Luanda - Zimbabwe tem a taxa mais alta do mundo e consequentemente do continente africano. Ucrânia tem a taxa mais alta da Europa. Argentina ultrapassa a Venezuela e regista maior taxa da América, ao passo que Nova Guiné tem a maior da Austrália e Iémen a mais alta da Ásia. A Fed dos Estados Unidos já reviu quatro vezes a taxa de juros directora, tendo atingido o maior aumento desde 1994, enquanto o Banco Central Europeu aumentou a taxa pela primeira vez em 11 anos. A culpa é da inflação que tem provocado estresse nas economias, obrigando os bancos centrais a alterarem o curso da política monetária.

Fonte: Mercado

Angola consta da lista dos 10 países com as taxas de juros directoras mais altas do mundo, segundo apurou o Mercado, com base nos dados disponibilizados pelos Bancos Centrais e pelo Trading economics, até Julho deste ano.

 

Recentemente o Comité de Política Monetária (CPM) do Banco Nacional de Angola (BNA) decidiu manter a taxa básica de juro (Taxa BNA) em 20%. Com esta taxa, Angola ocupa a 7 posição juntamente com a Libéria dos países com os juros mais altos, numa lista de 168 países do mundo.

 

O Ranking dos 10 países com as taxas de juros mais altas do mundo é liderado pelo Zimbabwe, depois de o banco Central daquele país subir a taxa de juro directora de 80% para 200%, a fim de tentar controlar a galopante inflação, que chegou a ultrapassar os 200% em Julho deste ano. O Zimbabwe abandonou sua moeda em 2009 devido à hiperinflação, embora tenha sido reintroduzida mais tarde, várias moedas são usadas no país, incluindo o dólar americano e o rand sul-africano.

 

Em seguida está a Argentina, com uma taxa básica de juros definida em 60%, em Julho, marcando a sétima alta neste ano, seguida pela Venezuela com uma taxa de 56%.Assim, os três países compõem o Top 3 das maiores taxas de juros do mundo.

 

Constam também da lista dos 10 países com as maiores taxas: Iêmen (52%), Ucrânia (25%), Sudão (23,8%), Angola (20%), Libéria (20%), Gana (19%) e Moldávia (18,5%).

 

Se compararmos as taxas de cada continente, Zimbabwe, por ter a maior taxa do mundo, tem também a maior taxa do continente africano. Seguido do Sudão, Libéria, Angola e Gana, foram o top5 das taxas mais altas de África. Já Cabo Verde, tem a taxa mais baixa do continente berço, o Banco Central do arquipélago decidiu manter a taxa de juros em 0,25%, também a mais baixa da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), num ranking em que Angola tem a maior taxa.

 

A nível da Europa, verifica-se que a Ucrânia tem a taxa de juros mais alta, desde a invasão russa o Banco central só elevou a taxa básica de juros em Junho, passando de 10% para 25%.Em Julho, o País dirigido por Volodymyr Zelensky registou uma inflação de 21,5%, a mais alta dos últimos seis anos. Com uma taxa de juros de 10,75%, a Hungria tem a taxa de juros mais alta da União Europeia. Já a Suíça e Dinamarca têm as taxas mais baixas do continente, ou seja, taxas negativas (-0,25 e -0,1%, respectivamente). A estes países juntam-se o Japão também com uma taxa de juro de 0,1% e foram os três países do mundo com taxas de juros negativas.

Ainda no velho continente, a Zona euro (que engloba 19 países da união europeia incluindo, entre outros, Alemanha, França, Espanha, Itália e Portugal) encontra-se na quarta posição das taxas mais baixas( incluindo as taxas negativas), depois de o BCE, dirigido Christine Lagarde subir a taxa de 0% para 0,5%, em Julho, o primeiro aumento em mais de dez anos para tentar controlar a inflação.

Quanto ao continente americano, Argentina e Venezuela com 60% e 56%, respectivamente, têm as maiores taxas de juros e também as maiores taxas de inflação da América. Segue-se ainda o Haiti (17%), Brasil (13,25%) e Suriname (10%). Juntos formam as cinco maiores taxas do continente.

O ranking das taxas mais baixas da América é liderado pela ilha dos Barbados com uma taxa de 2%, seguida pela Belize e Cuba, ambos com uma taxa de juros de 2,25%.

Os Estados Unidos surgem na sexta posição com taxa de juros de 2,5%, depois de a Reserva Federal (Fed), liderado por Jerome Powell elevar 0,75 pontos na taxa de juros oficial, em Julho último. Foi o quarto aumento desde que o Fed começou o actual ciclo de alta dos juros em Março. O aumento de 0,75 ponto na taxa não era registados desde 1994, quando, sob a liderança do histórico Alan Greenspan, o banco central americano implementou uma série de aumentos para tentar evitar que a inflação saísse do controle. Na época, a inflação chegou a 2,7%, enquanto em Junho deste ano atingiu 9,1%, algo não visto em 40 anos.

Com uma taxa de juros de 27%, o Iémen tem a maior taxa da Ásia. Na sequência surge o Irão com uma taxa de 18% e o Uzbequistão com 15%. O Japão é o único país da Ásia com uma taxa negativa e a Tailândia, com 0,5% tem a taxa mais baixa. A China mantém uma taxa de 3,7% desde Janeiro, tendo reduzido de 3,8%. Em relação à Áustria, Papua Nova Guiné tem a taxa de juros mais alta com 3% e Fiji a mais baixa, com 0,25%.

Aparentemente o aumento dos juros é a única forma de se tentar controlar a inflação, diz Alves da Rocha

“Aparentemente é a única forma de se tentar controlar a inflação, pois ainda não se encontrou a fórmula ideal de conter os preços dentro de limites economicamente aceitáveis e socialmente suportáveis sem ser através da política monetária, e neste caso especial, por intermédio da taxa de juro”, afirmou o economista e director do Centro de Estudos e Investigação Científica (CEIC) da Universidade Católica de Angola, Manuel Alves da Rocha em declarações ao Mercado.

Segundo Alves da Rocha, os países africanos perderão um mercado significativo para as suas dinâmicas de crescimento, que pode não ser integralmente substituído pela Zona de Livre Comércio Africana.

“Os países africanos produtores de petróleo devem aproveitar as folgas trazidas pelo substancial aumento do preço do barril de petróleo para promoverem as transformações estruturais que tardam há muito tempo. Duas das mais determinantes em Angola são a revolução na educação e o desenvolvimento da investigação (portadora de inovação e de dinâmicas transformativas) ”, argumenta.

Quanto à decisão do BNA em manter a taxa de juros em 20% para controlo da inflação, o economista explica que se o objectivo primordial do BNA é o controlo da inflação através da política monetária, então não haverá como, senão pela elevação da taxa de juro, cujo valor real ainda permanece negativo.

“Mas esta função de estabilidade dos preços conflitua com a do estímulo ao investimento privado, fundamental para promover alguma aceleração da dinâmica de crescimento da economia. E a economia nacional não pode contar apenas com o investimento público, que de resto tem vindo a diminuir no que toca à sua componente de stock de capital fixo directo para o take off sustentado da base produtiva nacional”, disse.

De acordo com o também membro da Ordem dos Economistas Angolanos, o investimento privado estrangeiro continua muito renitente em procurar Angola, porque os seus líderes empresariais ou bancários entendem não existirem condições institucionais, sociais e económicas atractivas.

“ Esta limitação e constrangimento consta de diferentes estudos elaborados por instituições internacionais, algumas das quais até estão a apoiar o Governo na alteração do ambiente de negócios do país”, refere.

Questionado se o BNA vai conseguir atingir a meta de um dígito no curto prazo, segundo anseia o Governador do BNA, José de Lima Massano, Alves da Rocha defendeu o seguinte: “Tudo depende do que é o curto prazo: um mês, um semestre, um ano, dois anos? Tudo isto é curto prazo. Mas o que é facto é que sem se controlar a inflação, as taxas de juro têm de continuar a ser ajustadas em alta. Caso Angola conseguisse contrariar o actual movimento ascendente do preço do dinheiro na Europa, talvez pudesse atrair, por este viés, investimento estrangeiro”.

“Angola continua a ser um país periférico para os investidores estrangeiros, preferindo estes dirigir os seus capitais e as suas poupanças para países africanos com outros argumentos, como o Egipto, a Tunísia, o Quénia, a Tanzânia, a África do Sul e mesmo a Nigéria, onde a tradição de estabilidade macroeconómica é mais estrutural e consistente do que em Angola”, rematou.

Por sua vez, o Já representante do Fundo Monetário Internacional (FMI) em Angola, Marcos Souto, considera a medida do BNA como prudente.

“O BNA apertou significativamente a política monetária em Julho de 2021 face à inflação elevada, o que foi um movimento prudente, conforme observado no nosso relatório de Dezembro de 2021. A queda recente da inflação – auxiliada pela valorização do Kwanza – faz com que Angola seja um dos poucos países do mundo onde a inflação está efectivamente a desacelerar. De um modo geral, acreditamos que os atuais planos do BNA para reduzir a inflação continuam prudentes”.

De acordo com Marcos Souto as s projecções projecções do indicam que a inflação pode atingir 18% até ao final de 2022 e 12% até ao final de 2023.

“Em nossas últimas projeções, esperamos uma inflação de um dígito até 2024, embora isso esteja sujeito a revisão. Enquanto acreditamos que este objectivo seja alcançável, existem riscos relevantes como o aumento dos preços dos alimentos e fertilizantes ou a desvalorização da taxa de câmbio que podem afectar a inflação em Angola de forma temporária”, aponta.

Quanto ao desafio os desafios para a economia mediante ao cenário actual, o membro do FMI apontou o seguinte: “[Os] riscos para as perspectivas são predominantemente inclinados para o lado negativo. A guerra na Ucrânia pode levar a uma interrupção repentina das importações de gás europeu da Rússia; a inflação pode ser mais difícil de derrubar do que o previsto se os mercados de trabalho estiverem mais apertados do que o esperado ou se as expectativas de inflação se desprenderem; condições financeiras globais mais restritivas podem induzir sobre-endividamento em mercados emergentes e economias em desenvolvimento; surtos e bloqueios renovados de COVID-19, bem como uma nova escalada da crise do sector imobiliário, podem suprimir ainda mais o crescimento chinês; e a fragmentação geopolítica pode impedir o comércio e a cooperação globais.

Marcos Souto , representante do FMI em Angola

O BNA apertou significativamente a política monetária em Julho de 2021 face à inflação elevada, o que foi um movimento prudente, conforme observado no nosso relatório de Dezembro de 2021. A queda recente da inflação – auxiliada pela valorização do Kwanza – faz com que Angola seja um dos poucos países do mundo onde a inflação está efectivamente a desacelerar.

Alves da Rocha , Economista- CEIC

Os países africanos produtores de petróleo devem aproveitar as folgas trazidas pelo substancial aumento do preço do barril de petróleo para promoverem as transformações estruturais que tardam há muito tempo. Duas das mais determinantes em Angola são a revolução na educação e o desenvolvimento da investigação (portadora de inovação e de dinâmicas transformativas).

 



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