Luanda - Prezados “jornalistas bem comportados", engravatados e perfumados, que só fazem perguntas previamente validadas pelas ordens superiores.

Fonte: Club-k.net

Agora que o indomável Lula da Silva "botou a boca no trombone", espantado com o silêncio submisso de quem deveria fazer barulho com profissionalismo, tentem pelo menos não esquecer tudo aquilo que "nós, os outros" temos alertado há séculos sobre o tipo de relação que o Palácio Presidencial da Cidade Alta teima em manter com a comunicação social.

 

Uma relação paradoxalmente selectiva e promíscua, com fortes indícios de "estupro com vaselina pré-paga", uma relação com prazo de validade vencido mas replicada todos os dias no Kremlin, nos Governos Provinciais, nos Comités Provinciais do Partido, nas embaixadas e consultados de Angola pelo mundo, em quase todas as empresas públicas e no Grupo Parlamentar do Maioritário onde estão proibidas até simples entrevistas para a imprensa privada.

 

Vale a pena ler de novo o meu texto premonitório de 21 de Dezembro de 2018.


A assessoria de imprensa do Palácio Presidencial teima em restringir o contacto do Presidente da Republica com os jornalistas angolanos a uma pergunta mitigada. E ponto final.

Nada de réplicas, esclarecimentos adicionais e muito menos questionamentos imperativos. Todo o mundo sabe que a prioridade da assessoria de imprensa do PR é blindar o Presidente de todos os angolanos para o proteger das “investidas” da imprensa angolana, permitindo apenas entrevistas exclusivas a órgãos de comunicação estrangeiros, de preferência ocidentais.

Foi assim com a entrevista à Euronews, no coração da Europa, de onde abortou o voo inaugural da famigerada Air Connection Express. Lembram-se? Foi assim na suculenta entrevista ao Expresso de Portugal, em que revelou que tinha encontrado os cofres do Estado literalmente vazios.

Já tinha sido assim logo após à vitória eleitoral de 23 de Agosto de 2017, quando rumou para a Espanha e anunciou, em entrevista à agência EFE, que seria a reencarnação de Deng Xiaoping, o pai da modernização da China.

Tem sido sempre assim: o Presidente da “nova” Angola mantém o “velho” hábito de conceder entrevistas exclusivas apenas a jornalistas da imprensa estrangeira, do primeiro mundo, contemplando os angolanos com as migalhas de entrevistas colectivas em que nenhum jornalista tem direito a uma réplica, a um simples pedido de esclarecimentos, a uma natural clarificação de um ou outro dado. Nada. Uma pergunta e ponto final.

Todo o mundo sabe disso. Todo o mundo já percebeu como funcionam as armadilhas do Palácio. Antigamente, no tempo do “arquitecto”, tudo era mais simples: ninguém estava autorizado a perguntar nada. Absolutamente nada. Porque o Chefe não gostava e o general não tolerava.

Hoje, a estratégia é mais descarada: as portas do Palácio estão abertas. Todo o mundo pode fazer uma pergunta. Mas ninguém pode perguntar como. Nem porquê. Todo o mundo sabe disso.

O que muita gente não sabe é que as armadilhas do Palácio são muito mais prejudiciais para o Presidente João Lourenço e “sus muchachos” do que para os sedentos jornalistas angolanos.

Quando o PR não pretende ou não consegue explicar como e quando vai pagar uma dívida bilionária contraída sem o conhecimento da Assembleia Nacional, o Povo desconfia. Quando o líder não declara publicamente os seus bens, o seu património, os seus activos, o Povo desconfia.

Quando o mais alto magistrado da Nação prefere a imprensa estrangeira para tentar decifrar o código dos marimbondos, o Povo desconfia. Quando o titular do poder executivo mantém no activo auxiliares que não sabem bem qual é o índice de desnutrição, a taxa de desemprego ou o número de empresas que faliram porque o Estado não pagou a dívida pública, o Povo desconfia.

O modelo imposto pela assessoria de imprensa do Palácio é anacrónico, reacionário e muito perigoso. O desastre da conferência de imprensa da equipa económica (a pior de todos os tempos) foi só mais uma prova de que estamos perante uma ASSESSORIA CONTRA A IMPRENSA.

Todas as tentativas de “livrar” o Presidente das impertinências dos jornalistas nacionais não vão ajudar a corrigir o que está mal. O mundo está cheio de exemplos de líderes do terceiro mundo que “se ferraram” por terem menosprezado a imprensa doméstica, preferindo pontificar nas manchetes da media ocidental. Depois não nos venham dizer que o Presidente foi mal aconselhado. Esse coro já conhecemos.