Luanda - No meu tempo de funcionária da Rádio Ecclésia, o bairro do São Paulo fazia parte do meu itinerário diário. Em 1999, as ruas eram muito mais limpas, havia muito mais segurança e era um gozo cruzar as imediações que me levavam para o Bairro Operário e para o Miramar.

Fonte: NJ

O mercado não era desconhecido de todo, pois sem supermercados à disposição as praças eram a nossa opção. Quando comecei a trabalhar aos 17 anos, eu não sonhava com roupas de marca, eu queria mesmo era ir aos Congolenses ou ao São Paulo ver os perfumes, a roupa interior e os sapatos. Funcionava como o fim do prurido da reclusão, que o meu último ano antes da vida adulta me conferiu.


Falavam-me muito do Roque Santeiro, mas eu tinha medo. Passei por lá uma única vez com a minha Avó Antónia e as minhas tias Nzinga (em memória) e Carla quando estávamos a caminho para a Igreja de Santo António, algures no ano 2000, e paramos para comprar velas.



As coisas estavam muito mais organizadas e dava algum orgulho sentir que tínhamos uma forma peculiar de viver, sem sermos de todo inflexíveis ou agentes de ilicitudes.


De candongueiro eu ia para todo o lado e era aí onde eu sentia o pulsar da Capital. No Kinaxixi, eu descia perto da Universidade Católica, as minhas colegas já iam de motorista e, por vezes, o coração ficava mais pequeno ao olhar para o "peixe" do vizinho, mas a vida tinha de continuar. Eu saía dali, onde frequentei o 1.º ano da Faculdade de Direito, directamente para a Rádio, mas de vez em quando eu e os meus camones jornalistas, almoçávamos no mercado (Kinaxixi) e era bom fazer aquilo tudo sem kijila e com uma destreza bem luandense.



Eu dominava quase todas as paragens e rotas da urbe. Uma vez um motorista olhou para mim e disse que não gostava de mulatos. "Moça desculpa só ya, mas eu não gosto mesmo de mulatos". ... Eu era a única mestiça naquele Hiace e saí de lá em lagrimas... ao chegar a casa, disse à minha mãe que odiava ser mulata e que não queria mais andar de candongueiro.



Azar meu, eu não tinha alternativa. Saía da rua de Caconda no Bairro Popular, até à Deolinda Rodrigues todos os dias, para fazer-me à vida e era ou sim ou sopas. Em média, eram três a quatro viagens por dia, não me custava pagar porque trabalhava entre outras coisas para isso. Um dia, cansada de andar com a Mónia (amiga da Católica) pela Maianga, fiz sinal para o candongueiro parar na Kwame Nkrumah, mas ela disse que não andava de transportes públicos e seguiu a pé.

Na verdade, o meu mundo nunca foi fantasiado e andar de candongueiro por exemplo só me começou a pesar quando entrei para a TPA e passei a ter uma síndrome que não era bem de pejo, mas de reivindicação de status ou coisa do género.



Antes disso, eu não augurava ter um carro na perspectiva de uma realização pessoal imediata. As conversas no candongueiro (que agora convenientemente se chama de táxi) eram uma transcrição da realidade e quantas vezes eu ria à brava, quantas vezes sentei na baúca, quantas vezes eu emagreci mesmo sendo tão magra na altura.



Vinte anos depois do fim da guerra, Luanda transformou-se numa cidade monstruosa, onde tudo acontece e todos mandam, inclusive os sem patente. Chegar à Comandante Bula é atravessar vários mercados ao longo da Cónego Manuel das Neves, que crescem e não são os mesmos todos os dias. É uma invasão à tolerância, ao bom-senso e à organização, há moradores por lá a quererem fugir porque com os mercados vem gente sem norte, violência e confusão.



A Machado Saldanha que tanto absorveu da minha infância e adolescência nunca mais foi a mesma desde que se decidiu arranjar as condutas de água que tiraram a vaidade das famosas sete ruas do Bairro Popular que continua sem água e ficou esburacado num labirinto amorfo.



Há dias em que apetece chorar ao olhar para a Ilha de Luanda... virou matongué com as praias repletas de imundice e que são espaços para grandes bodas, com colunas, Djs e pinchos. Já vi cama e sofás perdidos na festa daquele mar... temos mesmo um Ministério do Ambiente?



A Mutamba e toda a circunscrição da baixa são redutos de algozes e heróis, não dá gozo chegar ao Baleizão ou à Marginal. Edifícios velhos, abandonados, obras inacabadas, insegurança e estradas que não fazem jus ao nome e assim segue.



Aos nossos olhos parece que se ergueu um plano para acabar com a Capital, ano após ano, pois certamente isso é tudo menos normal. Os Executivos entram e saem sem transformar, sem edificar, sem educar, sem prestar contas, sem exigir também.



Vem o vento e a esperança espreita com a promessa do sol e água fresca para quem ainda acredita pouco, mas acredita. No dia 03 de Novembro, o Governo aprovou o Plano Integrado de Intervenção de Luanda (PIIL), orçado em mais de 12 biliões de kwanzas, para revitalizar a Cidade.



São 2.789 projectos para a construção de estradas, iluminação pública, infra-estruturas de saúde e requalificação de vários bairros, entre outros. Parece-me bem e faço vénia, não vou colocar a carroça em frente aos bois, por enquanto, mas inquieta-me saber o que se está a pensar fazer para que a população respeite os bens e património público? Para que se desacoitem as vandalizações e o pensamento de que se está na terra de ninguém? O que se está a fazer para se ter uma Polícia Nacional mais actuante e cumpridora do seu papel? Já que nas ruas os agentes assistem a assaltos, roubos, infracções no trânsito e insubordinações escondidos nas suas fardas.



Luanda tem solução e começar pelo PIIL pode ser o caminho mais próximo. Contudo, nada disso terá sucesso se a mudança não partir das instituições que têm a voz de comando. No momento em que escrevia este texto, li nas notícias que indivíduos não identificados furtaram 600 fixadores da linha-férrea, em Viana, causando vários constrangimentos à circulação ferroviária. Faz parte do pacote vermos esses casos, continuamente.



A Cidade precisa de medidas de Tolerância Zero ao estilo de Rudy Giuliani, o Mayor de Nova York que acabou com as perversões naquela metrópole ao combater impiedosamente dos pequenos delitos ao crime organizado. Mais de 1.200 criminosos ligados à máfia foram parar a cadeia entre 1994 e 2001.

 


Luanda, a tua prosa, é igual às meninas vaidosas que nestas paragens cegam os homens e arrolam os seus pensamentos de modo perene. Quem por ti passa quer ficar preso à magia e de olhos abertos sentir que se realiza a profecia da mudança sem salvas a utopia.

 



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