no chão. Alguém tinha que ter a capacidade de pegar as folhas e começar a plantar pequenos imbondeiros. É assim que consigo descrever a morte do Dr. Savimbi e os pequenos imbondeiros que foram crescendo e se destacando. Depois o partido rapidamente consegue negociar a paz e o general Lukamba Gato assume a gestão do partido, conseguiu unificar e depois surgiu o presidente Samakuva naturalmente.

 

Mas houve certos sectores da UNITA que criticaram o papel do general Lukamba Gato, sobretudo quando defendeu a assinatura de um Pacto de Regime com o MPLA. O que pensa?

Foi um erro não terem feito o pacto de regime. Em várias realidades africanas fez-se um pacto de regime ou de Nação. Acho que Angola caminhará para aí. Não tenho dúvidas de que um dia há de se fazer um pacto de Nação. Tem que se caminhar para aí. E o pacto de regime ou de Nação é definir os espaços de interesse de actuação dos vários grupos. Um dia chegaremos até lá, porque quem está no Governo não pode representar todos. Tem de hava

ver os limites, as balizas. Foi um erro não termos feito. Interpretaram mal, penso que foram os excessos da revolução. Mas hoje está mais do que provado que o general Gato tinha razão.

 

Para quem em 2002 não tinha sequer iniciado a sua carreira política de facto, porque era muito novo, podemos dizer, com certeza, que é um produto gerado na era Samakuva?

Sim. Sou um produto do Presidente Samakuva. O presidente Samakuva é um pai político para mim e ele sabe. Eu fui forjado na escola de Isaías Samakuva. Isso ninguém vai apagar.

 

Como é que avalia a gestão de Isaías Samakuva?

O presidente Samakuva é daquelas lideranças que poderia inspirar qualquer indivíduo que quer fazer política em África e talvez em Angola. É um adversário bastante tolerante, mas que sabe muito bem o que quer e onde quer chegar também. O presidente Samakuva fez um trabalho de reabilitação da imagem do Dr. Savimbi. É obra dele, porque hoje o presidente Savimbi tem o seu espaço recolocado no panorama angolano. Implantou o partido a nível nacional, porque na altura da guerra não estava implantado. Houve altura em que o presidente Samakuva fazia três ou quatro comícios num dia. Um às sete, 9, 12 ou às 22 horas. Poderia arriscar em dizer que nenhum presidente conhece Angola e as estruturas de base como o presidente Samakuva conhece. Era aquele líder que fazia. Parecia um adversário que passa despercebido, mas estava lá. Hoje o partido está como está, mas quem quiser tirar o mérito a Isaías Samakuva com certeza que não vai conseguir. Teve um papel bastante visível, unificou o partido, reimplantou, reabilitou a imagem do presidente Savimbi.

 

Era muito novo quando foi convidado para ser o secretário regional de Belas. Tinha noção do que queriam de si?

Sim, porque o presidente Samakuva sempre me disse.

 

O que lhe disse?

Quando me nomeia para o município de Belas, disse-me que queria ver o município a vibrar. Ouvir falar do município de Belas e mais presença da UNITA. E disseme também que o partido não tinha muitas condições, mas eu tinha que fazer. Tinha que trabalhar com uma equipa com a missão de dar visibilidade ao partido naquele município. Interpretei a missão, fomos ao terreno, com todas as dificuldades.

 

Tinha pouco menos de 25 anos?

Sim. Estava com 24 anos. Aceitei o desafio. Tenho a felicidade de conhecer as estruturas todas do partido. Já trabalhei aqui no Nova Vida. Com 17 e a fazer os 18 anos já fui coordenador de um núcleo. O núcleo é uma estrutura partidária, coordena-se 10 elementos. Então, comecei assim: o meu primo que me convenceu a fazer política activa chama-se Vasco e está no Huambo. É comissário. Militávamos no Comité do Kilamba-Kiaxi, participei com outros companheiros da minha idade na edificação de um comité aqui dentro do Nova Vida, que o presidente Samakuva inaugurou. E fomos galgando. Depois fomos ao Executivo provincial da JURA, onde exerci funções como secretário para os Assuntos Académicos e Eleitorais. Depois fui convidado para a voltar ao município como dirigente do partido coordenando as organizações de massa. Achei que o presidente Samakuva estava a ver em mim alguma capacidade e com a sua experiência podíamos fazer alguma coisa. Fizemos. Em Angola é que se nota a dificuldade de emprestar confiança à juventude, mas o presidente Samakuva nunca teve dificuldade de fazê-lo. Houve um outro incidente: no debate sobre quem deveria ser o cabeça de lista, alguns achavam que tinha que ser uma figura de peso para concorrer com os gurus da política angolana. Estava o general Higino Carneiro como cabeça de lista do MPLA, o Alexandre Dias dos Santos ‘Libertador’ pela CASA-CE e outros.

 

E também Nelito Ekuikui pela UNITA…

Ainda estava o debate. O partido estava a debater. Há os que achavam que deveria ser uma figura de peso, por exemplo, um general que deveria competir com outro general. Os nomes têm peso, mas o presidente Samakuva sempre dizia que preferia um jovem. Acho que é uma das decisões que o presidente Samakuva tomou sozinho, mas a maioria não olhava para isso desta forma. Lembro-me de o presidente Samakuva me ter chamado no seu escritório e ter dito: ‘Maninho, as pessoas não querem, estão contra mim porque acham que és jovem, mas ainda assim acredito na juventude e vou apoiar. Vais ser o cabeça de lista de Luanda, sei o porquê estou a fazer isso e acredito em ti.

Conte comigo’. Foi mais uma etapa e o presidente Samakuva emprestou-me esta confiança.



Sabendo que muitas vezes os nomes jogam ou fazem jogar, não foi um peso para si ultrapassar alguns nomes da UNITA e também ter que enfrentar adversários hipoteticamente mais preparados?

Senti este peso, mas a gente gosta de buscar exemplos do passado. Às vezes, nem sempre o nome ou a experiência conta. É tudo muito relativo. Quando vou debater ou a um combate com alguém com muita experiência, vou buscar sempre a história de David e Golias. Foi assim que encarei este desafio. Às vezes para derrubar um indivíduo, que é muito grande, não precisamos de bater de frente.

 

Considera-se um David na política angolana?

Não necessariamente, mas inspira-me a história.

 

Mas já se sente como um ‘peixinho’ na água a nível de Luanda?

Prefiro que esta avaliação seja feita por outros e não necessariamente por mim.

 

Mas uma questão directa: não se sente como um peixe na água hoje em Luanda?

Risos… Prefiro que a avaliação seja feita por outros, mas temos uma palavra a dizer sobre Luanda, o trabalho e a população. Vamos trabalhando em nome do partido e mudando a nossa parte.

 

Suponhamos que a UNITA vença as eleições em 2022, gostaria de ser o governador de Luanda?

Eu gostaria de ser governador de Luanda, na medida em que conheço profundamente os problemas de Luanda. Com ajuda de técnicos, porque nenhum político consegue desenvolver um trabalho perfeito sem técnicos, estaríamos em condições de dar soluções aos problemas de Luanda. Acho que têm soluções. Se não têm soluções até hoje é por falta de se estabelecer prioridades a estes problemas. Conheço a natureza económica da cada município de Luanda, os problemas de cada um, desde o município à periféria, e consigo conviver com as pessoas. Também conheço as suas ansiedades, porque o trabalho que fizemos no município de Luanda também nos permitiu entrar no coração de cada luandense, na sua residência. Isso nos dá alguma capacidade, com ajuda de técnicos, repito, de desenvolver um trabalho na província de Luanda para mudar o quadro, que é bastante caótico. Não consigo aceitar que todos os anos, na época chuvosa, temos que perder gente. É um problema que pode ser resolvido. Tal como não posso aceitar que não se possam resolver cooperativas nos municípios para dar resposta ao problema da empregabilidade para a juventude e não só. Há várias formas de subsistir e alavancar a economia a nível da província de Luanda. Estamos a falar de uma província que é a capital económica, política e legislativa. Então, há aqui muitas oportunidades que não estamos a explorar.

 

A UNITA tem um governo sombra, que teve à cabeça como primeiroministro o malogrado deputado Raul Danda, mas agora é João Vahekeny. Certamente que têm discutido a questão da província de Luanda. O que se tem dito sobre os problemas existentes na capital, quais são e soluções?

Eu acho que o tempo para a solução dos problemas depende muito da capacidade e da vontade. Capacidade dos técnicos e vontade dos políticos e a disposição dos recursos para a resolução dos problemas. Os problemas de Luanda são vários: desde a falta de saneamento básico, rede de esgoto, empregabilidade, delinquência, associada à prostituição. Numa só palavra, nós temos vários problemas e teremos que pegar em cada município e estratificar. Vou dar um exemplo: vamos pegar no município de Cacuaco, para reduzir a delinquência e resolver os seus problemas tenho dois mecanismos para retirar a juventude da rua ou da delinquência: primeiro, criar cooperativas ligadas à pesca, porque Cacuaco vive da pesca. Por outro lado, tens a agricultura. Tens a Funda e parte do distrito sede de Cacuaco também desenvolve a agricultura. Portanto, podes criar cooperativas ligadas à agricultura e à pesca. Tens um problema ligeiramente resolvido. Resolvendo este problema tens os jovens com emprego e desenvolvimento no município. Cada município tem os seus problemas. O município de Cacuaco tem vários problemas, a sua periferia não tem

Eu gostaria de ser governador de Luanda, na medida em que conheço profundamente os problemas de Luanda. Com ajuda de técnicos, porque nenhum político consegue desenvolver um trabalho perfeito sem técnicos.



DEBATE NAS REDES SOCIAIS:




DEBATE NO ANÓNIMATO: