Luanda - O aforismo de «lágrimas de crocodilo» tem diversas teorias e origens: científicas, místicas e míticas. No fundo, todas elas têm o mesmo significado, que se resume em manifestações falsas, disfarçadas, hipócritas, fingidas, dissimuladas, enganosas, artificiosas, incongruentes ou misteriosas. No ponto de vista científico, há uma teoria segundo a qual: enquanto o crocodilo estiver a digerir um animal, na passagem deste pela boca e pela garganta pressiona com força o céu-da-boca do réptil, o que comprime as suas glândulas lacrimais, deitando assim as lágrimas dos seus olhos na altura em que estiver a devorar o animal.

Fonte: Club-k.net

Por outro lado, na base da mitologia, existe uma Lenda Africana que conta que, nas margens do Rio Nilo (que nasce no Lago Victória e desemboca no Mar Mediterrâneo, ao Porto Alexandre), na Antiguidade, os crocodilos choravam e faziam ruidosas manifestações de desespero para atrair e despertar a piedade das pessoas que por ali passavam. Logo, os que ficavam atraídos e deslocavam-se ao local ruidoso para constatar in loco, caiam no cerco dos crocodilos e eram agarrados e devorados brutalmente.


Uma outra Lenda medieval, dizia que, os crocodilos costumavam chorar após de devorar alguém, como sinal de fartura, de satisfação e de alegria, disfarçada através de choros e de lágrimas falsas e hipócritas. Na Província do Bengo, na Vila de Caxito, há uma Lenda sobre o «Jacaré Bangão», que supostamente tivera pago o imposto ao chefe do posto do regime colonial português; segundo a fábula, este acto misterioso protagonizado pelo Jacaré Bangão tivera obrigado a administração colonial portuguesa cancelar a cobrança de impostos em toda a extensão territorial do Bengo; o que causou a tristeza e lágrimas aos portugueses por ter perdido uma boa parte de receitas daquela região estratégica.


Na verdade, há muitas historietas, fábulas, anedotas, lendas, contos e narrativas misteriosas sobre os crocodilos, mas nem sempre são boas em relação aos outros animais como a lebre ou a tartaruga, que são considerados como símbolos de sabedoria, da prudência e da astúcia. Esta Reflexão sobre as lágrimas de crocodilo chamou-me atenção aos ambientes turvos e agitados que caracterizam os nossos óbitos africanos, em que os rituais e os modos em que certas pessoas manifestam a sua tristeza, angústia, consternação ou desamparo nem sempre representam os sentimentos reais, honestos e sinceros de pesar ou de solidariedade com a família enlutada. Pelo contrário, há muita hipocrisia, falsidades e maldades que escondem por detrás desses espetáculos teatrais.


Nos nossos óbitos, por exemplo, temos manifestações de xinguilamentos, de choros amargos, de gritarias, de sussurros, de lamurias, de saltitares, de rebolar-se no chão, de resmungar, de lançar piadas, de fazer desmaios, de abstinências, de estar em jejum, de meter-se na cova, e até, o mais grave, de provocar brigas ou de fazer acusações mútuas entre as famílias enlutadas. Acontece que, aquilo que assistimos hoje nos centros urbanos, nos quais os níveis de aculturação e da alienação cultural são elevadíssimos, afastam-se muito das tradições, dos costumes e das práticas dos povos africanos, sobretudo das comunidades rurais, que são verdadeiros repositórios do património cultural da Humanidade.


Devemos reparar que, a morte é o ápice da vida, é sagrada, impregnada de mistérios, que confere a honra e a dignidade ao defunto no momento crítico quando o corpo se separa da alma e do espirito. Durante a jornada fúnebre há o dever de exaltar os feitos (elementos positivos) do defunto, ocultando os seus erros (elementos negativos), que só ficam para a posterioridade. A consagração da morte, na sua qualidade mística, ela é suprema que a vida; esta última, se desponta no acto do nascimento, cuja dimensão circunscreve-se a nível do circulo familiar presente no local do berço. Além disso, o peso da morte é colossal tanto pela sua abrangência quanto pelo seu impacto emocional e psicológico.


Logo, o «contraste» entre os elementos positivos (exaltados na jornada fúnebre) e os elementos negativos (ocultados no período do luto) constitui o elemento enigmático, bastante delicado e complexo, difícil de avaliar o seu alcance, que determina o carácter da pessoa e os valores que são atribuídos ao defunto. Os pronunciamentos e os depoimentos feitos no período de cerimonias fúnebres (dependendo da personalidade) à favor do falecido ficam marcados nas consciências das pessoas, o que se torna difícil inverter os termos a curto prazo, enquanto as memórias estiverem ainda frescas.


Atrás dizia que, os nossos óbitos africanos, em que os rituais e os modos em que certas pessoas manifestam a sua tristeza, angústia, consternação ou desamparo, nem sempre refletem os seus sentimentos reais e honestos daquilo vai na alma desta pessoa, em termos da solidariedade com a família enlutada, ou dos valores do defunto que são enaltecidos. Pois que, os aspectos emocionais induzem as pessoas em manifestar-se positivamente, mesmo que existir uma nódoa escura dentro do seu coração, mas devidos os valores morais e éticos do Direito Costumeiro fica difícil atirar-se abertamente contra o defunto ou contra a família enlutada.


Quem se aventurar (no período de luto) atirar-se contra o defunto ou contra a sua família enlutada arrisca-se ser malvisto; ou seja, remar contra a maré, tendo em consideração as manifestações positivas ocorridas durante o período do luto. Portanto, é aconselhável ter a prudência de lidar com coisas sérias que afectam a consciência colectiva de uma comunidade ou de uma sociedade. Sobretudo, quando se tratar de estadistas ou figuras públicas, que têm peso enorme na sociedade e deixaram um legado visível e indelével.


Em suma, eu creio que, a morte (22-02-2002) do Jonas Malheiro Savimbi e a morte (08-07-2022) do José Eduardo dos Santos, que foram «arco-rivais» durante 23 anos, devem-nos servir de estudo profundo, minucioso e desapaixonado, em todas as dimensões e facetas, para que as suas obras e seus erros ajudem a sociedade perceber melhor os contextos, as circunstâncias e as perspectivas, em termos da visão estratégica, de conceitos filosóficos e dos princípios e dos valores políticos, económicos, sociais e culturais que cada um abraçou e defendeu durante o seu percurso político.


Isso permitirá fazer o juízo de qualidade, e permitir que a justiça seja justa, e o património cultural seja uma herança colectiva, sem discriminação alguma, para construir uma Nação livre, justa, igual, una, indivisível, solidária, prospera, feliz, desenvolvida, democrática e de direito. Em função disso, cada um de nós, como cidadão, filhos da mesma Pátria, deve saber aprender com o nosso passado histórico, tirar lições válidas, fazer o melhor, e evitar cometer os mesmos erros, como daqueles que caiaram nas armadilhas dos “choros traiçoeiros” dos Crocodilos do Rio Nilo, que ficaram apanhados desprevenidos e devorados brutalmente.


Luanda, 18 de Julho de 2022.

 



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