Luanda - Uma afirmação feita em Luanda pelo Secretário de Defesa dos EUA, Lloyd Austin, durante a sua recente passagem pela capital angolana, no quadro da sua visita ao continente africano, chamou, com toda a justiça, a atenção: - “África merece mais do que estranhos que tentam tomar o controlo deste continente. E África merece mais do que autocratas a vender armas baratas, a empurrar forças mercenárias como o grupo Wagner ou a privar de cereais pessoas famintas em todo o mundo”, disse o governante norte-americano.

Fonte: JA

Tem toda a razão. Mas, obviamente, faltou-lhe dizer desde logo que "estranhos” são esses. Nós, africanos, sabemos bem quem são eles: trata-se, em primeiro lugar, dos ex-colonizadores ocidentais, os quais, após as nossas independências, querem manter a exploração neocolonial dos nossos territórios (muitas vezes com a conivência de alguns dos nossos próprios dirigentes); por outro lado, e olhando para a História, custa a acreditar que a principal potência mundial se autoexclua desse grupo de "estranhos que tentam tomar o controlo deste continente”. A propósito, tenho uma particular dificuldade em comentar, sem perder a compostura, as declarações de Austin acerca dos "autocratas que vendem armas baratas aos países africanos”, sabendo-se que uma das propostas dos EUA ao Governo angolano é o fornecimento de equipamento militar. Talvez a diferença esteja no preço.

O governante norte-americano estava a referir-se, claro está, à Rússia. Concordo mais uma vez com ele. Nem o facto de a União Soviética, antecessora da Rússia, ter apoiado as lutas dos povos africanos pela sua independência, contrariamente (é preciso dizê-lo?) aos EUA, justifica as intenções "imperiais” russas, que conhecemos bem, não precisando de alertas de ninguém nesse sentido. E se tais alertas supostamente bem-intencionados se referem à China, também os agradecemos, mas somos suficientemente inteligentes para identificá-los.

É próprio de todos os países imperialistas ou com vocação imperial tentarem influenciar e mesmo controlar os demais. Não escapam dessa tentação sequer as potências emergentes, se não as suas autoridades, pelo menos as suas multinacionais (veja-se a atuação predadora da brasileira Vale do Rio Doce em Moçambique).

Estando, assim, entendidos, insisto que para nós, africanos, o caminho não é o alinhamento com qualquer uma das potências, tradicionais ou emergentes, mas a autonomia. Recordo mais uma vez o texto "Os ventos da mudança”, assinado por um grupo de cinco intelectuais moçambicanos e publicado no passado dia 7 de Setembro no saite "filosofia pop”, para reiterar que os nossos países precisam de participar no atual esforço de mudança de paradigma internacional, visando substituir os 700 anos de hegemonia desumana do Ocidente; como dito no referido texto, não se trata unicamente da desdolarização da economia-mundo, mas também da revisão do estatuto das instituições globais que regem, tutelam e garantem desde o fim da 2ª Guerra Mundial o status quo: as assimetrias das relações económicas e de poder entre as potências vencedoras da guerra e o resto do mundo.

Os BRICS parecem um caminho adequado para esse efeito. Avisam os autores do referido texto: - A questão que se nos põe (...) é como participar neste esforço de mudança de paradigma para prevenir que não seja uma ulterior partilha do mundo, desta vez entre os antigos ricos e os ricos emergentes. Aliás, se não estivermos atentos, se não anteciparmos a direção dos ventos, os BRICS (potenciais novos-ricos) não vão representar simplesmente uma subida em flecha de uma nova força económica global, eles vão confrontar-se, como já acontece hoje no Sudão, Etiópia, Sahel (...), com as velhas forças de dominação (EUA e Europa) em conflitos económicos e até bélicos, com os nossos países e o nosso continente a servirem de campo de batalha”.

*Jornalista e escritor