Luanda - Agora que sabemos como pensam aqueles que os portugueses escolheram para governar o nosso país depois deles, com a sua cultura e os seus imaginários, e, isso entre eles os seus filhos, os seus vassalos históricos e os que trouxeram das outras colónias, que muito poucos conseguiam dominar perfeitamente as nossas línguas, chegou a hora dos filhos de Angola, como eu, aqueles que guardaram o orgulho dos nossos antepassados neles, levantarem-se para corrigir os erros acumulados e normalizados. Mas ainda me pergunto porque é que os meus anciãos, os daquele grupo de pessoas conscientes que lutaram para restaurar o nome original da capital do antigo Reino do Kongo, deixaram passar tal erro. Essa é uma discussão que eu gostaria de ter feito com o meu pai, que fazia parte desse grupo, se estivesse vivo, porque sabia escrever. Porém, a lógica das coisas já me diz que a arrogância do bom colonizado do MPLA não poderia dar ouvidos a tais conselhos, como não o faria hoje. A arrogância de baixo nível é sua assinatura, é até uma cultura, que é basicamente uma estupidez enraizada que impede a compreensão. Sabemos que os Salazaristas diziam "Angola é Nossa", o MPLA e os Assimilados também dizem "Angola é Nossa". E sabemos de que Angola falam. Só que a Angola deles já não é sustentável, não é africana, e o espírito dos novos tempos é africano e de forma sustentável. Mas ainda assim ouvimos recentemente balbucios vindos da Academia Angolana de Letras, uma coisa híbrida, extraída em 2016 das profundezas dos redutos históricos da fanfarronice intelectual dos Assimilados que até agora brilharam pela sua inutilidade, que deve, no entanto, ser acolhida com encorajamento, pois expressa aqui um desejo de existir utilmente. Se a função primária de tal instituição é zelar pela língua, será fácil adivinhar por qual ela zela. Em todo caso, não pela língua da minha boca, permitam-me o trocadilho! Mas agora que quer vir em auxílio do deus que levou à sua criação, o Partido-Estado MPLA, nos moldes anunciados, antes fiquemos atentos e felizes! Porque, pela voz do seu mais alto dirigente, deu a conhecer que quer ajudar o seu país, liderado pelo falido Partido-Estado desde a Independência, a tratar das questões relacionadas com a toponímia e a identidade nacional. É uma digna expressão de vontade que devemos saudar. Sim, digna, porque há quem até elogie a instituição por ser, ao que parece, vanguardista nesta questão, ela inventou o sol! No fundo, queremos acreditar que foi ela quem iniciou esta reflexão! Que assim seja, enquanto o nosso país avançar, aceitaremos tudo! Mas vamos esperar para ver o trabalho!

Fonte: Club-k.net


Mas o certo é que a função do intelectual é antes de tudo pensar e nenhuma sociedade produziu intelectuais sérios que dependem de um partido-estado para viver. Então, como alguém pode ser intelectual num país onde o partido-estado controla tudo, inclusive o pensamento? A ideia em si é assustadora na medida em que o pensamento só floresce na liberdade e no desejo pela defesa obstinada de um ideal sacrificial, que, portanto, empurra um verdadeiro intelectual para fora das fileiras para ser uma voz dissonante. Por exemplo, em Angola, se o problema é o MPLA, como lhe dizer isso sem arriscar o pão? Certamente essa deve ser a realidade de muitas pessoas brilhantes que vivem amordaçadas nesse país. E desde que o poeta assassino executou a sua melhor obra, que conhecemos todos, o espírito crítico está totalmente morto no MPLA e o partido não deixou de produzir lisonjeiros ou uma corporação que não pensa ou que talvez pense em sussurro. Na verdade, os intelectuais produzidos pelo MPLA são comerciantes e aproveitadores. Talvez seja também por isso que o país não tem uma única referência de pensador reconhecido mesmo a nível africano. E como os que escrevem livros são ou saíram do seio do MPLA e geralmente se dizem intelectuais, mesmo quando nunca conseguiram produzir e defender nada transcendente, aqui se anula totalmente a função pensante do intelectual. Porque mesmo aqueles que escrevem romances medíocres se dizem intelectuais, acabamos por não saber mais a definição de intelectual. O intelectual é aquele que diz coisas que assume e com as quais se compromete por meio do conhecimento. E o romancista é aquele que diz coisas que inventa e pelas quais é irresponsável por ser artista. Então, como basicamente só temos artistas; - sim, são praticamente todos músicos, tocam guitarra quando bebem vinho tinto ou uísque nos seus intermináveis almoços e cantam em kimbundu como se dominassem mesmo essa língua africana, - e do MPLA, uma reflexão aprofundada sobre topónimos no nosso país não poderia, portanto, ser feita a sério antes. Porque entre os verdadeiramente ignorantes, os complexados, que têm conhecimentos desajustados à realidade do país, e os saudosistas, que querem manter o espírito colonial, a reflexão e as iniciativas de quem realmente sabe das coisas, que conhece as nossas culturas e que não faz parte da referida corporação não podem ser ouvidas e não podem chegar ao coração gangrenoso do MPLA que tudo decide. Assim, devemos naturalmente concluir que quando decidiram no MPLA sobre a toponímia de Angola, não houve no conciliábulo, para não dizer pandemónio, nenhum credível falante de umbundu, kimbundu, kikongo, côkwe e de outras línguas dos nossos sábios povos? Sim, porque se assim não fosse, por exemplo, não teríamos permitido que se escrevesse o nome da antiga capital do Reino do Kongo como ainda se escreve.


Mas qualquer falante nativo da língua kikongo, como eu, sabe que Cidade de Luanda se traduziria em kikongo como Mbanza-a-Luanda. Porque, ao contrário do que os alienados possam pensar ou ignorar, antes da chegada dos Brancos ao nosso país, já sabíamos diferenciar uma cidade de uma aldeia. A capital do Reino do Kongo, pela sua importância e influência desde as suas origens sempre foi uma Mbanza, portanto uma cidade, ao contrário de vatá, uma aldeia. Notamos o “a” entre Mbanza e Luanda? O "a" em kikongo é o equivalente ao "de" em português. Então, se imaginarmos frases ou construções de frases em português que não tenham essa necessária preposição, "de", elas ainda terão o mesmo significado? Não. Estamos exactamente na mesma situação quando escrevemos Mbanza-Kongo! Mas admitamos ainda que provavelmente não o tenhamos notado com frequência porque a ausência do "a" aqui é menos audível do que seria em Mbanza-a-Luanda, o que até engana o ouvido de alguns nativos da língua kikongo menos atentos. Os falantes de kikongo entenderão melhor com este outro nome da antiga capital do Reino do Kongo: Mongo-a-Kaila, que significa literalmente, Montanha da Distribuição. Mas isso não desculpa o erro.


Ricardo Vita é Pan-africanista, afro-optimista radicado em Paris, França. É colunista do diário Público (Portugal), colunista lifestyle da revista Forbes Afrique, cofundador do instituto République et Diversité que promove a diversidade em França e é headhunter.

 

 



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