Luanda - As primeiras informações sobre o agravamento do estado de saúde do ex-Presidente, José Eduardo dos Santos (JES), foram veiculadas pela imprensa portuguesa na passada quinta-feira, 23, o que, a partir desta altura, "montou" plantão em frente à clínica onde se encontra internado em coma induzido e com um quadro clínico considerado irreversível. JES foi vítima de uma súbita paragem respiratória, terá caído na casa de banho da residência onde vive, em Barcelona, só 15 minutos depois é que a família deu conta do acidente e accionou os cuidados médicos.


Fonte: NJ

JES terá registado três paragens cardíacas e apresenta sequelas resultantes deste delicado e complicado quadro clínico. Os olhos e o foco de grande parte dos angolanos estão voltados para o Centro Médico Tekon, em Barcelona, onde, uma semana depois, começaram a chegar jornalistas de órgãos de comunicação social angolanos e o ministro das Relações Exteriores, Teté António, que foi "despachado" de Lisboa para a cidade espanhola (Barcelona) pelo Presidente João Lourenço.


O lado social da saúde de JES levou a que os cidadãos passassem a escrutinar e a pressionar uma reacção da imprensa nacional e do próprio Estado. Os cidadãos fazem uso do seu direito à informação e exigem que a comunicação social e o Estado cumpram com o seu dever de informação. João Lourenço reagiu horas depois no site da Presidência da República, anunciando que havia mantido um contacto telefónico com a ex-primeira-dama, Ana Paula dos Santos, para se inteirar do estado de saúde de JES.


O silêncio de uma comunicação social pública, que durante 38 anos exaltou JES e quase o elevou ao estatuto de figura divina, fez muito "ruído" junto dos cidadãos. Também verdade seja dita que foi durante o consulado de JES que os assuntos de saúde do Presidente da República e de outros altos governantes eram classificados como tabu pela comunicação social controlada pelo Estado e assim foi sendo até aos dias de hoje. É que claro que hoje as dinâmicas comunicacionais são outras, os acessos à informação são maiores, muito mais livres, com maior velocidade e qualidade, e bastante diversificados, as exigências são outras, sendo perfeitamente natural e aceitável que os cidadãos queiram saber do estado de saúde do seu ex-Presidente por via dos seus órgãos de comunicação e exigem uma reacção da estrutura do Estado.
O certo é que a imprensa pública apenas reage às reacções do PR João Lourenço, quer seja quando diz que falou ao telefone com a antiga primeira-dama ou quando anuncia que "despachou" para Barcelona o titular do MIREX.


A dimensão e o estatuto político de JES fazem que se aborde o lado político da sua saúde. Em caso de morte, quando será a posição/actuação do Estado? Qual é a estratégia a ser adoptada pelo Estado? Como será feita a gestão da informação? A reacção do Presidente João Lourenço será através de um comunicado à Nação, via comunicação social? Ou nota no Twitter ou na sua página oficial? Funeral com honras de Estado? Será declarado luto nacional durante quantos dias? JES ainda é Presidente Emérito do MPLA e num momento em que vive uma situação de saúde delicada não há uma mensagem de conforto, de apoio e solidariedade do seu partido.


O partido decidiu-se a tomar partido, e JES sentiu-se abandonado por muitos daqueles que, durante 38 anos, lhe fizeram juras de eterna camaradagem. "As coisas estão complicadas e muito divididas lá dentro do partido. Andam todos encafuados e com medo de dar a cara e de afrontar a liderança. Muitos estão indignados com a gestão desta situação, mas não conseguem reagir", confidenciou-me uma influente figura do nosso "Kremlin". Com eleições a portas, essa também é uma situação que exige alguma sensibilidade e algum tacto político. Será que o "Eduardismo" conseguirá sobreviver no MPLA em situação de orfandade?

O lado pessoal e familiar da saúde de JES já se tornou público. Numa primeira dimensão a nível da relação entre a antiga primeira-dama, Ana Paula dos Santos, e as filhas de JES, Isabel e Tchizé dos Santos, é visível a existência de um clima de crispação e divergências de opiniões tornadas públicas mais por parte das filhas, uma vez que Ana Paula dos Santos tem mantido silêncio e distância dos holofotes mediáticos. Esta semana, foi divulgado um áudio em que uma advogada espanhola, alegadamente ao serviço das filhas mais velhas de JES, mostrava que uma dura e prolongada batalha legal em torno de JES pode estar a caminho.


Outro ponto importante neste lado familiar é que, com o episódio do telefonema, João Lourenço procurou deixar uma mensagem de que Ana Paula dos Santos é a interlocutora oficial do Estado junto da família de JES. A relação entre João Lourenço e as duas filhas mais velhas de JES é péssima e tende a piorar, uma situação que em nada vai ajudar num cenário pós-morte. Elas estão preparadas e vão jogar as últimas cartadas numa batalha jurídica e política em torno daquilo que consideram ser a defesa da honra e dignidade do pai. "Nunca ambicionei este cargo e nem esperei permanecer nele tanto tempo", disse um dia JES. Também desejou ser recordado como um bom patriota. Bom senso, diálogo, ponderação, honra, respeito, sentido de Estado e muito patriotismo serão necessários daqui para frente. São precisos não apenas em Luanda, mas também em Barcelona. Rapidamente e em força!


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De resto, a tentativa embaraçosa do Tribunal, liderado pelo juiz Joel Leonardo, surgiu apenas dois dias depois de o filho varão de José Eduardo dos Santos ter denunciado, numa entrevista à portuguesa SIC, a retenção ilegal dos seus documentos de viagem há vários anos, situação que o impede de viajar à Barcelona para estar junto da família e do seu pai, cujo estado de saúde agravou-se nos últimos dias.

O Tribunal Supremo terá mesmo orientado o advogado oficioso de ‘Zenu’ dos Santos a endereçar uma carta ao Tribunal, com um relatório médico de José Eduardo dos Santos anexado, de modo a que Zenu dos Santos pudesse receber os passaportes, com a evocação de “razões humanitárias”.

Além do advogado oficioso que fora atribuído a Zenu pelo próprio Tribunal, a equipa de Joel Leonardo entrou também em contacto com familiares de Zenu, na tentativa de contactá-lo, situação que terá revoltado também vários juízes. Estes ainda terão questionado a necessidade de se exigir um relatório médico de José Eduardo dos Santos, admitindo-se envergonhados, quando o estado de saúde do ex-Presidente da República é de amplo conhecimento nacional e até internacional.

Na entrevista que concedeu à SIC esta semana, Zenu dos Santos acusou as autoridades de reterem ilegalmente os seus passaportes, acusação sustentada com o facto de o próprio Tribunal Supremo ter extinguido as medidas de interdição de saída do país e a da apresentação regular junto das autoridades.

Consultas efectuadas por este portal interpretam a tentativa do Tribunal Supremo como um esquema que pretende usar para continuar a violar o seu próprio acórdão, uma vez que os passaportes não seriam devolvidos por causa da extinção das medidas de coação, mas por razões humanitárias. Ou seja, Zenu dos Santos receberia os passaportes condicionado com prazos, ao passo que os demais réus do processo continuariam a ver os seus direitos violados com os passaportes ilegalmente retidos.

Familiares, amigos e pessoas em geral que se solidarizam com a família Dos Santos têm apontado o vergonhoso cinismo das autoridades angolanas e de membros do partido no poder que se aprestam supostamente a apoiar, quando se sabe que, na base da deterioração da saúde de José Eduardo dos Santos, está também a perseguição impiedosa que sofreu desde que deixou o poder voluntariamente em 2017.

Em vários círculos do MPLA também caíram com amargura e desconforto as notícias que davam conta da tentativa da PGR de prender Isabel dos Santos nos Países Baixos e deportá-la para Angola, numa altura em que já circulavam informações sobre a deterioração da saúde do seu pai, o ex-Presidente da República e Presidente emérito do MPLA.

Aliás, fontes próximas à família não têm dúvidas em assegurar que é justamente a posição do poder angolano, face aos filhos, que foi determinante na deterioração da saúde de José Eduardo dos Santos que, antes desta última crise, foi confrontado com novas declarações de João Lourenço contra si e contra os filhos.

A PGR é vista como estando mais preocupada, nesta fase, em dar de bandeja a cabeça de Isabel dos Santos ao Presidente João Lourenço, sobretudo por fins eleitoralistas, enquanto se demite das suas responsabilidade efectivas de fiscalizador da Lei, ignorando ilegalidades como as que vão sendo cometidas pelo Tribunal Supremo.

Num artigo publicado esta semana, o Club K já dava conta de leituras em vários círculos do poder e não só que denunciam uma agenda paralela de instrumentalização da justiça por parte de João Lourenço, com fins especificamente eleitoralistas. A retenção de Zenu dos Santos, a propósito do conhecido caso 500 milhões, processo autorizado por José Eduardo dos Santos com conhecimento de João Lourenço, é interpretada como um das armas que o actual presidente decidiu usar para manter José Eduardo dos Santos no silêncio.

A João Lourenço e à sua entourage são atribuídos receios de que, uma vez perseguido, José Eduardo dos Santos poderia revelar segredos, de forma directa ou por terceiros, que pudessem colocar em causa as aspirações de manutenção no poder de João Lourenço.

Recorde-se que José Eduardo dos Santos assumiu, em carta dirigida ao Tribunal, ter orientado a transferência dos 500 milhões de dólares como garantia para a capitalização inicial de um fundo de investimento estratégico, virado para as infra-estruturas. Depois da abertura de uma investigação criminal em Londres, a justiça britânica concluiu pela não existência de crime, tendo os recursos voltado ao país, com a assinatura de um acordo de consenso assinado por todas as partes.

 



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