Luanda - "Angola é uma África diferente", escrevem calmamente nas suas posturas de esfinges gregas os Assimilados e os Brancos do Jornal de Angola, como se todos os outros países africanos fossem uma África idêntica. Mas por "diferente" querem no fundo dizer que Angola é um país que convém aos lusotropicalistas e afro-convenientes que são. E, por outras palavras, provam com estas palavras que Angola é um país escandalosamente estranho e ambíguo para a grande maioria dos angolanos não assimilados e ainda africanizados. Esses guardiões do templo da assimilação dos angolanos à cultura portuguesa e crioula defendem ferozmente uma Angola idêntica ao seu mundo e aos imaginários herdados do colonialismo português, na sua cultura e ontologia, e do lusotropicalismo do Brasil recebido de Freyre. Defendem, portanto, um país que convém à elite aculturada a que pertencem, ou seja, uma Angola longe de África e da sua civilização. Este é o sentido que dão a "Angola é uma África diferente". Que o MPLA facilitou o advento de tal realidade neocolonialista em Angola já não é discutível. Mas é também por esta mesma razão que é um partido político morto desde o 27 de maio de 1977. Se ainda exibe uma aparência de existência, é antes de tudo graças à Guerra Civil, que o protegeu, visto que o país estava em suas mãos durante esse tempo e já podia reinar como partido absolutista. E também, desde o fim desta guerra em 2002, porque Angola tem uma oposição fraca; uma oposição sem sagacidade, sem mordida ou capacidade de invenção. Mas desde 2002, essa morte já deveria ter sido revelada em plena luz do dia, porque, geralmente, nenhum partido político saiu bem de uma situação criminosa de tal magnitude como aquela em que se encontra o MPLA desde o que a história chama agora de 27 de maio. Recordemos que Estaline difamou o Partido Comunista da União Soviética (PCUS) com os seus crimes, plenamente revelados pelo relatório Khrushchev em 1956, que manchou a credibilidade do comunismo internacional, criticado em particular por intelectuais esclarecidos como Jean-Paul Sartre ou Aimé Césaire. O PCUS sobreviveu até 1991 graças à ditadura que impôs, que o tornou o único partido legal até 1989, e porque detinha todo o poder económico, como o MPLA.

Fonte: Club-k.net


Assim, em tempos normais, num país aberto e livre, o crime cometido pelo MPLA já teria mostrado aos angolanos a sua inadequação para os governar e teria-lhes dito sobretudo que este partido, o MPLA, criado pelos filhos dos colonizadores e negros assimilados, jamais poderia emancipar Angola do colonialismo. O MPLA era a antecâmara que daria continuidade à colonização do povo angolano, Rosa Coutinho reconheceu isso, em várias ocasiões e à sua maneira, e bastaria ler os textos de Viriato da Cruz para o entender e também compreender as razões da sua saída desse partido e do seu país, Angola, e finalmente para compreender, acima de tudo, com clareza, as verdadeiras razões que levaram o MPLA a assassinar milhares de angolanos, a partir de 27 de Maio de 1977, para que Agostinho Neto e os seus companheiros brancos e mestiços estabelecessem o neocolonialismo em Angola. Porque Viriato da Cruz já desconfiava do projecto de Neto, que estava cercado de brancos e mestiços, quando ele mesmo, Viriato da Cruz, era mestiço? Foi torturado pelo MPLA em Kinshasa por ter ousado opor-se a este projecto neocolonialista. Então não, num país sério, de maioria negra, que não pensa com o ventre e que não se deixa levar pelo populismo, num país onde o racismo antinegro é flagrante e, sobretudo, onde ninguém tem a coragem de admiti-lo, um candidato mestiço não teria chance de o governar sem dar sérias provas de confiança e propor um contrato social concreto e tranquilizador voltado para a África e a africanidade. A desconfiança de Viriato da Cruz permanece entre os angolanos de boa fé e lúcidos, mas não têm coragem de assumi-la. O mestiço da lusofonia ainda é problemático e o nosso está entre os menos preparados para reconhecer a beleza do negro e a africanidade, porque as rédeas da cultura e da intelectualidade do nosso país estão totalmente nas mãos de brancos e mestiços, e de alguns negros aculturados que sonham de serem brancos, que continuam a difundir uma cultura que perpetua os imaginários colonialistas. O nosso mestiço goza de um estatuto especial em Angola, Viriato da Cruz já o sabia e todos o sabemos hoje também. Por causa do complexo do seu pai ou da sua mãe, negro ou negra, geralmente a mãe, sem instrução e que, infelizmente, perpetua inconscientemente os imaginários medievais, muito cristãos, que afirmam que o que é negro é mau e o que é branco é bom, o seu filho geralmente é criado como uma criança especial, portanto diferente das crianças negras, e como uma criança que veio salvar a sua raça, a da sua parte negra, como ainda ouvimos em algumas famílias. Essa criança é então criada para estar o mais próximo possível da cultura do seu pai ou da sua mãe brancos, em geral o pai, e sabe-se lá porquê! Ele preservará assim a sua cultura, a língua e às vezes até os gestos e tiques. E o que será dessa pessoa na sua convivência com os negros depois de tal educação, se ela não se salvar milagrosamente por um ascetismo profundo e doloroso? Seria chocante se um angolano ciente dessa realidade, negro ou não, desconfiasse da possibilidade de um presidente mestiço? Não, esse angolano teria o direito de ser cauteloso e até teria o direito de exigir garantias antes de lhe dar o seu voto. E o que nos ofereceu Adalberto Costa Júnior sobre este importante assunto para a sua candidatura à presidência de Angola? Uma coligação com um potencial vice-presidente, Abel Chivukuvuku, que foi dizer com feliz emoção, durante uma entrevista na RTP África com Isabel Silva Costa no ano passado, que Angola é um país irmão de Portugal? Mas o que é irmandade? Será o facto de todos os membros da elite angolana terem nacionalidade portuguesa? Ou será por ela só sonhar com uma mulata? E eu achava que essa neurose de inventar laços de parentesco com os portugueses era prerrogativa dos alienados do MPLA! Porque mesmo os americanos que salvaram a Europa com o Plano Marshall não são chamados de irmãos pelos europeus, com os quais, no entanto, têm laços familiares reais! Enfim, espero que também tenham entendido a ligação que vejo que faz com que Chivukuvuku e o MPLA chamem os portugueses de irmãos !

 

Mas vamos fazer essa pergunta importante de qualquer maneira: de que forma Portugal seria um país irmão de Angola? Será porque os portugueses ocuparam as terras dos nossos antepassados durante 500 anos e violaram as nossas avós, mães e tias durante todo este tempo? Ou porque participaram do tráfico de escravos com o qual se enriqueceram e graças ao qual construíram um Brasil racista depois de esvaziar a África dos seus recursos humanos e naturais? Ou talvez porque recentemente facilitaram e participaram no saque do nosso país com os bandidos do MPLA? E diria Chivukuvuku, com a mesma emoção feliz, que os congoleses, do antigo Zaire e actual RDC, que acolheram nas suas casas os nossos movimentos anticolonialistas e milhares de famílias angolanas que ali se refugiaram durante a nossa Revolução, são nossos irmãos? Esta é uma primeira linha de pensamento para aqueles que se contentariam com slogans vazios e ansiosos por substituir o MPLA. Mas com o que queremos substituí-lo? Pelos mesmos imaginários colonizados e pelo mesmo espírito neocolonialista? O populismo e as promessas de encher os ventres dos angolanos com comida não são suficientes e como estamos à espera de outra coisa, mais sólida e mais séria do que o que o MPLA deu em 47 anos, o que propõe realmente o programa de ACJ para combater o racismo e anti-africanismo em Angola? Ele não pode evitar esse debate salutar se quiser ser levado a sério e actualmente é a pessoa mais legítima para o assumir. O projecto para Angola que esperamos dele e daqueles com quem pretende substituir o MPLA não pode escapar a esta questão crucial e decisiva para o futuro do nosso país. E como todos os alertas estão aí para nos desafiar e não basta pedir-nos para substituir o MPLA por nada ou pelo mesmo, vamos continuar este debate no próximo artigo.


Ricardo Vita é Pan-africanista, afro-optimista radicado em Paris, França. É colunista do diário Público (Portugal), colunista lifestyle da revista Forbes Afrique, cofundador do instituto République et Diversité que promove a diversidade em França e é headhunter.

 



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