Lisboa - "Gostaria de fazer uma entrevista ao presidente de Angola? A primeira desde que preside a este importante país africano?", perguntou-me em 2013 ao telefone um conhecido de Israel que tem uma relação muito próxima com a ex-colónia portuguesa.

Fonte: Expresso

"Foi a entrevista mais polémica da minha carreira"

Mas a grande surpresa chegou pouco depois: "José Eduardo dos Santos disse-nos que tu és o único jornalista com quem está disposto a falar".

Não era a primeira vez que me propunham entrevistas a chefes de Estado. Mas era a primeira que, segundo o meu contacto, um Presidente me escolhia a mim para o entrevistar.

A única vez que tinha visto pessoalmente José Eduardo dos Santos tinha sido num jantar oficial na residência do Presidente israelita Moshe Katzav, em Jerusalém, em 2005. Dos Santos disse a Katzav, à minha frente, que me conhecia há muitos anos, porque me via na SIC. Durante alguns minutos ele e a mulher fizeram-me uma série de perguntas sobre o Médio Oriente Esse tinha sido o meu único contacto com o Presidente angolano.

Obviamente, aceitei a proposta de entrevista e, com muita cautela, pus uma condição: poder perguntar ao entrevistado tudo o que quisesse.

Viajámos para Luanda via Adis Abeba. A entrevista estava prevista para uma quinta feira, mas no último momento, quando já nos preparávamos para partir para o palácio presidencial, o nosso contacto israelita, que se encontrava ao lado do Presidente, ligou para o hotel e, muito incomodado, disse-me, em português: “Henrique, o Presidente não se sente bem e pede para adiar a entrevista para a segunda feira”. E acrescentou, em hebraico: “Ele está com muito má cara. Eu acho que está muito tenso, por ser a primeira entrevista da sua vida."


Como tínhamos um compromisso em Israel no sábado, regressámos a Telavive, num avião privado. Mais oito horas de viagem, para poder estar em Israel durante 48 horas.

Quando voltámos a Luanda, o meu câmara decidiu filmar na cidade, para ter imagens da capital angolana. O que não esperava era que a polícia o detivesse e levasse para a esquadra, para ser interrogado. O jovem cameraman disse ao chefe da polícia que era filho do correspondente Henrique Cymerman e que tínhamos ido a Luanda "para entrevistar o Presidente". O chefe da polícia respondeu com uma grande gargalhada. Mas permitiu que o meu filho me telefonasse para o hotel. “Pai, estou preso. Não acreditam que viémos entrevistar o Presidente”.

Pergunto-me até hoje qual seria a cara do chefe da polícia quando, 30 minutos depois, chegaram à esquadra membros da guarda presidencial e depois de gritarem ao envergonhado chefe da polícia, pediram desculpa ao meu filho Yair e libertaram-no.

Partimos para o palácio. Quando entrámos no gabinete do Presidente, ouvi uma voz que, com surpresa, me perguntava, quase aos gritos: “Cymerman! O que está a fazer aqui!?”. Era Aldemiro Conceição, chefe de comunicação do Presidente, que desconhecia totalmente a decisão de José Eduardo dos Santos de romper o silêncio de várias décadas. No seu gabinete ninguém sabia da sua decisão.

A entrevista foi longa e fiz-lhe perguntas delicados: sobre a corrupção e a enorme pobreza no país com mais petróleo no continente africano depois da Nigéria; a transição política; a herança sangrenta da guerra civil; as tensões com Portugal.

Quando terminámos a entrevista partimos rapidamente para o aeroporto, perante os olhares surpreendidos dos membros da equipa presidencial. Quando a entrevista foi transmitida na SIC começou uma chuva de reações, sem precedentes durante a minha vida jornalística: desde insultos por me ter atrevido a falar com um “ditador sanguinário" até aplausos de colegas e de espectadores por finalmente ter conseguido que um dos líderes mais importantes da história africana falasse perante uma câmara de televisão.

 



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