Luanda - A história é a narração crítica e pormenorizada de factos sociais, políticos, económicos, militares, culturais ou religiosos, que fazem parte do passado de um ou mais países ou povos. No fundo a história é o ramo do conhecimento que se ocupa do estudo do passado, da sua análise e interpretação. A história tem a ver com a evolução da humanidade em termos da origem e do progresso alcançado na ciência, na tecnologia, na arte, ou noutros conhecimentos, que servem de base fundamental da civilização humana.

Fonte: Club-k.net

Sendo assim, os que escreve a história devem ser pessoas integras, honestas e idóneas, dotadas de conhecimentos técnico-científicos para pesquisar, estudar, analisar e interpretar fielmente os dados obtidos, sem manipular, sem distorcer ou sem ocultar os elementos essenciais, que permitem fazer uma leitura correcta dos acontecimentos do passado, interpretá-los e perspetivar o futuro. Os dados históricos são fundamentais e determinantes para prever a evolução da humanidade, do meio ambiente e do Universo.


O comportamento das pessoas, dos povos ou das nações permite fazer uma leitura daquilo que foram no passado, daquilo que são no presente e daquilo que poderão ser no futuro. A evolução do Homo Sapiens, por exemplo, tem sido um alvo de estudo permanente e consequente de diversas ciências, sobretudo do ramo da antropologia, da paleontologia e da arqueologia, que nos fornecem dados milenares que estão depositados e conservados pela natureza.


Repare que, a história funda-se em dados reais e materiais, e permanecem no tempo e no espaço, como parte da civilização humana, cujas fontes são multiformes, que permitem fazer um estudo comparativo. Para dizer que, os que escreve a história não devem fazê-lo para satisfazer a vontade circunstancial de uma pessoa singular ou colectiva; mas sim, deve buscar os factos reais, analisá-los e interpretá-los fielmente conforme são. Sim, pode inverter e distorcer a história; mas os factos da história permanecem intactos, porque as suas fontes são numerosas, diversas e bem espalhadas, que se torna difícil apaga-los completamente. A história nacionalista do continente africano, encoberto na luta anticolonial, redundou-se no neocolonialismo e nas ditaduras, piores que o colonialismo europeu.


No caso concreto, por exemplo, os acontecimentos dramáticos das duas guerras mundiais (1914-1918 e 1939-1945), por mais esforços que foram feitos por potências vencedoras no sentido de distorcer ou escamotear a realidade dos acontecimentos, mas devida a força da história, a verdade tem estado a vir à superfície. Isso tem permitido obter novos dados fiáveis no sentido de rever a história, registar os factos e interpretá-los correctamente. Aliás, das potências vencedoras da Guerra Mundial II, o mundo está neste momento perante o genocídio, a ocupação e a anexação dos territórios de Estados soberanos, como está a acontecer agora na Ucrânia, em pleno Século XXI. Ora bem, nessas circunstâncias, qual é a diferença entre a doutrina do Adolfo Hitler e a doutrina do Vladimir Putin? Tudo isso indica que, a história é teimosa, tem a dinâmica intrínseca e indomável, que lhe permite trazer os factos à superfície, por mais tempo que levar.


Esta abordagem vem a propósito devido o modo como a história contemporânea de Angola tem sido escrita e interpretada por diversos círculos, as vezes sem o rigor técnico-científico e sem isenção. Pois, a elaboração de uma história isenta e realista requer o bom senso, sobretudo a integridade intelectual na interpretação dos acontecimentos. Porque, uma história tem a ver com a vida das pessoas, que têm o domínio da informação, com capacidade elevada de julgar objetivamente a interpretação dos acontecimentos.

Por isso, quem escrever uma história deve recolher um numero razoável de dados disponíveis e essenciais e colocá-los na peneira, de modo a ordená-los, cifrá-los, classificá-los, relacioná-los, estudá-los, analisá-los e interpretá-los sistematicamente. Não deve haver preconceitos e a adulteração dos dados; sim, deve-se manter a sua originalidade. É importante salientar que, a história é uma ciência regida por leis próprias que regulam e orientam o processo da recolha de dados, do estudo, da análise, da interpretação e da composição de textos literários.


Por outro lado, a história não visa doutrinar as pessoas, mas sim, relatar os factos históricos, estar próximo dos acontecimentos dos factos, fazer uma interpretação rigorosa e objectiva, que não seja o dogma. Deve existir um espaço livre de pesquisa e de aprofundamento de dados escritos para que os outros estudiosos, académicos ou cidadãos comuns versados na matéria consigam aprofundar a pesquisa e o estudo. Pois, a história é um processo contínuo e inacabado, porque a cada época histórica surgirão outros dados que estavam ocultados, imaturos ou classificados, fora do alcance dos historiadores da época.

Na verdade, a história é uma cronologia lógica, um encadeamento regular ou coerente das ideias e das coisas, na base do conhecimento científico que ajuda evitar incorrer em contradições e em erros do raciocínio e da interpretação dos acontecimentos. Na base disso, a história deve corresponder aos factos e a sua interpretação deve ser factual e coerente, para não se mergulhar no abstrato e na tendenciosidade.

Em forma mais concreta, diria que, a história de Angola é como um Paraíso cheio de rosas, onde o pecado e a desgraça reside na Eva, uma cobra encantadora, que era uma fruta mais deliciosa do Jardim de Éden, que seduziu o Adão a cometer o pecado, que resultou na desgraça eterna do ser humano, e cuja salvação passara por via do sacrifício do Filho de Deus, Jesus Cristo, que foi crucificado no Monte Calvário, em Jerusalém. Esta História misteriosa das Escrituras Sagradas, que ainda é uma realidade da vida humana entre o homem e a mulher, baseia-se no machismo dogmático. Isso tivera sido o fruto da interpretação mítica e preconceituosa de então, em relação a génese da humanidade e a supremacia masculina. Que, no fundo, vendo pela realidade, não se baseou na inteligência masculina, mas sim, na estatura física do homem; só que, o homem, apesar da sua estatura física, mas não aproxima, nem um bocadinho, da astúcia, da subtileza e do génio feminino.


Em Angola existem três preconceitos abstratos que assentam na lógica da existência dos «bons e dos maus»; dos «superiores e dos inferiores»; e dos «legítimos e dos ilegítimos». Na Roma antiga, por exemplo, existiam duas classes distintas, sendo: Patrícios – que eram a classe privilegiada da aristocracia, que tinha exclusivo direito da cidadania, e com acesso absoluto à riqueza. A outra classe era composta por Plebes, que eram o Povo, na generalidade; que não tinha direito à cidadania; vivia à margem da sociedade e em condições da penúria e da pobreza extrema. A História Romana era escrita pela aristocracia para defender os interesses da sua classe. Aos Plebes cabiam-lhes o dever e a obrigação de sujeitar-se à soberania da Realeza e da Cúria Romana, que eram duas Instituições mais poderosas do Império Romano.

Logo, quando olhar à sociedade angolana, em termos de direitos, de deveres e de liberdades, verás que existe de facto duas classes distintas em Angola, com características que assemelham as da Roma antiga. Na qual, uma classe tinha tudo e era o dono exclusivo do direito, da legalidade, da cidadania, da riqueza e da soberania, além de possuir o poderio militar, com que forçava a Plebe defender o Império Romano, que estava em plena expansão na Europa, no Norte da África e no Médio Oriente.

Nesta Senda, em Angola, a história pertence à classe dominante que tem o poder financeiro e o poder militar que lhe permite financiar os historiadores, os pesquisadores e a classe intelectual para adulterar e manipular a história e registá-la de acordo com a sua vontade política, sob o princípio fundamental de «imputar toda a responsabilidade aos outros», enquanto eles ficam com as mãos limpas, impondo-se sobre a sociedade, como poder legítimo, que não presta contas a ninguém.

Neste respeito, há um livro que a Assembleia Nacional mandou publicar em 2021, intitulado: “História e Vivências do Parlamentarismo Angolano,” sob a autoria da Prof. Doutora Elisabete Azevedo-Harman, uma personalidade prestigiosa, que trabalha há muitas décadas com as Nações Unidas, com conhecimentos largos sobre a História dos Parlamentos de muitos Países Africanos, sobretudo do PALOP. Efectivamente, se trata de um livro bem sintetizado, com muitos dados sobre Angola desde o período colonial até 2021. É um trabalho perfeito que toca em muitos aspectos sensíveis e traz a superfície alguns acontecimentos tristes, como a prisão ilegal, brutal e injustificada dos cinco Deputados da UNITA (Manuel Savihemba, Carlos Alberto Calitas, João Vicente Viemba, Daniel José Domingos e Carlos Tiago Kandanda), detidos em Janeiro de 1999, com suas imunidades parlamentares; mantidos na cadeia durante dez meses, sem culpa formada.

Note-se que, os cinco Deputados foram acusados (gratuitamente) da co-autoria de rebelião armada contra a segurança do Estado, e de cumplicidade nos ataques terroristas contra as populações indefesas nas cidades do Cuíto, Huambo e Malange. Acontece que, de um acontecimento desta dimensão e gravidade, do Proc. Nº 05/99, da Câmara Criminal do Tribunal Supremo, a Assembleia Nacional apagou e eliminou deliberadamente toda a documentação e todos os arquivos relacionados com este processo. Não existe nenhum registo sobre este processo em todas publicações feitas pela Assembleia Nacional no período de 1999 até 2022. Curiosamente, não se sabe onde e como a Doutora Elisabete Azevedo-Harman teve a coragem de trazer a lume este Processo conturbado. Veja que, ela teve o acesso às «cartas confidenciais e secretas» entre o Presidente da Assembleia Nacional, Doutor Roberto de Almeida e o Procurador-Geral da República, Doutor Domingos Culolo.

Todavia, apesar de tudo isso, que foi um esforço gigantesco por parte da autora do Livro, mas ela não escapou de cair na armadilha do princípio fundamental do MPLA de imputar todas as responsabilidades do conflito angolano aos seus arcos adversários, a FNLA e a UNITA, no que diz respeito a violação dos Acordos do Alvor, a desagregação do Governo de Transição e a intervenção das tropas estrangeiras (Cubanas, Zairenses e Sul Africanas) em Angola. Infelizmente, ela faz uma interpretação histórica que está em sintonia com a Doutrina do Estado-Partido, em que, o MPA é tido como Estado e como Nação, confundindo a evolução partidária com a construção do Estado e dos Órgãos de Soberania. A «transição», na lógica deste livro, aparece em forma da «continuidade» do parlamentarismo colonial português ao sistema do Partido Único do MPLA, cujos órgãos partidários se transformaram em órgãos de soberania do Estado, que continua até a este momento, sob a autoridade suprema do Partido.

Infelizmente sobre este «período de transição do parlamentarismo angolano», não se fez nenhum estudo paralelo sobre a existência da UNITA; sobre os seus Órgãos de Soberania; sobre o 70% do território sob seu controlo; sobre a população deste vasto território; sobre a Capital Jamba, que se transformou no centro da diplomacia internacional durante a guerra fria; sobre a presença na Jamba da Embaixada Norte-americana; sobre o reconhecimento da UNITA pelas Potências Ocidentais e pelas Nações Unidas, como sendo um parceiro legítimo e legal; e sobre as Representações Diplomáticas da UNITA acreditadas junto dos Governos Ocidentais, como por exemplo, em Washington, Nova Iorque, Vaticano, Londres, Paris, Bruxelas, Lisboa, Bona, Madrid, etc.

Tristemente, é preciso afirmar que, os esforços de incutir ou induzir o “preconceito” dos “bons e dos maus,” tem sido feito sistematicamente a todos os níveis, até nos manuais escolares, em que as crianças de tenra idade passam por lavagem cerebral, criando nelas um fantasma de ódio visceral, assente na intolerância, na diabolização, na exclusão, no revanchismo, na hegemonia e no monopólio.


Essa é a História de Angola, que exclui, que discrimina e que divide a Nação Angolana em duas partes, entre os Patrícios e os Plebes. Com efeito, para superar este «preconceito perverso» seria incongruente pôr de parte a «luta de classes», que deve ser feita dentro dos mecanismos do sistema democrático, para que o povo tome a consciência da sua condição social, política e económica, de modo a libertar-se do neocolonialismo, para que, seja possível escrever a História inclusiva e real de Angola, de que, ninguém fica excluído.

Luanda, 30 de Setembro de 2022.

 



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