Luanda - O médico urologista e cirurgião (na reforma) Manuel Videira recebeu-nos na sua residência, em Luanda, numa manhã sem sol, a prenunciar chuva. “Vai um café? Com ou sem cafeína?”, convidou, mal nos sentámos num confortável sofá. Enquanto o café não vinha fomos directos à conversa que nos interessava.

Fonte: JA


Manuel Videira revelou-se um homem tranquilo, com um discurso lúcido, ponderado mas que não foge às questões aparentemente difíceis. Quisemos saber pormenores do seu percurso como nacionalista activo, a sua convivência no seio do MPLA em Leópoldville e depois no interior de Angola até ao momento da sua prisão em 1976 e o consequente abandono da vida política activa. O seu livro de memórias "Angola: Um Intelectual na Rebelião” esteve no centro da conversa

 

Considera-se um dos fundadores do MPLA?

Não. Fui um dos militantes que "fundaram” o MPLA em Leopoldville (actual Kinshasa). Não me considero um fundador do MPLA.

 

Quando vai estudar em Portugal, em 1954, já se falava em movimentos nacionalistas angolanos organizados?

Eu só oiço falar do MPLA como tal apenas em 1961, depois do 4 de Fevereiro. Pelo menos em Coimbra não sabíamos da existência do MPLA como "partido” organizado. Cerca de cem estudantes do Ultramar fugiram de Portugal sobretudo por causa da mobilização militar. Eu fui chamado para prestar serviço no exército português e deram-me um prazo de 15 dias para me apresentar no quartel. Nesses quinze dias tive contacto com a organização clandestina que nós tínhamos em Coimbra e fugi (em Junho de 1961) para Paris. Só em Paris é que realmente tivemos contacto directo com Mário Pinto de Andrade, Viriato da Cruz e Lúcio Lara e tomamos conhecimento da existência real do MPLA.

 

A base desta nossa conversa é o seu livro. Como é que o escreveu? Baseou-se, além das suas memórias, em apontamentos feitos ao longo dos anos em cadernos e também em pesquisa documental?

Baseei-me em tudo o que referiu. Principalmente em memórias mas também nos cadernos de apontamentos que eu tinha e na literatura que já estava publicada. Claro que fiz pesquisa. Sobretudo em livros da Fundação Tchiweka, de Lúcio Lara, que publicou todos os comunicados que eram elaborados pelo Comité Director que davam conhecimento aos militantes dos factos que iam passando. Isto para poder me alinhar sobretudo em relação ao tempo, para não escrever fora do tempo.

 

Viriato Cruz defendia em 1962, em Leopoldville, que devia haver um "recuo estratégico” dos mestiços nas estruturas dirigentes do Movimento. O que é que isso queria dizer exactamente? Qual era o contexto da afirmação de Viriato da Cruz?

Essa deriva do pensamento de Viriato Cruz resultou de uma grande pressão que era feita pela UPA de Holden Roberto contra a direcção do MPLA, dizendo aos seus militantes e fazendo espalhar que o MPLA se tratava de um movimento de brancos e de mulatos e portanto não tinha nenhum significado para a luta em Angola. Como chegou a haver actos de agressão a uma delegação de médicos do CVAAR que foram à fronteira, em Matadi, fazer um reconhecimento das populações para prestar assistência... essa atitude dos militantes da UPA provocou realmente um desencorajamento muito grande. Segundo me lembro, o primeiro responsável a falar nessa teoria não foi o Viriato mas o Dr. Eduardo Macedo dos Santos, que na altura era membro do Comité Director. Mas depois o Viriato achou que essa deveria ser uma estratégia a adoptar para proteger a própria organização em si.

 

Além dessa interferência da UPA, no seio da massa militante do MPLA havia também a percepção de que os brancos e os mulatos não deveriam participar na luta de libertação nacional e em particular na guerrilha?

Não, não havia. Houve mais tarde, por parte de alguns membros. Nos períodos de grande crise, como sabe, o que predominava era a fome, a luta pela sobrevivência. Mas em 1962 não houve pressão da parte dos militantes do MPLA. Houve pressão da parte da UPA, do governo congolês, de certas teorias do Frantz Fanon, que era um dos conselheiros da luta dos argelinos, ele que escreveu o livro "Os condenados da terra” e curiosamente era mestiço.

 

No livro fala da visita de Savimbi, em 1961, ao grupo de estudantes em França fugidos de Portugal. E refere que já na altura Savimbi "denotava uma clara preocupação em encarnar a personagem política de Patrice Lumumba”. Aquela influência, que ia até à forma de se vestir, foi momentânea ou perdurou no tempo?

Não sei dizer durante quanto tempo durou, mas para mim foi marcante. Nós estávamos na Cimade, que era um centro das igrejas protestantes especialmente dedicado a prestar assistência aos refugiados políticos, sobretudo aos jovens refugiados políticos. Quando lá estávamos fomos surpreendidos pelo pedido para visitar o grupo feito pelo Jonas Savimbi, que alguns de nós conhecíamos de Lisboa e outros de Angola. Mas ele foi especialmente para visitar o Dr. Liahuca, que acho que tinha estudado na mesma missão em que ele tinha estudado. O Savimbi apresentou-se vestido com o seu "abako”, igual ao de Lumumba, tal como os óculos, o que era extremamente raro em França na altura, mesmo por parte de africanos. Tanto é assim que nós dizíamos "olha está aí o irmão do Lumumba”.

 

No livro dedica largos espaços, capítulos inteiros, a traçar o retrato de figuras com as quais se cruzou e conviveu, algumas das quais constam da história da luta anti-colonial. São os casos de Viriato da Cruz, Mário Pinto de Andrade, Agostinho Neto, Gentil Viana, Deolinda Rodrigues, Eduardo Mondlane, Amílcar Cabral, Sócrates Dáskalos, Comandante Benedito e outros. Foi sua preocupação homenagear dessa forma aquelas personalidades?

Sim. Pretendi sobretudo relembrar personalidades que foram muito importantes na vida do Movimento e da luta de libertação de Angola. São figuras de que nunca se fala nos tempos actuais e que na minha opinião devem merecer evocação de tempos em tempos e até que sejam oficialmente reconhecidas com, por exemplo, a aplicação dos seus nomes em ruas das cidades. Um comandante Benedito, por exemplo, deveria ter o seu nome em ruas.

 

Mário Pinto de Andrade é um dos retratados. Refere-se a ele como figura central na organização da rede clandestina no exterior, na frente diplomática e como idealizador do CVAAR. Quais eram os pontos fortes e os fracos da personalidade e da liderança de MPA?

Dos pontos fortes era sobretudo a sua grande cultura. Era um homem que frequentou a Sorbonne (universidade), trabalhava na Présence Africaine já há alguns anos, ele tinha um avanço de conhecimentos culturais muito acentuado. E sobretudo conhecimento político e diplomático. Era um homem, um cidadão totalmente urbanizado, como ele próprio reconhecia. Mas tudo isso existia ou habitava numa pessoa de estrutura física débil, ele não tinha fisicamente nenhuma condição de se deslocar nas matas onde alguns de nós andamos a trilhar durante anos. Essa era a sua debilidade. Mas do ponto de vista mental era brilhante, não só no MPLA mas em qualquer cenário africano.

 

Outro dos aspectos fascinantes do seu livro é a forma aberta, desassombrada, sem censura (ou auto-censura) como aborda questões durante muito tempo tabu no seio do MPLA, como por exemplo a questão do racismo, não só na fase inicial em Leopoldville mas também na fase que culminou mais tarde com a Revolta do Leste e depois a Revolta Activa. As contradições raciais no seio do MPLA e na sociedade angolana, na sua opinião, solucionaram-se com a Independência?

Acho que não. Isso é um fenómeno muito generalizado e não podemos esquecer que logo a seguir à guerra pela Independência veio a guerra civil. Uma guerra civil tende a ter um factor racial muito pesado. Foi isso que nos levou e talvez nos leva ainda hoje a ter alguns problemas. A Independência em si claro que não conseguiu resolver essas questões. E sobretudo porque infelizmente a UPA sempre primou a sua filosofia política com base no racismo e no tribalismo. A UPA não foi só racista, foi sobretudo tribalista. Eles não admitiam, por exemplo, no seu comando, senão indivíduos de origem kikongo.

 

Isso tudo, claro, dificultou a criação de uma frente única anti-colonial?

Impediu completamente. A UPA de Holden Roberto, enquanto esteve no Congo e mesmo após o MPLA ter aberto a Frente Leste eles nunca aceitaram fazer uma frente unida, porque achavam que com as alianças que tinham com Mobutu iriam facilmente ganhar a Independência.

 

Em Junho de 1962 Agostinho Neto, então presidente de honra do MPLA, sai da prisão em Portugal e ainda nesse ano em Leopoldville assume as funções de presidente efectivo do MPLA, substituindo MPA. Essa substituição foi natural, esperada e absolutamente consensual?

Agostinho Neto quando desce de Marrocos, passando pelo Gana e pela Guiné, e chega a Leopoldville já tinha sido eleito presidente de honra do MPLA. Mário Pinto de Andrade, que como disse anteriormente, era um militante especialmente devotado às actividades diplomáticas, reuniu o Comité Director e disse "olha, vocês sabem que eu como presidente estou de passagem, o verdadeiro presidente é o camarada Agostinho Neto”. No princípio não houve problema nenhum. Não me lembro se na primeira reunião Viriato da Cruz estava ou não. Infelizmente para o MPLA, Agostinho Neto chega justamente naquele período em que o Viriato da Cruz perfilhava a estratégia do recuo dos mestiços e não participava nas reuniões do Comité Director. É a partir daí que justamente se começam a acumular os desentendimentos entre um e outro.

 

Como o senhor mostra no livro, não tardou a haver os embates entre Viriato da Cruz e Agostinho Neto...

O Viriato da Cruz tinha uma mentalidade marxista e como secretário-geral, em princípio, era o homem mais importante do Movimento, ele achava que ele é que devia dominar a máquina, toda a actividade e sobretudo todo o pensamento político da organização. Agostinho Neto tinha outra concepção, achava que o presidente é que tinha de ser a personalidade mais importante.

 

Mas estatutariamente como é que era na altura, quem é que devia ter mais poder?

Pelos estatutos realmente o secretário-geral deveria ter mais poder. Viriato da Cruz dizia que Agostinho Neto chegou a Leopoldville, tomou os cargos, começou logo por organizar, em menos de uma semana, uma conferência de imprensa sem o consultar, quando ele é que devia transmitir a Agostinho Neto qual era a situação real do MPLA. Eu penso que Agostinho Neto não se reuniu com Viriato porque este praticamente tinha se afastado. Dizia-se, isto não está no livro, que Viriato tinha uma entrevista com Neto e este deixou-o muito tempo à espera... Começaram aí os desentendimentos. Por outro lado Agostinho Neto vinha com muita "fúria” e muita pressa e convencido que iria convencer o Holden Roberto a fazer uma plataforma qualquer de entendimento, tipo uma frente unida...
Viriato não concordava com isso, apesar de mais tarde aproximar-se de Holden de Roberto...
Uma das primeiras atitudes políticas do presidente Agostinho Neto em Leopoldville foi escrever uma carta ao Holden a pedir uma reunião para discutirem formas de entendimento. Mas uma semana depois recebeu a resposta de Holden muito pouco simpática a recusar esse encontro.

 

Por que teria Holden Roberto recusado?

Porque achava que o MPLA não valia nada e nunca conseguiria implantação no interior de Angola. Um outro pormenor: pouco depois de Agostinho Neto chegar a Leopoldville, chegou também um antigo missionário, o bispo Dodge, que tinha sido professor de Agostinho Neto. Dodge chegou, acho que secretamente, a Leopoldville, para cumprimentar e falar com Agostinho Neto e convidar-lhe para fazer uma tournée nos Estados Unidos. Infelizmente o Viriato da Cruz fez espalhar a notícia desse convite, que devia permanecer secreto, para provocar na embaixada da União Soviética uma reacção evidentemente desfavorável. Ele espalhou que a ida de Agostinho Neto aos Estados Unidos seria uma traição, de tal modo que Neto se viu obrigado a cancelar essa viagem. No meu conhecimento esses são os principais factores que afastam Agostinho Neto de Viriato da Cruz. Mas também houve aí conflito de personalidades, ambos eram homens de poder e não gostavam de partilhar o poder.

 

A História não é feita de "se”, de situações hipotéticas, mas se, vamos lá fazer esse exercício, Agostinho Neto em 1963 tivesse ido em digressão pelos Estados Unidos, eventualmente o MPLA se teria afastado do universo socialista, teria sido uma força mais vinculada aos interesses ocidentais, nomeadamente norte-americanos?

É como você diz, a História não se faz de "se”. Mas, dada a experiência anterior que nós tivemos, por exemplo a fuga dos estudantes ultramarinos, que afinal, no fundo, foi organizada pelas igrejas protestantes, como está no meu livro isso veio a saber-se cinquenta anos mais tarde, é bem possível que o MPLA, pelo menos, tivesse sido visto pela parte americana de uma outra maneira, porque a UPA conseguiu criar na opinião pública americana a percepção de que o MPLA era um movimento de comunistas. E colou-nos esse rótulo, de que o MPLA dificilmente conseguiu libertar-se. Isso também porque a potência que efectivamente apoiava os movimentos de libertação aqui em África era a União Soviética. E ainda porque os estatutos que foram criados pelo Viriato da Cruz eram certamente inspirados pelos princípios marxistas.

 

Jovens intelectuais actualmente perguntam: Agostinho Neto, durante o período da luta de libertação, era mesmo comunista?

O presidente Agostinho Neto era uma pessoa de poucas falas. Eu nunca lhe ouvi a fazer afirmações nesse sentido. Ele era um revolucionário de ideias de inspiração marxista, daí a ser comunista acho que não. Agora, a revolução que houve aqui em Angola, com a luta pela independência e depois com a participação de Cuba e de cooperantes soviéticos, alemães (da ex-RDA), etc., etc., é que veio dar ao MPLA esse cunho de partido comunista. Mas eu acho que o MPLA nunca foi um partido comunista, nem sequer um partido de comunistas.

 

Retive da leitura do seu livro que em 1968 chegou a contactar Amílcar Cabral para ingressar nas fileiras do PAIGC. Quais foram os motivos que o levaram àquela tentativa?

O primeiro motivo foi que eu conhecia pessoalmente Amílcar Cabral, éramos não digo amigos mas conhecidos. Segundo é que nessa altura o PAIGC tinha organizado na Guiné Conakry um hospital e tinha ido para lá um médico angolano que se tinha refugiado no Congo e tinha sido meu colega em Coimbra. Tive conhecimento disso em Argel e como na altura não tinha funções nenhumas ao nível do MPLA achava que poderia ir dar a minha ajuda ao serviço de assistência do PAIGC enquanto médico. Não seria como militante do PAIGC mas como angolano a participar e a ajudar os serviços de assistência médica do PAIGC. Encontrei-me com Cabral em Argel, pus-lhe a hipótese, ele admitiu imediatamente que sim mas achava que eu deveria ter, na qualidade de angolano, a autorização do presidente Agostinho Neto. Fiz um pedido escrito de autorização mas Agostinho Neto recusou, disse que tinha funções para me atribuir, como realmente o fez cerca de um ano e meio depois, enviando-me para a Frente Leste.

 

A perseguição que sofreu por ter participado na Revolta Activa e que culminou com a sua prisão logo depois da independência, em Março de 1976, deixou-o amargurado? Ainda tem mágoas por tudo o que passou e sofreu?

Já passaram quase cinquenta anos, todos nós, angolanos, estamos em fase activa de reconciliação e, portanto, não guardo mágoa. Já participei em várias actividades do MPLA, de que sou portador de um cartão de militante, fui contemplado com a medalha dos cinquenta anos do MPLA e como nunca tive funções exclusivamente políticas nem ambições políticas, desde Kinshasa, estou absolutamente satisfeito.

 

Passou à reforma com a patente de coronel, quando todos os nacionalistas do seu tempo são generais. O que é que se passou?

[Risos] Passei à reforma como major e acho que por interferência superior fui designado coronel. O que se passou é que eu pertenci à direcção da Revolta Activa, penso eu.

Quando esteve preso não foi submetido a nenhum processo, não foi condenado...
Sim, é verdade.

Porque é que esteve preso, afinal?

Não tive processo nem julgamento, é certo. A acusação era de traição à pátria [Risos]. Fui preso a 12 ou 15 de Março de 1976, estava eu na Lunda como único médico e director dos serviços de saúde da Diamang, quando fui abordado por um camarada (na altura todos éramos camaradas) que levava uma ordem de prisão assinada pelo director máximo da Segurança, que na altura era o Ludy Kissassunda, com a acusação de que estava a conspirar contra a segurança do Estado. Fiquei dois anos, sete meses e mais uns dias na cadeia.

 

Como é que passou o 27 de Maio de 1997, na cadeia?

Foi dramático, assustador. Fomos acordados pela primeira bazucada que foi disparada contra a cadeia do S. Paulo. A bazuca foi atirada justamente para o ângulo onde se encontrava a camarata da Revolta Activa. Não sei se foi por acaso ou intencional. Eram 6 horas e 25 minutos da manhã. A cela era colectiva mas não muito grande. Lá estávamos seis ou sete, os considerados dirigentes da Revolta Activa.

 

Quem eram os outros que estavam consigo na cela?

Estavam o Gentil Viana, o Mário Paiva, os três irmãos Pinto de Andrade (o Justino, o Vicente e o mais novo, já falecido), um jovem, o Lukamba, que agora está na Inglaterra, o Jota Carmelino...

 

Na altura correram o especial risco de serem fuzilados?

Houve dois incidentes que apontavam para esse desfecho. Um quando alguém andava à nossa procura e depois de nos identificar disse "ai é, logo à noite vocês vão parar o motor no Campo da Revolução”. E foi-se embora. Passada cerca de meia hora o Sabata, penso que você já ouviu falar dele, com uma AK foi a procura dos membros da Revolta Activa e começou a alinhá-los para iniciar o fuzilamento, aí mesmo na cadeia. Felizmente para nós a comissária Virinhas, que fez parte do assalto (alguns dizem que foi ela que comandou o assalto à cadeia do S.Paulo, que durou horas) vinha a atravessar o pátio e veio a correr, chega ao pé do Sabata e dá um grito: "Óh Sabata, quem é que te deu ordem de fazer isso?”. Ela, mesmo grávida, tinha para aí uns cinco meses de gravidez, deu um golpe ao Sabata e tirou-lhe a arma. "Comissário aqui é que manda, quem te deu ordem?”, ela foi ralhando com o Sabata, que, envergonhado por ser desarmado por uma mulher, saiu pelo portão grande e nunca mais o vimos. Foi assim que a Virinhas nos salvou.


A comissária Virinhas viria também a desaparecer para sempre...
O que constou é que deixaram-lhe dar à luz o filho e depois foi executada. Ela está enterrada no cemitério de Benguela.

 

Olhando para trás arrepende-se de alguma coisa? Faria as mesmas opções?

Arrependimento da minha actividade como nacionalista não. Fui lutar pela independência de Angola, não pela independência do MPLA. Fui para o MPLA porque tinha de participar numa organização. É dessa maneira que equaciono todo esse percurso que eu tive na luta de libertação. O meu partido é o MPLA e vou morrer no MPLA.

 

Sente que a sua biografia foi ou está a ser devidamente valorizada ao longo desses anos todos, não só no seio do MPLA, mas do país?

É difícil responder a essa pergunta. O MPLA tem uma longevidade tão grande, teve uma participação tão volumosa na libertação deste país que é difícil poder seguir a vida de todos os seus militantes. Eu escrevi o livro sobretudo para lembrar alguns acontecimentos e algumas personalidades que não devem ser esquecidas e também porque muita gente insiste que os mais-velhos têm que escrever. E sou de opinião que sim, que devem escrever aquilo que podem e que sabem para contribuir para o processo histórico deste país. O mais importante para nós, os da minha geração, é escrever sobre a nossa participação no processo da independência e da libertação do país. Depois disto há outras gerações que devem escrever sobre o que fizeram para este país poder ter paz e progresso.

 

O livro termina com a lembrança da sua prisão, de onde saiu há quase 45 anos. O que viveu de lá para cá não merece um segundo volume?

Esse livro é de memórias mas não é uma auto-biografia. É um livro de memória em que eu reflicto sobre o que aconteceu num tempo que eu achei essencial, fundamental, que nunca mais se vai repetir em Angola, pois nunca mais ninguém vai lutar pela independência de Angola.

 

Perfil

Manuel Videira
Nasceu em Porto Amboim, em 1935

Licenciou-se
Em Medicina pela Universidade de Coimbra em 1961, tendo sido dirigente eleito da Associação Académica, sócio da Casa dos Estudantes do Império e um dos organizadores da fuga de estudantes para França em 1961.

Em Paris
Filia-se no MPLA, tendo organizado nova fuga clandestina no mesmo ano, desta vez para o Gana, de onde partiu para Leopoldville (actual Kinshasa). Foi um dos fundadores do CVAAR (Corpo Voluntário Angolano de Assistência aos Refugiados), organismo que serviu de ponta-de-lança à penetração política do MPLA no Congo.

Combateu na guerrilha
Fez parte da Revolta Activa. Com a Independência, regressou a Angola, tendo sido preso durante 2 anos, 6 meses e 14 dias. De volta à vida civil, foi médico (cirurgião e urologista) e director-geral do Hospital Universitário Américo Boavida.

Está reformado com a patente de Coronel.

EM JEITO DE LEITURA

"Angola – Um Intelectual na Rebelião” - (420 páginas) -, livro de memórias do médico angolano Manuel Videira, publicado no ano passado em Portugal pela editora Guerra & Paz (disponível em Angola pela mão do autor), surge numa altura em que muitos já pensavam que tudo estava contado a respeito do processo de luta de libertação nacional. Este livro, não trazendo, em termos do quadro geral, nada de que não se soubesse já, revela-se riquíssimo em detalhes na descrição do carácter de personalidades que se cruzaram e conviveram com o autor e que se destacaram naquele processo. Figuras como Agostinho Neto, Mário Pinto de Andrade, Deolinda Rodrigues, Comandante Benedito, Manuel dos Santos Lima, Gentil Viana, Eduardo Macedo dos Santos e várias outras aparecem retratadas no livro na força e nas fragilidades da sua humanidade. Referindo-se, por exemplo, ao primeiro encontro com Viriato da Cruz, em 1961, em Paris, escreve o autor que já então notara nele um "grande carisma que seduzia e subjugava”.

Manuel Videira sem qualquer tipo de auto-censura vai ao âmago das sucessivas crises vividas pelo MPLA e disseca as suas causas. A saber, as contradições raciais e tribais (transportadas da própria sociedade colonial angolana), de visão estratégica e o puro choque de personalidades vocacionadas pelo poder sem contestação.

A chegada de Agostinho Neto a Leopoldville em 1962, depois da fuga da cadeia em Portugal em Junho desse mesmo ano (com o apoio da rede clandestina do PCP) e as medidas imediatas que tomou para relançar a acção do Movimento, então mergulhado numa relativa apatia e desavenças intestinas que culminariam, em Julho de 1963, com a expulsão de José Bernardo Domingos, Viriato da Cruz, Matias Miguéis e José Miguel, é narrada ao pormenor. A difícil situação do MPLA fica muitíssimo mais complicada quando uma comissão da OUA, naquele mesmo ano, reconhece as forças combatentes da FNLA como sendo "de longe, maiores do que qualquer outra”, sendo as "mais eficazes” e constituírem "de facto a única verdadeira frente de combate em Angola”. Naquela altura o MPLA tinha como um dos seus principais activos o CVAAR (Corpo Voluntário Angolano de Assistência aos Refugiados, idealizado por Mário Pinto de Andrade) cujo contingente de médicos angolanos chegou a ser em maior número que o total de médicos congoleses em todo o território do Congo-Leopoldville.

Através do percurso de vida do autor, das peripécias por que passou, e pelo facto de ter estado no centro de muitos acontecimentos decisivos, o leitor é transportado, na primeira pessoa, como se estivesse a viajar em primeira classe, através de uma escrita límpida, directa, sem grandes circunlóquios, para a História da Luta de Libertação Nacional. Uma história feita de heróis, sem dúvida, mas de carne e osso, por isso falíveis. Tão falíveis que, por exemplo, o próprio Manuel Videira viu-se, quatro meses depois da Independência, atirado para a prisão onde ficou dois anos e sete meses sem processo judicial e muito menos julgamento. O riso com que hoje o médico e nacionalista responde à pergunta sobre as verdadeiras causas da sua prisão diz tudo sobre o absurdo da situação.

Manuel Videira com este livro responde, no que lhe cabe, à demanda social aos integrantes da sua geração para que escrevam e transmitam às gerações posteriores o legado da sua vida em prol da criação da nacionalidade angolana. Por isso, é um Manuel Videira aliviado, com sentimento de dever cumprido, que disse ao Jornal de Angola: "Eu escrevi o livro (...) porque muita gente insiste que os mais-velhos têm que escrever”.

Efectivamente, é cada vez mais imperioso escrever, meter no papel as memórias, os sonhos, as aspirações. No fim de tudo, no somatório do que vai permanecer ou ser esquecido na posteridade, o que estiver escrito será fadado a ser considerado "verdade”. E através desses escritos se vão perpetuar visões, percepções, narrativas de grupos que histórica e culturalmente serão considerados hegemônicos.

 

 



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