Luanda - Se ainda estivesse entre nós, Pedro de Castro dos Santos Van-Dúnem, ou simplesmente Comandante Loy, teria celebrado 80 anos de idade, a 9 de Fevereiro de 2022. Conheci-o pessoalmente em meados da década de 1970, numa altura em que o comandante Bula e ele dirigiam a Logística das FAPLA, e Eduardo Adão Bravo, tenente-general reformado, era o vagomestre, o chefe da Intendência.


Fonte: NJ

Mas os meus contactos directos com Loy aprofundaram-se quando, em Janeiro de 1989, foi nomeado ministro das Relações Exteriores com a missão de, como observou José Eduardo dos Santos ao empossá-lo, ""consolidar e ampliar o prestígio e a autoridade de Angola no plano internacional, defender com firmeza os interesses do Estado, manter e desenvolver a nossa diplomacia activa e construtiva na defesa das causas nobres e mobilizar fundos de apoio para o programa de Saneamento Económico e Financeiro em condições generosas".


Na qualidade de chefe da diplomacia, e anteriormente como titular do pelouro da Energia e Petróleos, Loy esteve apaixonadamente associado ao rapprochement com, pelo menos, quatro países.

Em primeiro lugar, Portugal, cujos caboucos normalizadores das relações com Angola foram construídos durante a visita oficial que Loy, então ministro da Energia e Petróleos, efectuou à pátria de Camões, em Janeiro de 1986. Essa visita inaugurou um novo ciclo, em decorrência do qual se pôs termo aos altos e baixos que, entre 1975 e 1985, pontuaram invariavelmente as relações entre Angola e Portugal, cujas condutas transpareciam ser de adversários de estimação. A ascensão, em Novembro de 1985, do PSD e de Cavaco Silva à chefia do Governo português, mudou para sempre e para melhor a trajectória da bilateralidade luso-angolana, que se foi metamorfoseando na actual parceria estratégica.


Em segundo lugar, o Congo Kinshasa/Zaire, liderado por Mobutu Sese Seko, com quem Loy dialogou, a 22 de Fevereiro de 1989, no Japão, à margem das exéquias do imperador Hirohito. Em Tóquio nasceu o processo conducente aos Acordos de Gbadolite (1989), mediados por Mobutu, com quem Loy se encontrou dezenas de vezes, no Congo e não só, para negociar a paz e abrir novos horizontes para o aprofundamento da cooperação bilateral.


Na visão de Loy, aviltrada em Março de 1990 e partilhada, amiúde, com o seu conselheiro especial Lanvu Norman e comigo próprio, a matriz cooperacional com o vizinho do Norte deve contemplar: o fomento das ligações económico-comerciais e a circulação de pessoas e bens entre a região do Bas-Zaire/Congo e a província angolana do Zaire; o desenvolvimento, a modernização e a transformação do município do Nóqui num entreposto comercial de referência, bem como a abertura do consulado em Matadi, que veio a materializar-se em Junho de 1992.


Voltando ao fio da meada das interacções diplomáticas entre Loy e Mobutu, estou recordado da empatia, da fluidez no diálogo, do respeito mútuo e da relativa informalidade caracterizantes dos encontros entre ambos. Tanto assim que já sucedeu, em plena audiência, e tal como John F. Kennedy também o fazia com maîtrise, Mobutu ter trazido a sua filhinha, que aparentava ter 5 ou 6 anos de idade.


A presença ingénua da criança mesmerizou-nos a todos e envolveu o ambiente do diálogo por uma névoa humana, de distensão e deslumbramento. Isso ocorreu a bordo do navio Kamanyola, na manhã de 31 de Março de 1989, altura em que a preparação da Cimeira de Gbadolite constituía a prioridade das prioridades nas agendas político-diplomáticas de Angola e do Congo Kinshasa. Nessa mesma ocasião, Mobutu fez questão de enfatizar que no seu país não existiam bases militares da oposição angolana. Além disso, manifestou abertura para que uma comissão integrada pelo Congo-Brazzaville, Gabão e países da Linha da Frente inspeccionasse a nossa longa fronteira comum, a fim de aferir a inexistência de bases/campos militares de treino para angolanos.


Vem-me perfeitamente à memória o facto de Mobutu ter dito a Loy que a Zâmbia era o único país da Linha da Frente que não seria bem-vindo como integrante da comissão de verificação da fronteira. Com efeito, tal atitude não me surpreendeu: das muitas vezes que testemunhei encontros entre Loy, por um lado, e Mobutu ou Kenneth Kaunda, por outro, achava espantoso e era fácil discernir que ambos os Chefes de Estado - que eram líderes políticos de excepção nos seus países - não morriam de amores um pelo outro: compraziam-se em caracterizar-se mutuamente de ""falta de seriedade"".


Em terceiro lugar, a África do Sul, país com o qual Loy defendia contactos directos, porquanto na sua grande e ambiciosa estratégia, ambos os países deviam construir uma special relationship para co-liderar a África. Daí que, no âmbito da implementação dos Acordos de Nova Yorque (1988) e do estabelecimento da cooperação bilateral, Loy e o seu homólogo sul-africano Pik Botha tivessem mantido regularmente encontros de aproximação e degelo, dentre os quais me recordo vivamente de dois: o de Windhoek, ocorrido na tarde de 26 de Janeiro de 1990, na sequência do assassinato, dois dias antes, de quatro internacionalistas cubanos na Hanha do Norte - Benguela.


Foi uma reunião de emergência e de alta tensão com alegações e contra-alegações, de parte a parte, em torno da operacionalização da comissão conjunta de verificação e da instalação dos postos de controlo fronteiriços ao longo da faixa de Caprivi. Loy e a sua delegação, da qual também fizeram parte o embaixador Bento Ribeiro ""Kabulo"" e o então coronel José Maria, conseguiram demonstrar, convincentemente, aos sul-africanos que o ónus da responsabilidade da inércia da comissão de verificação pertencia à África do Sul.


A reunião de Windhoek terminou de forma auspiciosa, com os ministros exprimindo o comprometimento com o alcance da paz na sub-região, como premissa para a cooperação para o desenvolvimento entre Angola, a África do Sul e a Namíbia. É neste espírito que, em Março de 1990, ocorreu, em Luanda, a Cimeira dos Chefes da Diplomacia Angolana e Sul-Africana. A visita oficial de Pik Botha a Angola deu corpo à promessa feita por França Ndalu e Venâncio de Moura a Frederik de Klerk, no encontro que mantiveram em Cape Town, a 27 de Abril de 1989.


Durante a interacção com de Klerk, à época ministro sul-africano da Educação Nacional e do Planeamento, Ndalu informou-lhe que Angola estava empenhada no asseguramento de abastecimento de água à Namíbia por via da barragem do Calueque, reiterando, deste modo, a garantia que a delegação angolana tinha dado aos sul-africanos no encontro tripartido de Brazzaville, de 13 de Maio de 1988, de que Angola não tencionava interromper o abastecimento de água à Namíbia.
Neste contexto, Ndalu exprimiu a de Klerk o desejo de aprofundamento da cooperação bilateral, tendo-lhe afiançado que iria propor a realização de um encontro entre os chefes da diplomacia de Angola e da África do Sul, o que veio a acontecer em pouco menos de um ano.


A par do simbolismo de ter sido a primeira de um alto dirigente político sul-africano a Angola, a visita oficial de Pik Botha representou um marco histórico no processo de desdilematização da segurança nas relações entre os dois Estados.


Em último, mas não menos importante, lugar, os EUA. Nesse país - com a cumplicidade positiva, solidária e qualificada de figuras como o nigeriano Chief Fernandez, o moçambicano Jacinto Veloso, os Rockfeller, Howard Wolpe, Frank Ferrari, Gerald Bender e outros -, Loy esmerou-se na promoção do bom-nome e da imagem de Angola, como um bom destino para investimento e financiamento e como um parceiro incontornável para o alcance da paz, segurança e desenvolvimento de África.
Sucede que, em Abril de 1983, Loy e Manuel Alexandre Rodrigues "Kito" (à época ministros da Energia e Petróleos e do Interior, respectivamente) foram os primeiros governantes angolanos a interagir oficialmente com membros do Executivo americano, em sede do Departamento do Estado e da Casa Branca. Sendo como foram, ao longo das décadas de 1980 e 1990, líderes de primeiríssimo plano no xadrez político em Angola, Loy e Kito quebraram a barreira psicológica da falta de comunicação oficial e directa entre os Governos angolano e americano.


Ao descrever circunstanciadamente o clima e o resultado das visitas dignificantes que Loy e Kito efectuaram a Washington, Chester Crocker observa, em High Noon in Southern Africa (1992), que ""a impressão deixada por Loy diante dos ocidentais foi a de uma pessoa de fala mansa, do tipo angelical. A sua missão nos EUA visava sensibilizar os americanos e promover o estreitamento das relações."" E Loy contribuiu substantivamente para esse feito, mercê da sua realpolitik. No dizer de John Sassi - lobista norte-americano que trabalhou para Angola nos idos anos 80 e 90 - Loy era respeitado em Washington e falava a linguagem que os americanos compreendiam e apreciavam.


Um dos pontos mais altos do seu envolvimento no processo de paz esteve patente em Washington, a 12 de Dezembro de 1990. Nesse dia, Loy e Jonas Savimbi encontraram-se respectivamente com James Baker (EUA) e Eduard Shevardnaze (URSS), numa engenharia diplomática demonstrativa que a doutrina Brejnev e a guerra fria, em Angola, pertenciam e pertencem à história.


As imagens persistentes que retenho de Loy são a sua simplicidade, afabilidade, paixão por flores e jardinagem, humanismo, patriotismo e poliglotismo, tendo sido, a meu ver, dos mais cerebrais, mais versáteis e mais competentes quadros políticos da sua geração. Como um dia observou lapidarmente o Cardeal Dom Alexandre do Nascimento, Loy foi ""homem da raiz [...] que se embrenhou viva e apaixonadamente pelos caminhos da governação [...] fez parte da juventude doirada de Luanda nos finais dos anos cinquenta"".


Ao evocar a feliz memória de Loy, o eterno menino de Gangajuze-Icolo e Bengo, não posso deixar de aludir à sua ligação com Agostinho Neto, de quem foi um bom discípulo. Quis o destino que, em momentos cruciais da história de Angola e das suas vidas pessoais, ambos estivessem juntos física ou espiritualmente e testemunhassem um pelo outro um voto de confiança política ou um preito de homenagem. Três exemplos nos ocorre referenciar, a saber: a 25 de Abril de 1974, aquando da Revolução dos Cravos em Portugal, Loy encontrava-se com Neto no Canadá, em missão político-diplomática.


A 21 de Agosto de 1979, 20 dias antes da sua morte, ao discursar em Malanje num comício concorrido, com a saúde debilitada e a voz "falsificada", Neto pediu ao Comandante Loy, então ministro da Coordenação Provincial, que desse continuidade ao seu discurso, exprimindo as conclusões dos trabalhos.


No dia 17 de Setembro de 1997, sensivelmente uma semana antes do seu inesperado e chocante passamento, Loy declarou que Agostinho Neto ""continua a ser o espelho e a baliza de acção de muitos de nós [...]. O seu pensamento, traduzido em acções, mexeu e continuará a mexer com todos nós fiéis discípulos, que nunca se esquecerão de que o mais importante é resolver os problemas do povo"".


A personalidade político-visionária de Loy e a sua forma pragmático-patriótica de ser e de estar em Angola e no mundo ficarão para sempre registadas no panteão da memória colectiva da sociedade angolana.n

*Embaixador de carreira

 



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