Luanda - Por estes dias acabei de ler um livro que recomendo, não é um livro fácil, chama-se “Cartas do Pai” e é feito, justamente, das cartas de pais vítimas do terror estalinista e do Gulag que pedem aos filhos, entre outras coisas, que sejam curiosos, que estudem, que aprendam, muito. E muitos desses filhos que viram ou pressentiram os pais arrastados para o martírio, para a indignidade e para a morte, tudo fizeram para que os pais se orgulhassem deles, servindo, na sua maioria, a União Soviética e depois a Rússia como cientistas reputados ou quadros superiores das instituições do Estado.

Fonte: Club-k.net

“A maioria dos pais que escreviam cartas aos filhos nunca mais os viram”. Foi um momento dilacerante da história de um país que não ficou só nas décadas de 1930 e 1940. Ainda perdura. (E deixem-me só acrescentar que os 16 pais de que trata o livro, além de um operário assumidamente trotskista, eram cientistas ou intelectuais acusados de quase nada, ou seja, os tchekistas não se desfaziam de pessoas quaisquer).


E vem tudo isto a propósito... sim, de Marcolino Moco. Mas, e antes disso, o 27 de Maio de 1977 e a dificuldade que o MPLA tem de lidar com o assunto, também porque dentro do partido e do aparelho de Estado permanecem muitos dos que ainda hoje consideram que os milhares de mortos foram “o necessário sacrifício à utopia”.


Hoje, através das redes sociais e do WhatsApp recebi as mais desprezíveis imagens tendo Marcolino Moco como tema. O desrespeito é absoluto. Claro que o exemplo, ou mau exemplo, foi dado há muito, quando o mais alto magistrado da nação passou por cima do seu antecessor sem dó nem compaixão, movido por um sentimento, que quer se queira quer não, soa mais a vingança do que justiça.


Sendo que uma das imagens que mais me chocou, pela ignomínia, foi a reprodução ad nauseam do momento em que Ana Dias Lourenço colocou o cachecol do partido sobre os ombros de Marcolino Moco, algures em 2017, e ele se emocionou sincera e profundamente. Só espíritos torpes se permitem interpretar aquele momento como um momento de profundo cinismo ou hipocrisia.


Tive a oportunidade, aliás, o privilégio, de entrevistar Marcolino Moco no final desse ano de 2017. Moco acreditava, pelo menos naquela altura - embora de forma prudente e com algumas reservas - no mesmo que tantas angolanas e angolanos acreditavam, que João Lourenço iria acabar com o eduardismo – não confundir com acabar com José Eduardo dos Santos – e iniciar uma etapa mais prometedora na vida do país, corrigindo o que estava mal – o não que também não deve ser confundido só com José Eduardo dos Santos à frente dos destinos de Angola durante quase quarenta anos, embora, para Moco, esse era o maior entre todos os males.


Entretanto, passaram cinco anos e, contas por alto, um ano depois já João Lourenço tinha perdido o estado de graça com que tinha iniciado o seu mandato; dois anos depois era evidente para Marcolino Moco (voltei a encontrá-lo e falamos brevemente) que João Lourenço era, de facto, a evolução na continuidade, assumida pelo próprio, mas essa evolução fazia-se com o mesmo guião da governação de José Eduardo dos Santos, fazendo parecer que era diferente porque Dos Santos foi atirado para o exílio, onde os médicos lhe tratavam dos males do corpo e a solidão, pessoal e institucional, lhe lambia as feridas da alma.


E Moco percebeu tudo isto antes de muitos de nós. E não o escondeu, o seu desencanto ou mesmo o seu espanto perpassam pelos seus posts no Facebook. Mas, ontem, foi mais longe, percebeu que se revê mais no projecto inclusivo e multicultural, ou se quisermos multiétnico, de Adalberto Costa Júnior do que no projecto do seu partido, o MPLA. Entrou no tempo de antena da UNITA e explicou porquê. Foi o seu momento “versículos satânicos”.


O edito foi proclamado e logo os muftis do regime decretaram as suas sentenças, a sua interpretação da lei sagrada, que, como sabemos, é só uma: a do MPLA. Mas bem pior do que eles, foi o desrespeito com que criaturas, que a única coisa que fizeram pelo país foi servir o MPLA para se servirem a si mesmos, trataram o antigo primeiro-ministro e ex-secretário-geral do partido. Até parece que estou a ouvir a voz do meu avô na cabeça: “mas quem é que essas bardamerdas pensam que são?”.


Um Luanda, fiz vários amigos, acho... até fiz um amigo que na verdade se revelou a minha Némesis, mas não tem importância, passou, mas nunca fiz amigos entre os militantes da UNITA, com esses as relações forma sempre profissionais e muito cordiais, fui sempre muito bem tratada, com um respeito enorme, que eu retribuí. Os meus amigos angolanos estão entre as pessoas do partido do poder – por acaso, aconteceu - com quem tenho profundos debates, tensos mas fraternos. Eles nunca desistem de me convencer das virtudes do MPLA e dos vícios da UNITA, e eu não cedo, insisto nos vícios do MPLA. Mas eles sabem, eu sei que sabem, que, acima de tudo, estou formatada pelo meu modelo de democracia, onde a alternância tem sido uma virtude e um vício, à vez.

Agora, e sempre que me perguntam: “Quem é que achas que vai ganhar as eleições em Angola?”, respondo: “Não sei quem é que vai ter mais votos, mas posso dizer-te quem é que vai ganhar...”

 



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