Image Cabinda - A Igreja angolana que vai receber o Papa de 20 a 23 de Março passou por «grandes provações» nos anos de guerra, com a morte de muitos religiosos, afirma em entrevista à Lusa o bispo de Cabinda, D. Filomeno Vieira Dias.
«Os 27 anos de guerra em Angola como país independente marcaram profundamente a vida da Igreja, porque as alegrias e as tristezas de um povo são também as tristezas e as alegrias da Igreja. Foram anos de grande provação», lembra o prelado, que dirige a comissão episcopal que organiza a visita de Bento XVI.

A dias da chegada do Papa a Luanda, a segunda visita papal ao país depois de João Paulo II, em 1991, D. Filomeno Vieira Dias recorda que a Igreja «pagou, directamente, um preço elevado» pela sua acção durante o conflito.

«Morreram 25 sacerdotes, em resultado de emboscadas, assassinatos, em situações muitas vezes inexplicáveis, religiosas, catequistas falecerem, igrejas e seminários foram destruídos e muitas estruturas ficaram inoperacionais«, descreve.

Até 2002, o ano do fim da guerra em Angola, »em muitos lugares, a única presença aglutinadora que dava algum conforto às populações era a dos missionários«.

A Igreja ficou como o pilar onde as comunidades se estruturaram. E há algumas localidades, hoje, em que, apesar de a guerra ter terminado há sete anos, o Estado ainda não teve tempo de se tornar uma realidade activa em todos os espaços sociais«, considera.

O prelado diz que a Igreja angolana está »consciente das suas responsabilidades«, com os seus 500 anos no país, »e certa de ter cumprido a sua missão e de ter estado à altura dos grandes desafios, quer no plano eclesial, quer no plano social«.

»É também uma Igreja disposta a trilhar novos desafios«, aponta.

O também presidente da Comissão Episcopal para a Universidade Católica de Angola defende que »é importante não se olhar para a Igreja como dirigida apenas ao lado espiritual«. A Igreja, afirma, »vê o homem como um todo, é um ser cultural, o ser e a alma vivem em conjunto, o Evangelho não pode ser anunciado dissociado desta realidade«.

Nesse sentido, a visita de um Papa »é sempre provocadora, questionadora, estimulante, provoca uma interrogação sobre a Igreja neste contexto histórico«.

»O Papa, com as suas reflexões, com os seus discursos, vai-nos colocar perante novos desafios«, prevê o bispo de Cabinda.

Em relação ao enclave, o ambiente »é muito mais tranquilo«, apesar de a Frente de Libertação do Enclave de Cabinda (FLEC) reivindicar a autoria de acções militares contras as forças angolanas, nunca reconhecidas pelo Governo de Luanda.

»Antes de ir para Cabinda, ouvia muitas coisas sobre questões militares. Noutros tempos sentíamos a guerra pelas pessoas que não se podiam deslocar, pelas pessoas que eram atacadas, pelos pedidos de sangue para os hospitais militares e pelas pessoas desaparecidas«, recorda.

«o ambiente é muito mais tranquilo», declara, referindo que «a guerra é como a tosse, não se pode esconder».

Fonte: Diário Digital / Lusa



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