Luanda - Cheguei apressada, entrei na sala e o meu tio disse-me que eu estava bonita. Agradeci a preceito, fugindo rápido do assunto, pois as minhas makas com o espelho hão-de, certamente, morrer comigo.


Fonte: NJ

Há coisas que quando partimos vão connosco, boas ou más, levamos na nossa memória, assim como deixamos na dos outros. E embora se romantize, na maior parte dos casos, os mortos em lembrança, existem pormenores que não devem ser relegados sob o risco de serem considerados miragens espirituais ou ímpias profecias.


Sente-se na fala do meu tio, que é um regozijo ter nascido em África e ser negro, ainda que por aqui a mestiçagem tenha diversas conotações, subordinações pejorativas. Ele escreveu recentemente que Angola é uma África diferente e mais nova e quão bonito é ouvir isso de alguém que já viu e deu tanto e ainda tem muito para ver, apresentar e amar.


Tem quase 81 anos com uma clarividência digna de vénia e ideias transformistas de uma doce criatividade, que provocam uma erupção de euforia e nostalgia.


Pediu-me para ler em voz alta a tradução que ele mesmo fez de "Je te remercie mon dieu de m"avoir crée noir" do ivoriense Bernard Dadié. Enquanto a minha voz saía entusiasmada com a força do clímax literário, o rosto do meu tio virou uma paisagem de pranto encantado. Abracei-o prontamente pela volúpia da ocasião e pela grandeza das estrofes de Dadié, que muitos africanos que se querem ocidentais ou apologistas da visão eurocentrista deveriam tomar para si. É, na verdade, uma leitura obrigatória para todos nós, que, em determinado momento, já pensamos em ter o nariz mais fino, o cabelo mais liso e uma tez mais clara para saudar as oportunidades do mundo, contrariando a nossa identidade e doutrina.


EU AGRADEÇO-TE, MEU DEUS!
Eu agradeço-te, meu Deus
Por me teres feito negro.
Por me teres feito
A soma de todos os sofrimentos,
Teres colocado sobre a minha cabeça
o mundo.
Eu tenho a pintura do Centauro
E carrego o mundo
Desde a primeira
manhã.
O branco é uma cor de circunstância
O negro, a cor de todos os dias
Eu agradeço-te, meu Deus
Por me teres feito negro.


Gente há que não entende o valor da arte e o que ela representa para as pessoas. É inegável o que o contexto da cultura revolucionária, significou para os africanos durante as guerras e repressão colonial.


Os europeus chegaram como bravos guerreiros sob os auspícios da civilização, mas levaram o que a natureza outorgou, levaram a afirmação de nos vermos como seres da mesma forma e padrão, enclausuraram as nossas tradições e fizeram-nos crer que, além de inferiores, somos vis para experimentar a autonomia, o sucesso e as glórias da humanidade que pela sua mão vive eternizada e suspensa em ameaças.


Desde o dia 08 de Setembro que se pranteia a morte de Elizabeth II, mas África não carrega a mesma afeição e consenso.


No seu elitismo segregacionista, os jornalistas europeus não tocam no assunto para não desmanchar a coroa da monarquia que tem acoplado aos diamantes africanos sangue e suor da nossa gente. Entre 1912 e 1915, o povo de Giriama bateu-se contra as forças coloniais britânicas no Quénia. A Companhia Imperial Britânica da África Oriental (Imperial British East African Company - Ibea), autoridade colonial no território, havia aprofundado a sua pressão económica contra o povo de Giriama ao cobrar impostos sobre habitação e ao fazer um controle mais rígido sobre o comércio.


Era o tempo das companhias majestáticas. Criadas no âmbito das conquistas coloniais, exerciam o poder público nas colónias e tinham o monopólio de exploração das regiões. Mas era também o tempo em que os povos se emergiam para revindicar a sua liberdade e riqueza. Em 1952, o grupo étnico queniano Kikuyu protagonizou a revolta Mau Mau e, numa luta que durou até 1956, morreram mais de onze mil Kikuyus, que reclamavam a posse das suas terras.

Um dos sobreviventes, hoje com 98 anos, disse na semana passada, em entrevista à Globo News, que perdoar é algo que como cristão ele acredita, mas não acredita no esquecimento e, por isso, não vai esquecer os sete anos em que esteve preso pela mão do atroz colonialismo britânico.


As histórias que se querem omitir a todo o custo são muitas, perante o descaso internacional que estabelece a monarquia britânica como uma instituição gloriosa.


A Grã-Bretanha não pediu desculpa aos africanos como a Austrália fez aos aborígenes e não tem capítulos na sua história em que reconheça que espoliou e massacrou o continente de forma trágica. Ocultar as nossas vozes tem sido comum, desde os ditos descobrimentos, mas não nos peçam para rasgar ou deitar para baixo uma narrativa recente que tem alma, olhos, reminiscência e sentimento só porque parece interessante e primordial. E, se a morte é, de facto, a nossa única certeza, sejamos majestosos para admitir que a rainha é só mais um ser humano que cumpriu o seu percurso na terra.

 

 



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