Luanda - No Pioneiro Zeca, bem no centro da Maianga, cantávamos alegres que tínhamos a escola mais bonita e mais pequena de Angola, e que era lá que aprendíamos tudo quanto fazíamos e sabíamos. Para mim que havia feito a iniciação na escola da Zona Verde, num pátio e sem carteiras, estar ali significava o olimpo.


Fonte: NJ

Experimentei a realidade de levar banco para a escola em pleno ano de 1984, algo bastante comum, na época, pelo País.


Aos 6 anos, num ambiente novo e bem composto, aprendi a ler e a escrever, passei a ter contacto com outras crianças, para além da minha família, mas, acima de tudo, passei a ter referências de toda uma vida.
A Professora Rosa era magra e esguia, rigorosa na gramática, fazia questão de frisar a diferença entre o mais e o mas e não nos deixava abrir as vogais. Acompanhou a minha turma da sala 3 até à 4.ª classe, e lembro-me de ela falar dos exames nacionais que nos levariam até à 5.ª classe, com tanto atento e exultação que eu achava que estava perante o maior marco da minha vida.


Aos 8 anos, fui desafiada a declamar poesia na celebração do Dia Nacional do Educador e levei "A Tinta é Desta Lata" do meu padrasto Frederico Ningi. No ensaio geral, a voz saiu trémula e embaraçada na minha timidez. Talvez tenha sido esse o motivo da escolha do Professor Fernando, para eu ser a flor da escola... e foi imensurável a minha raiva por estar ali com uma grande coroa de pétalas enrolada na cabeça.


Os professores são mediadores de conhecimento, são os pilares do processo de aprendizagem, são parte da construção do projecto vida e do nosso desenvolvimento enquanto indivíduos e entidades sociais.


Em Fevereiro de 2020, estive na Canda, município de Calandula, Malanje, e conheci Gonçalves André Quicuto. Professor há mais 15 anos, era o único da aldeia. Tinha 140 alunos distribuídos por 4 turmas em 2 turnos, numa escola de adobe. Falava como um mestre, mas os olhos tinham lágrimas escondidas como âncoras perdidas em busca de socorro.


Disse-me que dava aulas da 1.ª à 4.ª classe e que conhecia cada um dos seus alunos. Apesar de gostar muito do seu trabalho, num acto público encheu-se de coragem e disse ao então governador Norberto dos Santos que precisava de ajuda e que não podia continuar sozinho naquela empreitada.


Não foi repreendido, muito pelo contrário. Teve o apoio do Soba João Cassule e o devido acolhimento do governador.


Uma sociedade luta pelo alcance do bem comum, partilha princípios fundamentais, uma sociedade não é um conjunto de barcos à deriva, onde o ego dos marinheiros está sobreposto a todas as coisas, inclusive à salvação de todos os tripulantes ou à definição de um rumo para cada embarcação.

O soba da Canda não ocultou a verdade, não fez vista grossa a um problema da sua comunidade e tão pouco temeu a presença da autoridade máxima da província.


O que temos observado são gestores atirarem para debaixo do tapete problemas incólumes, ditarem fraudes em relatórios e notas de rodapé como se estivéssemos a viver uma megalómana produção de Hollywood, que, por serem tão frequentes, de falsa imponência e com vários erros de palmatória, a plateia já sabe de cor onde tudo começa e termina e claro não compra mais o bilhete!


Com uma dedicação reconhecida por todos, hoje gostaria de saber se as coisas realmente melhoraram nos últimos tempos e se o herói Gonçalves André Quicuto continua a espalhar a sua magia pelas crianças da região. Uma magia que tem protagonistas espalhados por cada canto, um deles é Diavava Bernardo, que foi detido no dia 13 de Outubro por junto dos seus alunos reclamar por melhores condições na escola onde lecciona.


Solto sob o termo de identidade e residência, está a ser alvo de um processo disciplinar e judicial, pesa sobre ele a acusação de liderar uma marcha sem autorização e crimes de danos materiais. É certo que as manifestações carecem de prévia comunicação às autoridades competentes, contudo também é certo que se peca por excesso no cumprimento da lei.


A detenção de um professor nas circunstâncias em que foi não pode ser sentenciada e exibida perante um claro encobrimento dos factos, que, por fim, constituem bons argumentos de investigação, principalmente quando confirmadas as condições precárias da escola e ouvidos alunos e encarregados de educação.


A escola n.º 5118, em Viana, é uma das muitas que nos relatos oficiais surgem incluídas na estatística das que foram ou estão apetrechadas, das que têm todos os professores e as melhores condições de higiene... parece ser esse o estilo da nova retórica de quem governa, encher e martelar os dados para parecer que está tudo bem.


Em 1989, o Ngola Kanini não tinha água corrente e nem casas de banho asseadas... havia uma sala que servia para as necessidades e uma vez quase vomitei ao entrar. Passaram-se 33 anos e pouco mudou no País do homem novo.


A docência é uma das profissões mais importantes e que requer grande responsabilidade e, a par de muitas outras, merece grande respeito e admiração. Um professor não potencia apenas a discência, ele preserva o bem-estar do aluno, preocupa-se com a qualidade de ensino e o meio que isso envolve.


As palmas erguem-se por mais professores como Gonçalves Quicuto e Diavava Bernardo, que não abrandam a esperança de que algo pode mudar e dar certo. Como escreveu Cora Coralina: "Professor, sois o sal da terra e a luz do mundo".

 



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