Sua própria trajectória poderia ser material para o filme. Afinal, as dificuldades que viveu – rejeição, preconceito, intolerância – não ficam longe das histórias que encontrou em dois meses de estrada.

No papel de entrevistadora, Henda guardou suas histórias para si. Mas em Coração Aberto, ela solta o verbo.

Maria Henda Gomes

Aos 19 anos, eu era casada e tinha acabado de ter meu segundo filho, quando comecei a emagrecer muito. Fui à clínica da Endiama, mas os exames não acusaram nada, até que o médico mandou fazer o teste Elisa (teste para detecção do HIV). Eu nem sabia o que era.

Ao me dar o resultado, o médico me disse que eu tinha o HIV, e que teria mais dois anos de vida, se deixasse de fumar, de beber e dormisse bem.

Nessa época, em 1992, meu marido estava na província da Lunda Norte, a trabalho. E eu fiquei em Luanda a contar os dias que me restavam.

Contei sobre a doença para minhas primas. Uma delas era comissária de bordo e já tinha ouvido falar sobre SIDA. Elas me acalmaram e disseram que cuidariam dos meus filhos.

Fiquei saudável por mais dois anos, mas em 1994, comecei a ter muitas infecções pulmonares. Fazia tratamento e melhorava, mas depois tinha outra infecção.

Em 1996 a situação ficou pior e em Novembro daquele ano fui internada no Hospital Josina Machel. Não tinha com quem deixar meus filhos e eles tiveram que vir comigo ao hospital.

Minha família não quis me ajudar. Fiquei uns dias com as crianças no hospital e depois busquei a ajuda da organização não-governamental ALSIDA, que levou meus filhos para um orfanato.

No dia 26 de Novembro de 1996, apareceu uma equipa de TV no hospital para fazer uma matéria para o Dia Mundial de Luta contra a SIDA.

Eu não quis dar entrevista, mas a direcção do hospital fez um acordo com a equipa da Televisão Pública de Angola (TPA) que eu falaria, desde que não fosse identificada.

No dia 29 de Novembro, a reportagem foi ar: a emissora não cumpriu o acordo e mostrou o meu rosto e disse meu nome.

Minha família sentiu muita vergonha e me abandonou de vez. Eu tinha um apartamento nos Combatentes (região de Luanda) e eles não só venderam o imóvel, mas também roupas, loiças, móveis. Eu soube disso por acaso, ao encontrar uma vizinha no hospital.

Morei no hospital por quase um ano. Poderia ter recebido alta em Março de 1997, mas eu não tinha para onde ir. Os médicos ficaram com dó de mim e fiquei no hospital até Setembro.

Meu marido morreu nesse mesmo ano.

Nessa época, muitas vezes estive perto de assinar a autorização de adoção dos meus filhos. Como eles eram os mais novos do orfanato, havia muitos casais interessados em adotá-los.

Resistência

Saí do hospital bem recuperada e disposta a recomeçar a vida. O Ministério da Reinserção Social arranjou-me uma casa arrendada e eu fui buscar as crianças no orfanato três dias depois de ter me mudado.

Fui sustentada pelo MINARS por algum tempo. Eu estava abandonada pela minha família, ninguém sabia se eu viveria para cuidar dos meus filhos. Naquela época, todos que tinham alguma informação sobre HIV me recomendavam que eu fosse à África do Sul.

Em 1999, o MINARS pagou minha passagem e eu fui à África do Sul para fazer exames. Já estava a precisar de antiretrovirais. Comecei a viajar sempre a Johannesburgo, com a ajuda do MINARS e da Fundação Eduardo dos Santos, para dar continuidade ao tratamento.

Em 2003, o governo angolano parou de autorizar a minha viagem, porque já havia ARVs no país. O problema é que eu já estava a tomar Kaletra (medicamento de segunda linha, não disponível em Angola) na África do Sul e em Angola, tive de voltar a tomar medicação de primeira linha, o que fez com que eu desenvolvesse resistência medicamentosa.

Comecei a ter efeitos colaterais: recaídas, problemas de pulmão, perda de peso. Os médicos em Angola me aconselharam a ir ao Brasil para fazer novos exames.

Em Outubro 2006, consegui ir ao Brasil, com o apoio do ONUSIDA, para participar do Segundo Encontro de Pessoas Vivendo com HIV e Sida.

Aproveitei a viagem para fazer exames médicos em São Paulo, que confirmaram a falência terapêutica e voltei ao Kaletra. Passei a receber a medicação do Brasil pelo correio e vou para lá todos os anos para fazer exames.

Eu sobrevivia com a ajuda do MINARS, mas isso me incomodava, porque sempre fui independente. Foi quando me indicaram a ONG Luta pela Vihda e me tornei uma activista.

Hoje estou bem de saúde, me casei de novo e meus filhos já têm 14 e 17 anos.

Tenho uma vida activa. No final do ano passado, passei três meses no Brasil, com o patrocínio da organização não-governamental Open Society, para participar de um curso sobre Direitos Humanos na Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA).

Também fui convidada a participar do filme do Richard (o cineasta Richard Pakleppa), entrevistando pessoas sobre HIV no interior de Angola. Foi uma experiência nova de que gostei muito.

Fonte: Newsplus



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