Luanda - Há um grande equívoco na política angolana que deve ser investigado e discutido até à exaustão — a ausência do “panafricanismo” na agenda política.

Fonte: Club-k.net

Equívocos na Política Angolana (XVI)

O panafricanismo é uma doutrina que advoga a união de todos os povos de África em defesa dos seus valores culturais ancestrais. Esta doutrina, muito popular nas elites do nosso continente no período das independências africanas (segunda metade do século XX) e, em certa medida, responsável pelo surgimento da OUA — Organização de Unidade Africana, é uma forma de potenciar a voz do continente no contexto internacional.

 

Entretanto, depois de a OUA ter conseguido atingir um dos seus principais objetivos - independência total do continente africano (pelo menos formalmente política e jurídica), o movimento panafricanista perdeu força um pouco por todo o lado.


Na verdade, o panafricanismo nasceu e foi mais acutilamte fora do continente entre os descendentes dos africanos escravizados na América (até ao século XVIII) ou entre os de ascendências subsaariana na Europa
— emigrados do continente após a década dos anos 1960.


Foram Henry Silvester-Williams, William Edward Burghardt Du Bois e, mais tarde, Marcus Mosiah Garvey, os grandes impulsionadores do movimento panafricanista. Posteriormente, esta doutrina foi adoptada por líderes dos movimentos de libertação nacionais africanos como foi o caso de Kwame Nkrumah.


No início, o panafricanismo propunha uma unidade política de toda África e o reagrupamento das diferentes etnias ou povos, divididos pela imposição das potências conlonizadoras na Conferência de Berlim de 1884/85
Por isso, o panafricanismo, que contempla também a vertente filosófica, social e espiritual, defende o resgate do culto aos ancestrais (memórias epi-genéticas ), a “iniciação ” ou “escolas iniciativas”, a defesa da unidade do pensamento filósofo africano, a defesa e ampliação das línguas africanas entre outras componentes do modus vivendi africano pré-colonial.

Muamar Al Kadafi, antigo líder líbio (de 1969 a 2011), defendeu, por exemplo, a criação dos Estados Unidos de África. Embora megalómana, como eram as ideias de Kadafi, o panafricanismo “não morreu” mas perdeu vigor e consistência depois do falhanço deste projecto federativo.


Hoje os líderes políticos africanos, mais preocupados com a integração económica, em detrimento da unidade do substrato cultural, criaram apenas a Zona de Comércio Livre. Esse mimetismo da globalização ainda ocorre no nosso continente talvez pela ausência na actualidade de grandes pensadores e entusiastas independentes da estatura de Cheilk Anta Diop, Aimé Césaire e Edward Blyden ou estadistas africanistas como Léopold Sédar Senghor e Thomas Sankara.


Apesar dos estereótipos actuais serem outros e a demanda sócio-cultural ser cada vez mais global, a necessidade do panafricanistmo nunca se revelou tão oportuna.


A correlação de forças no cenário geopolítico mundial deve merecer uma resposta concertada e em de bloco dos países do nosso continente.

 

A África deve se unir e tirar vantagem das suas potencialidades e deixar de ser “um corpo inerte onde cada abutre vem debicar o seu pedaço”, como dizia Neto.


A crise energética causada pela Guerra na Ucrânia, que vai aumentar nos próximos anos, oferece uma irrepetível oportunidade para a “libertação completa” do continente “ em relação às antigas potências colonizadoras, aos EUA e à China.


Na verdade, podemos ensaiar uma nova fase do panafricanismo que denominamos de “neopanafricanismo”— doutrina segundo a qual os países africanos devem unir-se em torno de uma organização estadual capaz de libertar o continente da dependência cultural, religiosa (espiritual), económica, científica, tecnológica, militar das potências globais.

O neopanafricanismo, que propomos, tem várias dimensões e devemos iniciar a sua implementação ainda neste ano.


E as dimensões do neopanafricanismo são as seguinte:

I. A primeira dimensão — “da integração política”, consiste em tomar realidade a constituição de um Estado africano. Esta dimensão de duração indefinida pressupõe a criação de uma estrutura estadual do tipo federativo com Governo, parlamento, tribunais e exército único.

II. A segunda dimensão — “da integração cultural, social, religiosa ou espiritual”. Nesta vertente deve -se fixar as bases da unidade filosófica do pensamento africano, sem prejuízo das variantes culturais presente no nosso continente.

III. A terceira dimensão— “da integração científica e tecnológica”, onde a aposta na educação massiva e de qualidade, bem como a transferência de tecnologias dos países mais desenvolvidos para África serão premissas chaves na política do governo continental.
A autonomia tecnológica e científica do continente berço será um dos objetivos a alcançar nos próximos 20 anos pelo governo federativo africano.

IV. A quarta dimensão— “da integração económica”, nesta etapa o “governo continental” vai negociar e implementar um sistema económico africano que deixará de depender, no essencial, de produtos acabados e serviços de outros continentes, sem prejuízo da interdependência inerente à globalização.
A criação de uma moeda comum alicerçada por um sistema financeiro forte e moderno serão outras componentes importantes da nova potência mundial.

V. A quinta dimensão — “da prosperidade”, onde o continente encontrará o caminho do desenvolvimento do tecido humano, das infra-estruturas, da exportação de produtos acabados, serviços e tecnologias próprias.
Nesta fase, a fome e a miséria serão superadas pela equilibrada distribuição da riqueza e por um forte sistema de providência social.

Dirão que o neopanafricanismo que aqui expomos e advogamos é mais uma utopia — dizemos nós que é antes uma visão estratégica do futuro do continente africano.


Thomas Jefferson e Alexander Hamilton pensaram algo semelhante da América face à Inglaterra no século XVIII, Neru e Gandi da Índia face à Inglaterra nos meados do século XX, Deng Xiaoping da China face ao Ocidente nos finais do século XX e os pais das nossas independências de África face às potências coloniais europeias (nos anos 60 e 70 do século passado).

Angola, sendo uma das potências energéticas do continente, ocupa um lugar privilegiado para poder abraçar este arrojado desafio.


Temos consciência das enormes dificuldades para materialização de tal empreitada, Porém, os sonhos e as ideais de uma vida melhor movem o mundo e os obstáculos são inerentes as grandes transformações ocorridas na histórias da humanidade.

De facto, os blocos regionais de integração económica hoje já não são suficientes para dar respostas aos problemas globais. A União Europeia (UE) — o maior e o mais próspero bloco regional do mundo, não tem sido capaz de responder à demandada da geopolítica mundial.


O Brexit, a crise global provoca pela pandemia, o risco de uma Guerra Mundial causada pela invasão russa na Ucrânia, a crise energética europeia, a desindustrialização do Ocidente dão sinais evidentes que a fase da integração económica europeia está na sua etapa final.


Os Estados Fortes de dimensões continentais como os EUA, a China e a Índia respondem melhor aos desafios do presente e quiçá do futuro próximo. O argumento de que as diferenças culturais entre os povos é um obstáculo intransponível para criação de um “estado europeu”, por exemplo, está a “perder terreno “ face ao perigo militar vindo do leste. A evolução da UE para um “estado continental” é hoje uma questão vital — de sobrevivência do Velho Continente.


Destes sinais do novo tempo, que emerge em alta velocidade global, extraímos lições. E a mais importante delas é a necessidade de implementarmos o neopanafricanismo com o seu estado forte de dimensão continental.
Por isso, é oportuno conhecermos a posição dos candidatos às próximas eleições acerca do “clássico panafricanismo” ou do “neopanafricanismo” que acabamos de expor.


Salvo dados mais fiáveis, não temos lido ou ouvido nada acerca da doutrina panafricanista no debate político.


Exceptuando alguns intelectuais, que na praça pública debatem com entusiasmo, os políticos angolanos passam ao lado deste tema.


Por conseguinte, se afigura urgente “recolocar” a problemática do panafricanismo na agenda política angolana, quanto mais não seja para aferição acerca da sua importância e viabilidade.


Até lá, alea jact est …

 



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