Luanda - Em Maio deste ano, o advogado Sérgio Raimundo afirmou que "quando um intelectual troca a sua dignidade por um prato de arroz com peixe frito, então, este país não tem futuro."


Fonte: José Luís Mendonça


Intelectuais diabéticos e sem dignidade

 

A composição “arroz com peixe frito”, numa análise sob o prisma da função poética da língua, remete-nos para dois horizontes.


Um, histórico, nos leva ao tempo do partido único e da estatização da economia. Com a escassez da produção nacional, os bares só vendiam cerveja a copo com uma senha obtida numa bicha e, por cada dois finos, o cliente tinha de comprar um prato de arroz com peixe frito.


O outro horizonte é actual e mostra-nos o nível da consciência individual e colectiva dos angolanos. O prato de arroz com peixe frito, que se acumulava sobre a mesa do bar, ao lado da bandeja de finos, praticamente não era consumido. A metonímia neste caso representa não propriamente a pobreza do menu, mas a pobreza do espírito humano afeito à corrupção política.


Está tudo muito bem, voltar a comer-se o arroz com peixe frito não resulta em decomposição da saúde. A maka toda é quando esse prato de operário estatizado é manjado pela classe intelectual. Melhor dito, quando muitos (porque não são todos, valha-nos Deus!) intelectuais angolanos se deixam vender por um preço tão irrisório. Poderão alguns contra-argumentar: mas, um cargo de deputado, ou de ministro, um salário na Sonangol não são propriamente arroz com peixe frito! A maka não está no preço da compra da consciência, mas no valor do produto vendido ao corruptor: o peixe-frito representa a anulação do valor da dignidade humana.
Porquê?


Como já disse um dia um dos maiores intelectuais angolanos, o nacionalista Mário Pinto de Andrade, “A vocação própria do intelectual é de situar os problemas essenciais que orientam os destinos do público do seu tempo. (…) Acontecimentos que se colocam no plano humano, social, ou político – três aspectos da cultura. Daí o sentimento de todos nós que manejamos uma pena.”


Já o xará do primeiro presidente do MPLA, o poeta brasileiro Mário de Andrade, se referiu, nos anos 30, ao “estado de consciência” do intelectual brasileiro. Este poeta brasileiro define o intelectual por meio de uma comparação que se tornará famosa: “O intelectual verdadeiro (…) sempre há de ser um homem revoltado e um revolucionário, pessimista, céptico e cínico: fora-da-lei.” Estando em discussão a função social do intelectual, Mário de Andrade considera que o intelectual deve pôr a sua liberdade e capacidade de reflexão a serviço da sociedade.


Chegados a este ponto da análise do fenómeno do peixe-fritismo na compra da dignidade do intelectual angolano, faltou ao advogado Sérgio Raimundo acrescentar a parte final da refeição: a gasosa.


Nos anos 80, nós pagávamos o arroz co peixe frito só para bebermos uns finos. Hoje em dia, vende-se a alma frita com arroz, não já para beber um fino, mas para encher a pança com gasosa (leia-se kumbu do Estado). Ora, como sabemos, a gasosa, bebida sem moderação, não causa embriaguez. Causa diabetes.


O que temos hoje aqui no país é uma colecção completa de intelectuais diabéticos que custam caro à Pátria, não só pelo consumo insaciável da gasosa, mas pelos cuidados que o açúcar no sangue exige do Estado. Neste contexto, como disse Sérgio Raimundo, “então, este país não tem futuro."


A menos que façam o resgate da sua dignidade.



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