Luanda - Em termos gerais, ambivalência pode significar a coexistência ou a interpretação de dois valores opostos ou diferentes. Ou seja, este termo, ambivalência, pode assumir o mesmo significado da palavra, o «paradoxo», que é uma figura de «retórica», que consiste em associar as afirmações aparentemente contraditórias, que desafiam a lógica e o senso comum. A «hipocrisia» é um outro termo que aproxima a retórica e a ambivalência, que consiste no fingimento de ter qualidades, princípios, ideias ou sentimentos que uma pessoa não possui. Quanto à retórica, o Platão, o Filosofo Grego (427-347 a.C.), definia-a como «sofisma», um discurso abstrato, falso ou pomposo, sem ter nenhum conteúdo, visando apenas atrair, confundir, distrair ou enganar as pessoas.

Fonte: Club-k.net

Essa breve introdução visa essencialmente caracterizar a postura das lideranças africanas no que dizem respeito a formulação e a condução das suas políticas internas e externas, cujos reflexos são sentidos negativamente na vida das populações locais de cada país africano. É verdade, sem dúvida nenhuma, de que, o Mundo contemporâneo, em que nos encontramos agora, é caracterizado pela diplomacia multilateral e bilateral, que visam afirmar-se no mercado internacional através de estabelecer relações de cooperação estreitas e diversificadas com os outros países, evitando a dependência excessiva sobre uma Potência mundial ou sobre um Bloco ideológico.


Só que, a multiplicação de relações de cooperação bilateral e multilateral não exclui a definição explicita do Modelo Político, que deve assentar em princípios e valores básicos que norteiam a construção de uma Nação e de um Estado. Esses princípios e valores devem ser observados escrupulosamente, cumpridos e executados na integra. Neste âmbito, a China é um exemplo concreto, que procedeu a definição do seu Modelo Político, de Partido Único, que está centralizado no topo e decentralizado na base, com um certo grau da participação popular na elaboração de políticas locais e comunitárias, bem como na escolha dos seus dirigentes das estruturas e dos órgãos de base e intermédios. Por via deste sistema hibrido (socialista e capitalista), o Estado exerce o «centralismo democrático», que foi definido explicitamente pelo Karl-Marx e Friedrich Engels, num livro intitulado: O Capital.


Repare que, a China abriu-se ao Mundo, apostando-se na economia e na tecnologia como instrumentos principais da expansão, da dominação e da construção do Grande Império Chinês. Para este efeito, a China está bem lançada no mercado internacional, sem qualquer ambiguidade no que diz respeito o seu Modelo Político, projetado a nível mundial, sobretudo nos países em desenvolvimento.


No caso específico da Rússia, ela é uma Oligarquia centralizada, de carácter monárquico, de matriz Marxista-Leninista, cujos poderes estão centralizados no Kremlin, radiando-se ao Duma (Órgão Legislativo), sob o domínio de uma única pessoa, que dita a linha ideológica do Estado e as Políticas Internas e Externas da Rússia. Este sistema político centralizador, assenta no “poder militar” (que consume mais de 45% das receitas públicas), que serve de instrumento principal de inspiração político-ideológica, da expansão territorial e da conquista da Europa, do Médio Oriente e da África. A Rússia apoia-se no petróleo, no gás, nos diamantes e na produção agrícola, como fontes principais de receitas para a conquista, a expansão e a dominação do Mundo.


A Doutrina Ocidental assenta no capitalismo liberal, no cristianismo, na democracia plural e alternante, na decentralização e na separação dos três poderes, os quais são eleitos por via do Sufrágio Universal Directo. Neste sistema, o mercado é livre e competitivo, assenta nos princípios políticos da liberdade, da igualdade, da legalidade e da justiça social. Contudo, verifica-se, neste sistema económico, uma tendência crescente da acumulação (cada vez maior) de capitais financeiros por um pequeno grupo de Magnatas, que exerce a influência enorme sobre os centros dos poderes políticos e das organizações multilaterais, com maior destaque, ao Conselho de Segurança, que é o Órgão Decisório das Nações Unidas.


Convinha salientar que, a Classe dos Magnatas, «os donos do mundo», atrás referida, é composta por diversas nacionalidades, inclusive por capitalistas russos (oligárquicos) e chineses, com um enorme poder financeiro, como Huawei Multinacional e Alibaba Grupo. O centro de acção e de afirmação da alta burguesia mundial está situada nas metrópoles ocidentais, nas quais os Magnatas, de diversas nacionalidades, encontram o espaço livre e o conforto desejado para controlar o mercado internacional e dominar o Mundo.


Como vimos neste texto, as três potências mundiais, embora tenham modelos políticos diferentes, mas elas convergem na acumulação de capitais, através dos Magnatas, que se constituíram em multinacionais, exercendo influências enormes na vida pública, na definição das políticas globais, na tomada de decisões estratégicas e na partilha da riqueza do Mundo. A Guerra da Ucrânia revelou claramente esta teia de aranha, das convergências e dos entrosamentos de interesses económicos entre a Rússia, a China, a União Europeia e os Estados Unidos da América. Só que, a ingenuidade do Ocidente, sobre esta convergência e harmonização de interesses económicos, como mecanismos da partilha da riqueza e do poder, caiu por terra, devida a invasão da Ucrânia, um Estado Soberano, agredido brutalmente por uma superpotência mundial – país vizinho e irmão.


Neste âmbito, surge agora uma «nova visão estratégica do Ocidente» que está sendo forjada rapidamente, e cujo foco já está bem definido, apontando ao Continente Africano, como palco de disputa, que reúne todas as condições necessárias: geopolíticas, geoeconómicas e geoestratégicas. A Europa é a fonte do poder, que estabelece o equilíbrio geopolítico mundial, cuja conquista é a condição sine qua non para expandir-se em todas as direções do Mundo, sobretudo à África. Nesses termos, a minha grande preocupação, que é o foco desta Reflexão, reside na ausência absoluta de uma Visão Estratégica e de um Modelo Político para o Continente Africano.


Há muitas décadas (antes e depois das independências) se falava sempre da busca de um Modelo Politico Africano. Infelizmente, até neste momento, este Modelo Político nunca veio à superfície. Pelo contrário, o que se constata é a ambivalência, a retórica, o sofisma e a hipocrisia no Continente Africano, que está dividido entre os pró-soviéticos e os pró-ocidentais. A China, embora tenha uma implantação económica muito forte em África, mas ideologicamente, em termos do poder político, não possui ainda Estados Satélites. Isso deve a dois factores principais: (a) durante a luta pelas independências dos países africanos, a China não se engajou fortemente, mantendo-se a uma certa distância. (b) na guerra fria, a China, como sempre, esteve numa posição indefinida, sem participar activamente na «contenda fria» entre o Bloco Soviético e o Bloco Ocidental. A Guerra Fria terminou em vantagem do Ocidente, tendo-se causado o desmoronamento do Império Soviético, cujos Estados Membros integraram-se livremente na União Europeia e na OTAN.


Neste momento, após de três décadas de trégua, surge novamente uma guerra aberta entre a Rússia e o Ocidente, que visa a conquista da Europa, que sirva de trampolim para tomar conta do Mundo. A Visão Estratégica da Rússia consiste, como ponto de partida, na restauração da antiga União Soviética e dos territórios satélites, espalhados pela África, Ásia e América Latina. Pelos vistos, a China já percebeu claramente a natureza desta nova guerra, e dos objectivos estratégicos da Rússia e do Ocidente. Por isso, a China está entre o martelo e a bigorna, enfrentando dois perigos evidentes, tanto da Rússia quanto do Ocidente, que olham para ela como um grande «Poder Imperial», que está silenciosamente a conquistar o Mundo.


Como dizia atrás, a África, além das suas fragilidades infraestruturais, institucionais, administrativas, económicas e tecnológicas, ela não tem uma Visão Estratégica bem definida. Pelo contrário, ela coloca-se na posição de inferioridade, de dependência e de sujeição, sem definir claramente de quem lado (de entre as três superpotências mundiais) esteja alinhada, como Continente e como União Africana. O mais grave ainda é de que, não está definido o Modelo Político, que permita lançar a luz sobre o horizonte e buscar os consensos sobre a melhor forma de desenvolver as nossas economias, transformar as sociedades e potenciar as famílias e as comunidades locais do nosso Continente.


Veja que, em muitos países africanos existe a ambivalência nas Políticas Internas e Externas, visando ocultar a Doutrina do Estado, através do qual seja possível confundir a opinião pública e manter-se no poder, independentemente da sua qualidade e do prejuízo que isso esteja a causar ao povo. Esse ambiente de incerteza e de instabilidade social permanente favorece as potênciais mundiais, por saber que, isso viabiliza aquilo que se chama na gíria: “pescar em águas turvas.”
Pois que, quer na luta anticolonial quer na guerra fria, África estava sempre dividida ideologicamente dentro dos seus países, e este fenómeno, do antagonismo ideológico, não ficou superado. Pelo contrário, agravou-se com as políticas de exclusão social e política, dividindo as sociedades africanas entre as famílias políticas no poder (que têm o monopólio sobre a riqueza) e as largas massas populares que padecem da fome e da pobreza extrema, vivendo na periferia, totalmente esquecidas e marginalizadas. Os governantes vão fazendo as acções de propaganda que não visam efectivamente a transformação e a integração socioeconómica de todos os estratos sociais das nossas sociedades africanas.


Há dias, ouvi um “analista” angolano, pró-soviético, que dizia numa rádio comercial, cita: “... é difícil que haja uma mudança de posição sobre a guerra da Ucrânia, já que, é uma questão de “princípios ideológicos” que prevaleceram em Angola desde a luta pela independência e a guerra fria, em que os dirigentes angolanos, como José Eduardo dos Santos e João Manuel Gonçalves Lourenço foram formados e treinados na União Soviética. Isso justifica o voto de abstenção de Angola e de outros países africanos nas Nações Unidas sobre a Ucrânia. Mesmo se o Ocidente pressionar, mas isso não mudará a posição de Angola em relação à Rússia.” Fim de citação.


Obviamente, a questão fundamental da África não consiste na «neutralidade» ou na «equidistância» em relação às superpotências mundiais. Mas sim, no «factor ideológico» e na «aliança estratégica» com a Rússia. É nisso em que baseia a neutralidade (voto de abstenção) dos Governos Africanos junto das Nações Unidas. Pois que, não se pode assumir uma posição neutra perante a violação flagrante dos princípios fundamentais do Direito Internacional, como na violação da soberania e da integridade territorial de um Estado soberano, internacionalmente reconhecido. Por isso, a ambivalência que se verifica nesta matéria serve apenas para cobrir os dois factores acima referidos, como cortina de fumo. Só que, esta «ideologia africana» não está bem definida e estar bem exposta abertamente.


Curiosamente, isso está sendo ocultado através da postura simulada de neutralidade, de equidistância e da ambivalência metafísica. Este é o maior problema da África, que consiste na falta de honestidade e de coragem de assumir abertamente as nossas convicções ideológicas. Pois que, fala tanto da democracia, mas que eles próprios não acreditam nela, fazendo recurso à retórica e ao populismo, distraindo a opinião pública ocidental, que vive no mundo da utopia. Ao menos o Presidente José Eduardo dos Santos tinha coragem de dizer que, «a democracia tinha sido imposta ao Partido no Poder, MPLA». A verdade é esta, que não deve ser escamoteada ou distorcida.
Repare que, com tanta pobreza e tanta fome em África, a diplomacia africana gasta avultadas somas de dinheiros nos Capitais Ocidentais pagas aos Lóbis Ocidentais, que visam essencialmente três objectivos principais: (a) proteger os activos dos governantes africanos escondidos no Ocidente; (b) manter o poder político por meios fraudulentos; (c) seduzir as potências ocidentais com políticas falsas e irrealistas. Neste respeito, a diplomacia africana, no verdadeiro sentido, não visa promover o desenvolvimento sustentável e o bem-estar das populações africanas. Pelo contrário, ela serve somente de instrumento do poder e da promoção dos interesses das classes governantes. Essa é a realidade da África actual, que não tem uma Visão Estratégica diante as transformações que ocorrem no Mundo, viradas para a conquista e a dominação da África pelas superpotências mundiais.


Enfim, neste regime sofista e ambivalente – antidemocrático – fica difícil desenvolver os países africanos para que os seus povos sintam em casa, possam usufruir a cidadania, tenham o poder de escolher livremente os seus governantes, possam participação efectivamente na vida pública e haja a distribuição justa e equitativa da riqueza dos nossos países. Ali estará o grande desafio das forças pró-democracia em África para buscar os caminhos acertados que conduzam à alteração profunda do actual status quo, que prevalece na maioria parte dos países africanos. Todavia, o problema é de como fazer eleições livres, justas, transparentes e verdadeiras, sem a manipulação? Esse é o Grande Desafio! Pois, sem o Poder Político do Estado nas suas mãos, nada pode ser feito para mudar o status quo actual.

Luanda, 20 de Junho de 2022.

 



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