Luanda - A realizadora Margarida Cardoso lamenta haver ainda poucas fontes para se esclarecer o processo "27 de Maio de 1977" em Angola, que aborda no seu mais recente filme "Sita -- A vida e o tempo de Sita Valles".

Fonte: Lusa

O filme, que tem antestreia marcada nesta sexta-feira no IndieLisboa e estreia no Cinema Ideal em Lisboa em 12 de maio, data em que também fica disponível em DVD e nos videoclubes das televisões, apresenta Sita Valles, uma das vítimas da violenta repressão que o regime angolano fez abater sobre os participantes de uma alegada tentativa de golpe de Estado contra o Presidente Agostinho Neto.

 

Em 27 de maio de 1977, uma alegada tentativa de golpe de Estado, numa operação aparentemente liderada por Nito Alves -- então ex-ministro da Administração Interna desde a independência (11 de novembro de 1975) até outubro de 1976 --, foi violentamente reprimida pelo regime de Agostinho Neto e, segundo a Amnistia Internacional, pelo menos 30 mil pessoas morreram ou desapareceram.

 

Iniciado em 2010, o projeto do filme teve que aguardar cerca de dez anos até poder ficar concluído.

 

"Quando retomei o projeto, por volta de 2019, 2020, fiquei surpreendida de ter havido uma evolução que eu pensava que não existiria em dez anos e então, realmente, hoje em dia as pessoas já conseguem falar", disse, em entrevista à agência Lusa.

 

Margarida Cardoso fala de familiares e pessoas mais ligadas a Sita Valles que antes receavam falar.

 

"Nota-se realmente uma muito maior abertura e também as novas gerações que em dez anos apareceram em Angola, apareceram pessoas que ideologicamente questionaram também o MPLA. E, portanto, houve muitas mudanças em dez anos. Eu acho isso bastante positivo. E acho que é a única maneira de amenizar um pouco o trauma é as pessoas poderem falar (...) Mas tem de ser, tem que ser através do diálogo que se consegue algum tipo de reconciliação", defendeu.

 

A abertura de arquivos, em Angola e Cuba por exemplo, ajudará a perceber melhor o que se passou e as circunstâncias que conduziram à morte de Sita Valles.

 

"Sim, acho que há poucas fontes, para se poder investigar o que realmente se passou no 27 de Maio. Nos dias que antecederam e nos anos precedentes. Nos anos da grande purga, digamos", acrescentou.

 

"Uma delas seria abrir todas as fontes para a investigação, não só as que existem em Angola. Estou a falar de fontes, documentos e tudo isso. Poderiam ser abertos até filmes que eu sei que foram feitos e aos quais não tive acesso. Houve coisas filmadas, houve realmente muitas coisas filmadas pelos testemunhos que eu tenho, mesmo coisas relacionadas com Nito Alves", adiantou.

 

Margarida Cardoso referiu as centenas de cassetes áudio gravadas e que desconhece se foram destruídas ou não.

 

"Há documentos em Angola e há sobretudo pessoas que estão vivas e que sabem muito, sabem muito sobre o que se passou e, aliás se não soubéssemos, também não iam encontrar as ossadas de Nito Alves nem da Sita Valles e do José Van-Dunem", disse, referindo-se à indicação do Governo angolano de que terão sido localizadas as ossadas de vários intervenientes no 27 de Maio.

 

"Se Angola abrisse e depois se Cuba também pudesse ajudar, porque também tem muita documentação sobre o 27 de Maio ou sobre os anos precedentes e do que se passou, eu acho que seria um ótimo princípio para começar a haver essa fase realmente de reconciliação, sem que as pessoas estejam sempre na dúvida sobre a verdade, sobre o que realmente se passou", reforçou.

 

O interesse de Margarida Cardoso sobre Sita Valles surgiu a partir de um artigo no semanário português Expresso.

 

"Foi quando estava a fazer a investigação para um dos meus filmes que se chama Ivone Kane (2014), um filme de ficção e cujo personagem principal é uma heroína da luta armada. Eu estava a fazer uma investigação sobre mulheres ligadas às lutas de libertação, ligadas a questões políticas em África e acabei por encontrar a figura da Sita, penso que no Expresso num artigo que foi escrito", recordou.

 

A interrupção da investigação sobre Sita Valles deveu-se também a outros projetos mas, sobretudo, "porque em 2010 ainda era muito difícil falar destes acontecimentos de 27 de Maio" e teve "algumas dificuldades com encontrar pessoas que dessem o seu testemunho sem terem medo de represálias".

 

"A figura da Sita interessou-me também por uma questão de ser uma figura que representa uma geração de uma forma muito forte. E sublinham uma série de questões a que a geração da Sita esteve sujeita. Ela passou pelos tempos coloniais numa Angola, numa Luanda muito burguesa, extremamente dividida entre o que eram os musseques e o mundo dos colonos", salientou.

 

"E depois veio para Portugal durante um tempo também da luta anticolonial, do tempo do Partido Comunista na clandestinidade e depois volta a Angola após Independência. Portanto, apanha uma revolução, apanha várias revoluções e eu achei que ela representava também esta geração que me interessa tanto e que depois teve de lutar com questões também como uma questão de identidade. Terem de escolher se fica, se as pessoas, muitas tiveram que escolher, se queriam ser angolanas, as que nasceram em Angola se queriam nacionalidade portuguesa. Todas essas questões identitárias também me interessaram muito nela e foi por isso que escolhi fazer este filme", relatou.

 



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