Luanda - No dia em que o apoio de Angola à sua selecção ultrapassou as fronteiras de partidos. Estava em Tottenham em Londres, numa discussão acesa com os meus ex colegas de Mestrado no Brunel University; Abdoul e Ademola, eles eram Nigerianos. É que no jogo realizado na terra deles Angola conseguiu pontuar e a qualificação dependia agora do resultado dos Palancas Negras em Kigali.

Fonte: Club-k.net

Angola will lose by 4 0 in Kigali and Nigeria will qualify for the Wold Cup. Nunca me senti tão ameacado como naquele dia. No meu regresso à Luanda, assistia na Vila Alice à uma daquelas reuniões dos Comités de Especialidade quando o tema do jogo de Kigali foi tocado nos corredores.


No dia seguinte fui eu na Cidadela, na sede da FAF me inscrevi na lista da claque que seguia para Kigali. No dia 'D', apanhamos o avião até ao Rwanda.


À chegada, verifiquei que o aeroporto local estava cheio de aviões com a bandeira vermelha e negra. Nesse dia, a organização do movimento espontâneo revelou se medíocre, não havia sítio para dormirmos. O número era demais, mas pagamos 2 dias de hotel de 4 estrelas pelo menos, NADA.


Os jogadores estavam no Hotel Mil Collines, tentei ir com um amigo para dar força aos rapazes, qual quê? Proibição total. Ninguém está autorizado a encostar nos rapazes, nada de cerveja ou desbunda.


O Comandante Prata estava lá. Pareceu nos que neste dia, a nossa Segurança Externa (SIE) trabalhou melhor que o movimento expontaneo. Havia uma presença forte de operativos no terreno. Nos disseram que o General Miala esteve lá pessoalmente dias antes do jogo e deixou seus homens.


Os jogadores estavam naquele hotel mas a comida veio de Luanda, as panelas, as cozinheiras, os garçons, os lençóis, fronhas, tudo angolano, só não sei se os colchões também. Nós fomos alojados no dormitório de uma Universidade local. Não havia lugares que chegassem para todos; houve meninas que não pagaram mas subiram no avião para Kigali, não sei quem os meteu lá. Elas foram recolhidas e acomodadas numa igreja.


À noite, começou a desbunda e a bagunça:os angolanos naqueles anos, brincavam mesmo com a nota verde e isto era atractivo para a economia do Rwanda. Os taxis de Kigali abandonaram as suas paradas habituais para se concentrar nos locais onde estavam alojados os angolanos. Eles levavam um Angolano num local e os angolanos pagavam a dobrar. Os cambistas vieram duas vezes no dormitório trocar os dólares e o Franco ruandês acabou.


Os bares já não tinham mais vinho nem cerveja, compraram tudo, bebedeira, a claque angolana espalhou se pelas ruas da baixa de Kigali.


Em todas as boites e dancing clubs, a situação era a mesma; as pessoas estavam vestidas com camisolas, chapéus, com a efígie de JES, cachecóis dos Palancas Negras,bandeirinhas de Angola.


De manhã, era a preparação para ir ao jogo mais uma confusão, no local, houve um rapaz que trouxe uma senhorita no quarto e não pagou, a miúda fez confusão e partiu uma garrafa de Whisky, muitos angolanos correram ao local e cada um começou a dar na miúda os restos de troco que tinha só para nos deixar ir em paz no Estádio. A menina já não tinha mãos para conter o excesso das notas de 10, 5 e acredito 20 dólares nas mãos. Nós a perguntamos: ça vá maintenant? Comme ça c est Bon? Oui! ça vá e a miúda meteu o dinheiro na pasta, de seguida, apanhou uma motorizada.


Houve alguém do claque de Sambizanga presente no local que perguntou: eh pá, quem mais trouxe uma cambonza aqui e não pagou, é melhor falar, podemos fazer mais uma vaquinha, nós queremos ir ao mundial.


Alguém nos convidou para tomar o pequeno almoço num hotel de 5 estrelas, lá estava hospedada toda a direcção do Movimento Expontaneo assim como alguns VIPs como o PR da FAF e lá me encontrei com o falecido Fifi Nzuzi Ndolumingu e o Puto Degas do Primeiro de Agosto. Nós comemos, éramos 6 pessoas e o moço disse que ele iria pagar tudo. Eu fiquei envergonhado, eu era o um dos 2 mais velhos presentes e um puto pagava.


Apanhamos o táxi para voltar nos quartos e o taxista parou para abastecer, meteu pouca gasolina , um dos rapazes nossos disse me: Kota traduz para ele encher o depósito que eu pago. Eu disse ao rapaz: tu fais le plein, Mon petit frere lá derriere vá payer.


O rapaz exclamou : eu nunca enchi o depósito desse carro e um pouco a gozar para mim disse, se meu carro avariar, Vieux, tu es responsable, nós rimos.
Dalí, Fomos até ao parque e entramos nos autocarros à caminho do Estádio Amahoro.


À nossa chegada foi saudada com ameaças da claque local que nos faziam sinais de corte da garganta. Nos puseram num local face ao sol, começamos a ficar deshidratados, não parávamos de comprar litros de água mineral. Reclamámos, Marcos Barrica interviu e nos trocaram para o lado da tribuna. Quando íamos para a tribuna, me apercebi de algo curioso, pelo tipo de armamento americano, israelita e estilo de snipers no local, dava sinal que alguém muito VIP vinha para o jogo mas longe de imaginar que fosse Paul Kagamé em pessoa. Eu me interroguei sobre a razão da presença dele num jogo cuja a vitória não daria NADA ao Rwanda.


Mas pensei no Projecto "EU ACREDITO" de João Lusevikueno. "Temos que ganhar esse jogo nem que seja com uma chuva de picaretas, havia eu dito à um repórter da TPA no aeroporto 4 de Fevereiro. Me lembro também que dias antes do jogo, eu havia almoçado com o Professor Félix Mizé Seke no Hotel Alvalade em Luanda e na mesa ao lado, almoçava AKWA com seus amigos, na saída eu a brincar com ele: AKWA sonhei que vais marcar 2 golos e vamos ganhar a duas bolas contra uma, está bem foi a resposta dele.


O Estádio deles tem lugares designados para certos bairros, quando o animador falasse ao microfone Remera! Rwesero! Gitega! Muhuru! A população respondia com uns gritos ensurdecedores: Uuuuhhhh.


Começamos a perder o ânimo com a monotonia do jogo e a esperança até que Deus e Jesus revelaram a sua verdadeira nacionalidade: há uma triangulação entre Zeca Langa e o Pedro Mantorras, o Macaco Velho que empurra o miúdo para o lado direito como quem diz vai lá e cruza a bola e aconteceu aquele cruzamento de Nsimba Baptista (Zeca Langa), recebido pela cabeça do puto Fabrice Mayeko Akwamaketo : Goooollooooo, vejo atrás muitas bandeiras a flutuar incluindo bandeira da UNITA, muitos abraços . O futebol eliminou já as barreiras de partidos, afinal ANGOLA é só Um. De tanto gritar, as nossas vozes ficaram roucas.


Ganhamos o jogo e ameaçamos fazer confusão se não nos pusessem em hotéis que justificasse o dinheiro que pagamos em Luanda. Eles nos trocaram para hotéis mais dignos mas assim que recebiamos a chave do quarto na recepção , ouvimos barulho lá fora do hotel e fomos ver; oh! aquela menina da confusão dos 5,10, 20 dólares descobriu onde meteram a claque angolana, veio com mais três amigas, para "bumbar". Os miúdos do Sambila reagiram : eh moça! não vem mais aqui sua **, já recebestes muito dinheiro, hoje de manhã, vai mbora, vai embora!


Foi dentro do avião que nos deram a notícia da falta de alguém : o "Rasta' ficou em Kigali para fazer pedido de noivado à uma menina que conheceu na noite que chegamos ao Rwanda.

Foi o dia que ser angolano valeu muito.

Bens Nyoka Abílio.